Não, ter um animal com excesso de peso não é fofinho. Tal como nas pessoas, o excesso de gordura está associado a uma série de doenças, reduz a esperança média de vida e afeta (muito) a qualidade de vida. A pior parte? A grande maioria dos tutores não tem consciência disto — e alguns veterinários também não.

No ano passado, a Royal Canin lançou um projeto-piloto com programas de perda e controlo de peso em mais de 40 clínicas e hospitais veterinários da Península Ibérica. Este ano o número sobe para 150 só em Portugal — e em 2019 serão ainda mais. A propósito desta iniciativa, a MAGG esteve à conversa com Thierry Correia, médico veterinário do Departamento de Comunicação Científica desta empresa de alimentos em Portugal.

Em Portugal metade dos animais são obesos, os números continuam a aumentar e ainda há quem ache que gordura é formosura. Não é: as estatísticas são assustadoras, e é preciso fazer tutores e veterinários trabalharem em equipa para declarar guerra ao excesso de peso.

A obesidade nos animais de estimação está a aumentar?
É um problema cada vez mais frequente. Sabemos que a obesidade nas pessoas tem vindo a aumentar a prevalência, sobretudo nos países desenvolvidos, mas isso também tem vindo a verificar-se nos animais de estimação de forma dramática. Para ter uma noção, em Portugal cerca de metade dos animais, tanto gatos como cães, tem excesso de peso ou é obeso. A obesidade ultrapassa os 20% nos cães. 20, 22%.

E como saber se um animal está obeso?
Ser obeso engloba ter mais de 20% do seu peso corporal ideal.

Porque é que acha que os animais de estimação estão a engordar?
Há vários motivos para o aumento da obesidade: há motivos que são inerentes ao próprio tutor e ao modo de vida deste; há motivos inerentes ao próprio animal; e às vezes até os próprios veterinários podem, não digo contribuir, mas não estar tão alerta no controlo dessa doença. Porque é uma doença, é considerada uma doença crónica pela Associação Mundial de Médicos Veterinários de Animais de Companhia.

Nos gatos, o Europeu Comum também tem maior predisposição à obesidade.”

Há mais motivos?
A longevidade tem aumentado nos animais de estimação, logo aumenta também o risco de obesidade. Tal como nas pessoas, quanto mais vamos envelhecendo, maior o risco de obesidade. Cada vez mais se esterilizam os animais — e bem, a grande maioria das esterilizações acontece por razões de saúde e controlo de natalidade ou abandono. Quando se esterilizam os animais, porém, aumenta o risco de obesidade. O metabolismo baixa, eles comem mais e tendem a ficar obesos.

Os dentes dos cães e dos gatos também são para escovar

O excesso de peso e obesidade também pode estar relacionada com a raça?
Algumas raças também estão mais predispostas à obesidade, e algumas até populares. Um exemplo é o Golden Retriever, o Labrador Retriever, entre outras raças. Nos gatos, o Europeu Comum também tem maior predisposição à obesidade.

E de que forma é que o nosso estilo de vida pode contribuir para a obesidade dos cães e gatos?
Somos cada vez mais sedentários. Infelizmente, hoje quase dois terços dos adolescentes são obesos por sedentarismo. Ora uma pessoa sedentária provavelmente vai ter um animal sedentário. Não dará tantos passeios, não brincará tanto, não será tão interativo com o seu animal. Não é preciso fazer maratonas para mantê-lo ativo, às vezes basta brincar com ele, dar-lhe atenção, fazer pequenos jogos, alguns passeios. Depois também há o problema da sobrealimentação.

Damos demasiada comida aos animais?
As pessoas sobrealimentam de forma sistemática os seus animais. A sobrealimentação pode ser por desconhecimento, por não conhecer as necessidades alimentares do animal, ou por não saber adaptá-las à sua idade ou estilo de vida. Muitas vezes as pessoas também associam a alimentação à afetividade, veem a alimentação como um momento de carinho ou de compensação pelo facto de estarem ausentes todo o dia de casa. Às vezes dão recompensas muitas vezes calóricas. 30 gramas da gordura do fiambre, que muitas vezes as pessoas tiram para dar ao gato, correspondem a 123% da energia que ele precisa para um dia. 30 gramas da gordura do fiambre é o equivalente a um humano comer sete donuts com cobertura de chocolate.

Isso é assustador.
Muitas vezes também parece que o animal está a solicitar comida, mas na verdade pode estar só a pedir atenção. Se calhar o melhor é brincar um pouco com ele, dar-lhe atenção, escová-lo.

E quando queremos compensar os animais porque estamos a ensinar-lhe alguma coisa?
Em vez de usar guloseimas com muita energia, pode optar por guloseimas como bastonetes de cenoura ou courgette, ou até mesmo o alimento de todos os dias, um croquete da alimentação. A obesidade dos animais também está relacionada com a mentalidade de que gordura é formosura. Quando são gordinhos, é que são felizes.

Como os bebés.
Só que é uma doença, que pode predispor ao aparecimento de outras doenças com impacto na saúde, diminuir a esperança média de vida. Em média, um cão obeso ou com excesso de peso pode viver até entre 18 a 20% menos da sua esperança média de vida. As defesas médicas aumentam ao longo da vida devido ao excesso de peso, há predisposição ao aparecimento de doenças como a diabetes. É dramático. Sobretudo, diminui-lhes a qualidade e esperança de vida.

Quais são os riscos de darmos aos animais de estimação a nossa comida?
Depende de qual é o tipo de alimento de que estamos a falar. As necessidades nutricionais do gato e do cão são completamente diferentes das do homem. Não podemos olhar para um gato ou para um cão como se fosse uma pessoa pequenina ou uma criança. São espécies diferentes, e mesmo o gato e o cão são diferentes. A nossa comida pode ser dada aos animais, mas a formulação tem de ser feita de acordo com as necessidades de nutrientes, gorduras, hidratos de carbono, vitaminas, de cada animal. Não tenho nada contra a alimentação caseira. Agora, conseguir formular um alimento caseiro, bem feito, com segurança alimentar e equilibrado, às vezes pode ser uma tarefa árdua. E pode ficar mais caro.

Os erros que se cometem na alimentação dos animais devem-se à antropomorfização, isto é, atribuir características das pessoas aos animais.”

Há alimentos que não podemos mesmo dar aos animais?
Há vários, sim. Por exemplo, o chocolate por causa da teobromina, que é um excitante contra-indicado para dar ao cão e ao gato, sobretudo ao cão. A cebola e o alho, nalgumas concentrações, pode provocar problemas nos glóbulos vermelhos. As sementes de uva e o abacate também não são recomendados. Às vezes o excesso de citrinos. Ossos, dar ossos aos cães, pode provocar problemas de saúde como perfurações.

E a carne e o peixe? Podemos dar-lhes?
Sim, claro, são ingredientes importantes, são fontes de gordura, proteína, sais minerais. Repare, muitas vezes os erros que se cometem na alimentação dos animais devem-se à antropomorfização, isto é, atribuir características das pessoas aos animais. O gato e o cão selecionam o seu alimento pelo odor e pela textura. Nós selecionamos o alimento pelo aspeto e pelo sabor. As pessoas focam-se nos ingredientes — é carne, é peixe —, quando deveriam focar-se nos nutrientes. O que é que está no alimento que seja útil, adequado e nas quantidades certas para aquele animal, com aquela idade, com aquele modo de vida? O foco tem de ser o nutriente. A fonte onde vamos buscar isso tem de ser elevada qualidade no sentido de segurança alimentar, que não vá fazer mal ao animal. Agora, se é carne ou peixe… são fontes de nutrientes.

Enquanto donos, podemos ficar mais descansados se optarmos pela ração seca?
Não gosto de lhe chamar ração, é alimento [risos]. Cada vez mais as pessoas veem os seus animais de estimação como fazendo parte da família. Mais de um terço dos lares portugueses têm gatos e cães. Portanto, para aumentar a ligação, acho que é mais adequado falarmos em alimento do que em ração. E não gosto de dizer donos mas sim tutores. Desde que os animais deixaram de ser considerados objetos, por uma questão de coerência falamos em tutores e não em donos. Mas voltando à questão, não fazemos nem bem nem mal se optarmos pelo alimento industrial. O alimento industrial para animais de estimação surgiu nos finais do século XIX. Depois da Segunda Guerra Mundial sofreu uma grande evolução até aos dias de hoje.

Está cada vez melhor?
O alimento industrial tenta proporcionar um alimento de qualidade, facilmente digerível, adaptado a cada espécie. É uma forma muito mais simples, segura e cómoda para as pessoas alimentarem o seu animal, dia após dia. Na empresa onde trabalho fazemos investigação, de modo a que possamos estar dentro das últimas recomendações científicas. A alimentação industrial não é a única razão, claro, mas se reparar nas últimas duas décadas, duas décadas e meia, um gato vivia em média seis anos e hoje vive entre 14 a 16 anos. Não é a única razão, mas alimentação também é muito importante na longevidade dos animais.

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Nos últimos tempos há cada vez mais propostas de comida biológica para os animais de estimação. Qual é a sua opinião sobre isto?
O que entende por biológico? O que é que diz a lei ou que é que diz a opinião pública ou o senso comum? Segundo a legislação, para ser-se biológico tem de ser um alimento cujos ingredientes provêm de culturas ou explorações que são classificadas como biológicas. Voltamos à questão da antropomorfização. Hoje em dia estão muito na moda os produtos biológicos, as dietas paleo, estamos quase a querer voltar a viver no tempo das cavernas. Mas estas tendências são expectativas que as pessoas têm para si e que erradamente colocam no seu animal. A legislação é muito vaga e praticamente permite que qualquer um possa dizer “o meu alimento é biológico” ou “o meu alimento é natural”. O que posso garantir é que na indústria pet food, em que o foco é o gato e o cão, os alimentos são sempre de elevada qualidade e têm sempre ciência por trás.

Falámos da alimentação industrial. E a alimentação húmida?
De acordo com as recomendações que têm sido publicadas nos últimos anos no que diz respeito à alimentação de gatos e cães, sobretudo com menos de dez quilos, é que se deve fomentar a chamada alimentação mista, portanto, ter maioritariamente uma alimentação seca e uma porção de alimentação húmida.

Porquê?
Há várias razões. O alimento húmido, sobretudo nos gatos, tem um efeito mais saciante, apesar de ter poucas calorias. Sabemos que os gatos e cães pequenos têm mais tendência a ter problemas no trato urinário inferior. Se consumirem mais água vão diminuir o risco de problemas no trato urinário inferior, e o alimento húmido tem mais água. Às vezes também pode ser uma forma de reforçar a ligação afetiva tutor-animal. Em vez de dar uma guloseima ou um extra, posso usar esse alimento para efeitos de ligação afetiva.

Como é que podemos escolher a alimentação adequada para os nossos animais?
Em primeiro lugar temos de ver a idade dele: se é um animal em crescimento, se é um adulto, se está na meia idade ou se já está na terceira idade. Depois, temos de saber se é ou não esterilizado — um animal esterilizado precisa de ingerir menos calorias porque o seu metabolismo baixa pelo facto de ser esterilizado. Depois, se é uma fêmea gestante ou lactante; se é um animal desportista ou se passa muito tempo no sofá e dá um ou dois passeios por dia de dez minutos. Com essa informação define-se a quantidade de energia que ele precisa por dia, e estabelece-se, por exemplo, que dois terços das calorias vão ser servidas em alimento seco e completar o resto com alimento húmido.

O ideal é procurar sempre o apoio de um veterinário?
Sim, convém sempre aconselhar-se com um médico veterinário ou um enfermeiro veterinário, para ajudar na escolha. Há animais que têm certas particularidades, e às vezes pode haver alimentos mais adequados. Por exemplo, animais com tendência a ter problemas de pele. Há alimentos que podem dar um suporte ou uma melhor beleza e saúde da pele. Há animais com propensão a ganhar peso. Se calhar é melhor escolher um alimento que diminua a solicitação de alimento por parte do animal e que o faça perder peso de uma forma segura e progressiva.

Fale-me um pouco destes novos programas de perda e controlo de peso.
Estes programas consistem em ajudar a munir os hospitais e clínicas veterinárias clientes da marca de formação científica interna das equipas, para que dentro de cada estabelecimento haja um grupo operacional que se dedique a identificar animais com excesso de peso e obeso. Queremos também sensibilizar os tutores sobre os malefícios desta doença — dá trabalho, nem sempre há sucesso, mas estatisticamente 80% dos tutores de gatos, quando são consciencializados de que a obesidade é grave para o seu animal, comprometem-se a emagrecê-lo. No caso dos cães, são 70% dos tutores. O que queremos dar são ferramentas para os médicos veterinários consciencializarem os tutores. Munimo-los também de ferramentas de como fazer um plano adequado para cada animal, porque cada gato e cada cão é um ser único.

Exerci durante 18 anos, e às vezes dizia: ‘Emagrecer o seu animal é um ato de amor’.”

Dê-me um exemplo de um programa de perda de peso.
O programa começa com uma consulta inicial, para poder recolher a história alimentar do cão ou do gato. Convidam-se os tutores a responderem a um questionário em casa, em família, porque muitas vezes a avó dá bolachas Maria ao pequeno-almoço, o filho quando chega da escola dá um bocadinho do seu lanche ao cão. Toda a família tem de estar envolvida no processo, tem de haver uma conversa sobre o assunto e identificação dos problemas. Depois, é preciso determinar qual é a condição corporal do animal.

Há uma escala de obesidade nos animais?
Tal como nas pessoas, há uma classificação: caquético; extremamente magro; magro; normal; excesso de peso; obesidade. A escala vai do um ao nove. Determinando qual é o peso e condição corporal, conseguimos perceber qual é o excesso de peso. Num animal geralmente a condição corporal tem de ser de cinco em nove. É o ideal. Na consulta, se for identificado com oito em nove, significa que já tem 30% de excesso de peso.

Porque é que os cães inclinam a cabeça quando falamos com eles?

Quanto é que os animais devem perder por semana, de forma saudável?
Está comprovado cientificamente que um cão deve perder entre 1 a 3% de peso por semana, até atingir o peso ideal. No caso dos gatos, é 0,5 a 2% por semana. Com isso vamos conseguir calcular a quantidade de alimento que ele deve ingerir e depois fazer um acompanhamento (no mínimo mensal) para ver se ele consegue perder peso dentro desta taxa. É preciso fazer também um acompanhamento junto dos tutores, de modo a perceberem que a mudança de hábitos alimentares e de vida não vai pôr em causa a ligação afetiva entre eles. Exerci durante 18 anos, e às vezes dizia: “Emagrecer o seu animal é um ato de amor”. É como tratá-lo se ele facturar um membro ou for diagnosticado com diabetes.

Já falámos da alimentação. E o exercício físico? É um pouco mais difícil, sobretudo num gato.
Sim, não é só escolher a dieta adequada. Outra ferramenta é o enriquecimento ambiental. Cada vez mais os animais, em particular os gatos, são indoor, não vão ao exterior. E isso às vezes é monótono, podem não ter como aceder à janela para olhar para o exterior. No enriquecimento ambiental, às vezes o simples facto de brincar com o seu gato durante cinco minutos, desimpedir as janelas para ele poder olhar para o exterior ou pôr arranhadores, vai ajudar. Há brinquedos e distribuidores interativos; também podem fazer pequenas construções com rolos de papel higiénico, pode ser o suficiente. Minimizar o aborrecimento num gato aumenta a atividade. Claro que um cão posso levá-lo a dar um passeio, mas com um gato é muito mais complicado.

Acima de tudo, estes programas dão formação aos veterinários para que depois possam também educar os tutores.
O objetivo é sobretudo sensibilizá-los para a questão, porque muitas vezes o veterinário comum não vê a obesidade como um motivo de consulta. O tratamento da obesidade não é sexy. Nas próprias clínicas e hospitais, às vezes a problemática da obesidade não é uma preocupação constante. Não é deliberado, mas muitas vezes o próprio tutor… É raríssimo alguém chegar a um hospital ou uma clínica e dizer: “Eu estou aqui, por favor ajude-me, o meu animal tem excesso de peso”. Geralmente o problema é identificado em consulta por outro motivo. Até numa simples vacinação se pode identificar que o animal tem um problema de excesso de peso ou obesidade. O objetivo deste programa é este: sensibilizar e dotar os médicos de ferramentas de modo a que possam implementar programas de perda e controlo de peso em cães e gatos, de qualidade e com elevada taxa de sucesso.