O estigma é grande. Quem tem muito peso, é porque come muito. Quem atinge valores da balança para lá de elevados não se controla. Até pode ser verdade, mas é bem provável que o problema já tenha nascido consigo. A obesidade afeta “mais de 60% da população portuguesa adulta”, refere Mariana Monteiro, médica, investigadora Multidisciplinar de Investigação Biomédica e professora da Universidade do Porto.

“A ideia feita de que a obesidade resulta exclusivamente dos maus hábitos não é real. Não é obeso quem quer, mas quem pode. É preciso ter terreno genético e a maior parte tem predisposição genética para desenvolver obesidade.”

É isso. Quem é obeso já terá, à partida, nascido com uma predisposição genética para tal. “Dependendo das populações, o peso dos genes atinge cerca de 50% das pessoas”, diz.

O motivo relaciona-se, maioritariamente, com a quantidade de genes poupadores — aqueles que nos fazem acumular mais energia e gastar menos — que existe em determinado indivíduo. A presença destes pode ser hereditária. Uma criança que tenha pai e mãe com uma grande quantidade destes genes terá uma probabilidade muito grande de ter problemas de obesidade. Quem só tiver um dos pais com este perfil, poderá ver o problema diluído, mas também não é certo.

Estes genes podem também nascer de fatores externos, nomeadamente por medidores de ambiente (nicotina, plástico, comida processada) que alteram a genética e, no caso de uma mulher grávida, a do feto.

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“Estes efeitos ambientais passam da mãe para o filho e do filho para os netos. Eles atravessam a placenta, chegam às células dos filhos, incluindo dos ovários e testículos, o que faz com que passem para a geração seguinte”, diz.

Para o bem ou para o mal, a alimentação da mãe, influencia muito o futuro dos filhos. “Na prática, quanto mais processado o alimento, maior a probabilidade de haver um agente que possa ter efeito na genética. Pode não ser linear, mas a probabilidade é maior.”

Um ponteiro avariado

Além desta predisposição genética, há ainda outra condição que poderá ser uma das causas da obesidade, ainda que afete uma percentagem muito menor da população. Os casos são mais raros, mas a situação é grave e leva aos piores casos. Imagine um ponteiro da gasolina avariado, com o ponteiro sempre em baixo, ainda que o depósito esteja sempre cheio. É isto que acontece. Há uma incapacidade para “produzir uma hormona que é leptina”, que faz com que haja uma apetite insaciável e um problema de excesso grave desde a infância.

“A leptina é a hormona que nos indica o nível de energia com que estamos. Quem não a produz, pensa que tem sempre o depósito vazio. Sente-se fraco, com fome e come.”

Neste caso, o tratamento dirige-se à causa. “Temos uns mecanismos fisiológicos que regulam aquilo que comemos. Há hormonas produzidas pelo tubo digestivo que dizem que estamos saciados. Atualmente, já há no mercado moléculas semelhantes a estas hormonas, mas com duração maior e mais potente, utilizadas para tratar a obesidade”, explica.

“Mas existem outras moléculas, que inibem o apetite, derivados de moléculas semelhantes às anfetaminas (ainda que afastadas), que atuam no sistema nervoso central e que interferem com o apetite. Mas só existem nos EUA. Na Europa não, porque estão associadas a problemas cardíacos.”

Há vários níveis de intervenção para solucionar o problema de excesso de peso. A sua aplicação varia consoante o grau do problema. Há a intervenção no estilo de vida, que passa por uma alteração na dieta e por uma vida mais ativa. Há as consultas aos nutricionistas, que prescrevem planos alimentares e aconselham. Há os análogos das hormonas da saciedade. Para os casos mais graves — muitas vezes em que o tempo de vida não é suficiente para que se perca o peso de forma eficiente, sem que este seja recuperado (o organismo sente-se roubado e volta ao patamar anterior) — há a intervenção cirúrgica, a cirurgia bariátrica.

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“Modifica-se o tubo digestivo, modifica-se o tubo de comunicação das hormonas e há menos apetite, mais saciedade e maior gasto de energia.”.

A ponta do iceberg

Estilos de vida sedentários e dietas pouco saudáveis só vêm piorar a situação. Estamos a comer muito. “Nos Estados Unidos e na Europa comemos mais de 150 gramas e mais de 129 gramas de açúcar por dia.”

A obesidade é “a ponta de um iceberg”, em que, por baixo, estão doenças que lhe são decorrentes, como diabetes tipo II, o mais grave — a junção dos dois até já tem nome: é a diabesidade.

“Uma pessoa com um peso normal e que fume tem risco aumentado de doença cardiovascular. Uma pessoa que não fume e com excesso de peso tem o mesmo risco.”

Segundo a investigadora, a obesidade é a principal causa de morte prevenível e é a doença do século XXI. Se nos anos 90 se morriam de doenças infeciosas, atualmente as maiores causas de morte são as não comunicáveis, em que se inserem as cardiovasculares, diabetes, cancro e outras decorrentes do excesso de peso.