Há muito tempo que Anabela Bastos andava intrigada com o gato da vizinha. Sempre que apanhava a porta aberta, o animal escapulia-se para dentro da sua casa e comia toda a ração que encontrava nos pratos. Parecia sempre esfomeado, mas a lisboeta não conseguia equacionar a hipótese de a senhora de 70 anos não alimentar o seu animal. Não poderia ser isso.

“Houve um dia que ela se esqueceu das chaves de casa e me pediu para entrar pela janela”, conta à MAGG. Anabela Bastos, 34 anos, assim fez. Quando chegou à cozinha, reparou que tudo o que o gato tinha para comer eram brócolos com batatas. Só isso, brócolos com batatas.

A vizinha nua enrolada no tapete da porta e outros momentos insólitos

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— “Numa bela madrugada tocam-me à campainha. Vou espreitar e é a vizinha de cima toda despenteada, em cuecas e enrolada no tapete da porta. Segundo ela estava tudo bem, só precisava de algo para vestir e que eu ligasse para os bombeiros porque ela tinha vindo cá fora e a porta fechou. Só não sei o que fazia na escada nua às três da manhã.”

— “Tenho um vizinho que tem um porco preto como animal de estimação.
Muitas vezes assusto-me com os guinchos que o porco faz.”

— “Ainda hoje me ardeu uma coisa no terraço por causa das beatas que atiram cá para baixo.”

— “A minha vizinha de cima abre os estores todos dias por volta das 23 horas e sacode um tapete. Sempre.”

— “A minha vizinha da frente, que tem 80 e tal anos, já me tentou seduzir com música cubana numa das vezes em que fui a casa dela ajudar na leitura do contador da água.”

— “Os meus vizinhos fazem macumbas com rezas e sinos às 8h30. E às 15 horas. E às 21. Mais do que hilariante é assustador.”

— “Vizinha de baixo diz: ‘Feliz Natal, Teresa. Tem aqui um presentinho a que com certeza dará uso’. Eram molas da roupa.”

“Pior só quando nos dava presentes esquisitos. Recordo-me de um Natal em que nos deu um presente e nós colocámo-lo debaixo da árvore. Passados uns dias sentimos um cheiro a podre horrível dentro de casa, e não conseguíamos perceber de onde vinha. Era o presente da vizinha — ela embrulhou fiambre e ofereceu como prenda de Natal.”

Diz o dicionário Priberam que a palavra “vizinho” significa “aquele que habita perto de nós”. Logo a seguir sugere “vizinhar”, que se traduz em “habitar próximo de”. É um verbo engraçado, mas nos tempos que correm é cada vez mais difícil vizinhar com qualidade. Se há umas décadas na vizinhança eram todos amigos, e conviviam como uma grande família, hoje as conversas resumem-se a acenos ao longe ou conversas de circunstância dentro do elevador.

Na melhor das hipóteses. Na pior, há discussões sobre a educação do gato Nicolau, comportamentos obsessivo-compulsivos, pais que cantam “Parabéns” à filha todos os dias (todos, sem exceção) e vizinhos que revelam que acabaram de encontrar a mulher na cama com o melhor amigo.

Não é fácil viver ao lado de uma residência de polícias

Anos depois do episódio dos brócolos e do fiambre, Anabela Bastos mudou-se para o sétimo andar de um prédio em Lisboa. Nesta casa, foi ela a protagonista do mau lado do verbo vizinhar — sem querer, claro. O quarto de Anabela Bastos estava colado a um apartamento destinado a polícias destacados.

“Era uma espécie de dormitório que pertencia a uma esquadra lá próxima. Uma vez estava em casa sozinha com o meu namorado. Não reparámos mas devemos ter feito mais barulho do que era suposto, e eles começaram a bater na parede do quarto. Só pensei: ó meu Deus, são polícias.”

Quando o vizinho aparece nu da cintura para baixo

Era domingo, e Teresa Mendes, 57 anos, estava em casa a lanchar com uns amigos quando de repente tocaram à campainha. “Na casa onde vivíamos na altura não havia videoporteiro. Fui perguntar quem era, mas ninguém respondeu.” Também espreitou pelo buraco da porta, mas não viu ninguém. Voltou para a mesa.

Eis que me deparo com o meu vizinho do r/c nu da cintura para baixo. Perguntei-lhe o que é que se passava, e ele respondeu: ‘O que é se passa pergunto eu’.”

Até que tocaram outra vez. Teresa voltou a levantar-se, a perguntar quem era, mas mais uma vez não obteve resposta. Pensando que eram alguns miúdos traquinas, à terceira levantou-se, abriu a porta e desceu as escadas para supostamente ir ralhar com os “brincalhões”. “Eis que me deparo com o meu vizinho do r/c nu da cintura para baixo. Perguntei-lhe o que é que se passava, e ele respondeu: ‘O que é se passa pergunto eu’!”.

Nesse momento, o marido de Teresa apareceu. “Ele fugiu, mas o meu marido foi a correr atrás dele. Gerou-se a confusão, vieram os vizinhos do prédio assistir ao espetáculo. Depois veio a esposa e levou-o.”

Passado dois ou três dias, o vizinho bateu à porta de Teresa para pedir desculpa pelo sucedido. Explicou que “tinha vindo de uma festa, estava bêbado, despiu-se para fazer chichi e não sabia nem onde era a casa dele, nem onde tinha a roupa. E foi assim que um domingo em família incluiu um espetáculo grátis.”

Chamadas às duas da manhã e mensagens a toda a hora por causa do gato Nicolau

No ano passado, Mariana Domingues também teve de lidar com um problema com a vizinha. Tudo por causa do gato Nicolau. Numa altura em que tinha de ir várias vezes ao Porto, de onde é natural, a jovem de 23 anos começou a pedir à vizinha de 50 anos que desse de comer ao seu animal.

“Como ela também tinha um gato, lembrei-me de lhe pedir para ir lá a casa dar-lhe comida, água e um pouco de atenção. Ela encarou isto como uma abertura para se intrometer na vida do Nicolau e na educação dele.”

A vizinha gostava de ter o gato da portuense em casa. Quando ele se aproximava, recebia-o em casa, dava-lhe de comer e até o deixava dormir na cama com ela. “Quando se fartava, mandava um berro que eu conseguia ouvir em minha casa.”

Mariana Domingues pediu-lhe várias vezes que não deixasse o gato entrar. Explicou-lhe que fazia o mesmo com a gata dela, que era importante eles perceberem bem onde é que viviam e quais eram os seus limites. A vizinha ignorava.

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A situação viria a piorar. Mariana Domingues estava a tentar educar Nicolau a vir para casa sempre que era chamado. Quando isso não acontecia, o gato tinha de ficar na rua à espera que a dona voltasse. A vizinha não concordou, e começou a mandar mensagens escritas, a emitir comentários sempre que se cruzavam e até a fazer chamadas às duas da manhã quando o gato estava na rua.

O conflito culminou numa carta deixada debaixo da porta. Irritada, a vizinha dizia que Mariana Domingues tinha de instalar uma porta para o gato entrar e sair quando quisesse. A jovem respondeu-lhe com outra carta, onde lhe pediu educadamente que se metesse na sua vida. Não precisava que lhe dissessem como educava o seu gato, escreveu, realçando ainda que o Nicolau era um gato muito acarinhado.

“Terminou assim o conflito. Hoje já falamos mais normalmente, mas continuamos a trocar bocas sobre o facto de ela deixar o Nicolau entrar em casa dela.”

O vizinho obsessivo-compulsivo e a música dos “Parabéns” que é cantada todos os dias

Quando Mónica Menezes vivia em Caxias, um dos seus vizinhos tinha um ritual estranho sempre que saía de casa. Começava por bater a porta com fúria e contar até três. Depois, lançava um chorrilho de asneiras. “A seguir abria a porta outra vez e repetia tudo”, conta à MAGG a lisboeta de 40 anos. “Era capaz de fazer isto cinco a seis vezes até sair de casa.”

Já era um divertimento. Chegámos a gravar um vídeo para mostrar aos nossos amigos que não estávamos a exagerar.”

Tudo naquele vizinho com cerca de 60 anos era estranho. Mónica Menezes vivia num lote de moradias geminadas que faziam um “U”, com um bonito jardim no meio. Era um sítio lindo para se viver, garante, sempre com imenso sol e vista para o mar. “Eles tinham a casa sempre fechada.”

O GNR que entrava em casa a relinchar e outros momentos estranhos

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— “Ele entrava em casa a imitar o trote de um cavalo (e era GNR), ela começava a relinchar e iam os dois a galope para dentro do armário de parede, fechando a porta com estrondo. Armário esse que era encostado à minha cabeceira… Ao fim de umas quantas utilizadelas ruidosas na box improvisada, tive que falar com o senhorio deles. Foi tema na reunião de condomínio, pois havia vizinhos de outros andares que ouviam.”

— “Chamo o meu filho: “Tomás!’. Aparece o vizinho, que também se chama Tomás, a dizer: ‘Estou aqui’.”

— “Tive um vizinho que trabalhava em casa e que chegou a bater-me à porta para sugerir um tipo de chinelos para eu usar.”

— “Íamos vender a casa a uma senhora com esclerose múltipla, e era necessário colocar um corrimão do lado direito da escada do prédio. Como já existia um corrimão do lado esquerdo, o meu vizinho disse: ‘Ah, ela que suba de costas.”

— “Uma vez, às quatro da manhã, a nossa vizinha de baixo veio bater à porta aos gritos, a dizer que tínhamos de parar imediatamente de arrastar móveis porque a estávamos a incomodar. Estava toda a gente a dormir.”

— “Na minha antiga casa acordei de madrugada com a vizinha, uma pessoa muito discreta, aos gritos: ‘Não dá mais para aguentar. Não há dinheiro para nada nesta casa, mas para o vinho, para o teu vinho nunca falta.’ Desde esse dia, nunca mais vi o homem.”

 

Com o carro, o comportamento obsessivo-compulsivo era igual: “Deixava o carro no estacionamento e, antes de ir para casa, fechava e abria a porta não sei quantas vezes. Depois passava com o dedo indicador em todas as janelas, para ver se estavam bem fechadas.”

Com o tempo, Mónica Menezes acabou por se habituar: “Já era um divertimento. Chegámos a gravar um vídeo para mostrar aos nossos amigos que não estávamos a exagerar.”

Neste momento a viver em Oeiras, Mónica Menezes está a passar por uma situação menos estranha mas igualmente caricata com os vizinhos de cima. O casal tem um bebé que passa o dia inteiro a chorar. Até aqui, nada de anormal. O problema é que os pais fazem mais barulho do que a menina ao tentar acalmá-la.

“Acordamos todos os dias com os pais a cantarem os ‘Parabéns’. Na primeira vez que ouvimos achámos que fazia anos. Mas depois aconteceu o mesmo no outro dia, no outro, e no outro… Não podia estar toda a gente sempre a fazer anos.”

O problema é que a música parece fazer o inverso de acalmá-la. “Eu acho que a miúda não gosta, porque ainda chora mais! Agora estou a caminho de casa e já sei que quando chegar vão estar a cantar os ‘Parabéns’, intercalado com o ‘Atirei o Pau ao Gato’. E ela a chorar.”

Vizinha, apanhei a minha mulher na cama com o meu melhor amigo

Ana na verdade não se chama Ana, mas prefere usar um nome fictício porque tanto ela como o vizinho ainda vivem no mesmo local.

“Estou a entrar um dia no prédio e cruzo-me com um vizinho a quem normalmente digo ‘bom dia’ e ‘boa tarde'”, conta à MAGG. “Pergunto-lhe como é que ele está e, em vez de me responder o que é habitual, diz-me: ‘Mais ou menos’.”

Como é óbvio, perante um “mais ou menos”, Ana não podia ignorar e fingir que estava tudo bem. Até porque o pobre homem, com cerca de 40 anos, estava com um ar deveras abatido.

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“Vizinha, tive um grande desgosto, uma grande desilusão”, responde-lhe quando Ana lhe pergunta o que é que se passa. “No outro dia saí mais cedo do trabalho e encontrei um grande amigo meu a sair do prédio. Ele disse-me que veio à minha procura, mas que a minha mulher lhe explicou que eu não estava em casa.”

E continua: “Hoje chegou outra vez mais cedo a casa e apanho a minha mulher em flagrante com o meu melhor amigo.”

Ana não sabia o que dizer. Entre frases como “é complicado”, “mais vale ter descoberto agora” e “é preciso é ter saúde”, o vizinho continuou a desabar. “Contou-me que não conhecia o pai, que só o tinha visto uma vez num concurso televisivo.”

Passado uma semana, o vizinho foi bater à porta de Ana para lhe oferecer uma garrafa de vinho. “Não sei se foi só um agradecimento ou se precisava de falar mais”. Fosse como fosse, felizmente as consultas no psicólogo com a vizinha nunca mais voltaram a acontecer.