Teste. 10 perguntas para entender o seu nível de FOMO (o medo de ficar de fora do que se está a passar com os amigos). E como superá-lo.

O medo de ficar de fora do que se está a passar tem vários níveis e formas de ser superado. O psicoterapeuta Pedro Martins explica tudo.

O fenómeno FOMO acontece maioritariamente em jovens, no sexo masculino e em pessoas que têm baixa auto estima, pouca satisfação com a vida e dificuldades relacionais

Rawpixel / Unsplash

Talvez tenha amigos a viajar pelo mundo, colegas de trabalho a investir na carreira ou amigos do Facebook que não param de partilhar fotografias do seu último concerto. Enquanto isso, está a trabalhar ou sozinho em casa, a olhar para o telemóvel e a desejar estar a fazer tudo aquilo. Só que não está, e de repente isso deixa-o ansioso. Com medo. O que é que estará a perder? Será que não é verdadeiramente feliz?

O Fear of Missing Out (FOMO), em português “medo de ficar de fora”, envolve uma ansiedade de que se possa estar a perder um momento excitante que está a acontecer noutro lugar. É esse medo que faz com que se esteja sempre a atualizar o feed das redes sociais, para saber o que é que os outros estão a fazer. Não se quer sentir excluído. Depois vem a questão: será que se estão a divertir mais do que eu?

Os níveis de FOMO podem variar de pessoa para pessoa. Já é possível fazer o teste: o psicólogo Andrew Przybylski, da Universidade de Essex, no Reino Unido, desenvolveu uma escala de dez perguntas que determinam o quão alto é o seu medo de ficar de fora: só tem de responder classificando-as de 1 a 5. No fim, basta somar todas as classificações e perceber em que nível está.

  1. Temo que outros tenham experiências mais recompensadoras do que eu.
  2. Temo que os meus amigos tenham experiências mais recompensadoras do que eu.
  3. Fico ansioso quando descubro que os meus amigos se estão a divertir sem mim ou que não me convidaram.
  4. Fico ansioso quando não sei o que meus amigos estão a fazer.
  5. É importante que eu me sinta integrada no grupo de amigos e entenda as brincadeiras deles.
  6. Costumo questionar-me se perco muito tempo a ver o que está a acontecer na vida dos meus amigos, nas redes sociais.
  7. Incomoda-me quando perco uma oportunidade de sair ou de me encontrar com os meus amigos.
  8. Quando me divirto, é importante partilhar todos os detalhes nas redes sociais.
  9. Incomoda-me quando falto a uma reunião planeada com os meus amigos.
  10. Quando vou de férias continuo a acompanhar o que os meus amigos estão a fazer, para ficar a par de tudo o que está a acontecer.

Se pontuar de 0 a 14 provavelmente não sofre deste fenómeno. Entre 15 a 22 está no risco de vir a sofrer. Dos 23 aos 29 sofre de FOMO médio. Se pontuar de 30 para cima, o seu nível de FOMO é severo.

O psicoterapeuta Pedro Martins explica que o FOMO acontece porque não se pode estar em todo o lado ao mesmo tempo. Há que fazer escolhas: “A arte de viver é a arte da renúncia, é preciso renunciar a umas coisas para ter outras. Aqui a renúncia tem o peso de perder qualquer coisa”. E nem todos conseguem escolher o que perder, acabando por não ficar satisfeitos com nenhuma decisão: “Eu tenho de escolher a que festa vou mas, se fico a pensar que estou nesta festa e gostava de estar na outra, na verdade, acabo por não estar em nenhuma e dificilmente consigo tirar alguma satisfação. Mas, se estamos com medo do que estamos a perder, dificilmente ganhamos alguma coisa”.

Pensamos que está alguma coisa mal connosco quando não conseguimos fazer tudo, e isso é uma atitude autodestrutiva e um objetivo impossível. Nós temos limites e, de alguma forma, não reconhecer isso é uma via aberta para aumentar a ansiedade e a depressão”.

O fenómeno, que já existe há vários anos, ganhou maiores proporções por causa das redes sociais — tudo porque agora consegue estar ligado a toda a gente em todos os momentos. Pedro Martins afirma que “o FOMO é sentido independentemente da fonte de onde se obtém a informação do evento ou atividade social. Seja por um amigo ou nas redes sociais, o efeito é o mesmo”. No entanto, com as redes sociais é natural que a ansiedade ainda possa ser maior: não há forma de não ver. “O próprio Facebook faz questão de lembrar que os meus amigos têm um evento, e os eventos que vão acontecer perto de mim”.

“A satisfação das pessoas começou a ter por base o número de eventos, o número de amigos, o número de festas, o estar em todo o lado e o não perder nada do que acontece. O nosso valor acabou por ter uma base mais quantitativa do que qualitativa”.

Para quem tenha este problema, Pedro Martins refere que o importante é perceber que é impossível estar em todo o lado e que há limites: “Pensamos que está alguma coisa mal connosco quando não conseguimos fazer tudo, e isso é uma atitude autodestrutiva e um objetivo impossível. Nós temos limites e, de alguma forma, não reconhecer isso é uma via aberta para aumentar a ansiedade e a depressão”.

Por isso experimente pensar, sempre que sentir a ansiedade de estar a perder um momento importante, sobre estas simples perguntas. São essenciais para que consiga perceber se essa ansiedade que está a sentir é real ou não.

É isto algo que eu gostava realmente de estar a fazer?

Este sentimento nem sempre surge de ver alguém fazer algo que a pessoa gostaria de estar a fazer: “O FOMO não está relacionado com o desejo de fazer coisas, mas com o medo de perder, e o sentimento de perda de não conseguir fazer coisas”. É importante perceber que o FOMO geralmente não deriva do desejo de ter feito a escolha específica que a outra pessoa fez, mas simplesmente do lembrete de que outras pessoas fizeram escolhas diferentes das suas.

É isso que desencadeia a essência do FOMO: a insegurança nas próprias escolhas. Com tantas opções o pensamento é sempre ‘tomei a decisão certa?’. “As consequências do FOMO vão traduzir-se neste aspeto. Se nós tivermos consciência dos nossos limites, de alguma forma lidamos melhor com as escolhas”, explica o psicoterapeuta.

Este sentimento está a dizer que preciso de mudar algo?

Pode dar-se o caso de ele apontar para algo mais profundo: que não está feliz com sua vida atual e que há outra coisa que gostaria de estar a fazer. Portanto, o ponto principal é descobrir a origem do FOMO: pode haver uma boa razão para que se sinta inseguro sobre suas decisões.

Isto é uma representação fiel da realidade?

Nem tudo o que se vê nas redes sociais e na televisão é a exata representação da realidade. Na maior parte das vezes ela é alterada, nem que seja porque só mostra a parte boa das pessoas e das situações. A maioria só partilha as fotografias mais bonitas e os lugares mais in. Portanto é essencial ter em mente que as imagens online são preparadas e pensadas ao pormenor e a vida real não é assim tão cor de rosa. Parar de ver constantemente as publicações dos amigos nas redes sociais talvez seja uma boa solução.

Se mesmo assim continuar a sofrer de FOMO, é provável que o caso seja mais grave. Para ultrapassar a questão o melhor é procurar ajuda médica. Pedro Martins explica que, “estas pessoas já tinham certas características que depois se juntaram ao FOMO. Mesmo que a ela pare de ver as redes sociais, isso não melhorará a sua auto-estima ou as dificuldades relacionais”. Na essência dos aspetos da auto-estima, o deixar as redes sociais de lado não vai realmente acabar com o problema, no entanto pode fazer com que viva “menos angustiado e com menos ansiedade”.

“Eu posso conter-me e tomar atitudes práticas, mas isso tem pouco efeito internamente se já tiver os outros problemas”. No entanto há uma boa notícia: “Este fenómeno tem o hábito de diminuir com a idade: de alguma forma perde-se um bocadinho [o querer estar em todo o lado]”.

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