Vitamina D: a exposição ao sol nas horas de maior calor é a melhor solução? E o cancro da pele?

O médico de clínica geral Alberto Pereira da Silva diz que sim. Mas a dermatologista Helena Toda Brito diz que não. A controvérsia é grande.

É um assunto controverso. Há quem defenda a exposição solar nas horas de maior calor e quem recomende o contrário

Em janeiro de 2018, um estudo realizado pela Universidade do Porto, concluiu que os adolescentes portugueses “têm baixos níveis de vitamina D”, de acordo com o que o “Observador” adiantou na altura. Este micronutriente é fundamental para quem está a crescer, porque “desempenha um papel central no metabolismo do cálcio e no crescimento ósseo, funções que são essenciais para os adolescentes.”

Mas o défice desta vitamina não é exclusivo desta faixa etária. Um estudo do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra revelou que 65% da população tem falta desta vitamina, sendo que no verão — pela intensidade dos raios solares e horas de sol — o valor desce para 41%.

Em Portugal, apesar do sol, a falta deste micronutriente é grande. No inverno estamos pouco na rua e a intensidade dos raios é mais fraca, no verão saímos de casa de protetor posto. Somamos a isto as horas passadas em ambientes fechados, sentados nas secretárias dos escritórios.

No entanto, existe falta de consenso relativamente à melhor forma de sintetizar este micronutriente. Vários estudos defendem que o sol — nas horas em que emite radiações com maior intensidade — é a melhor fonte. Mas também há quem considere que esta exposição, mesmo que de duração curta, seja perigosa, porque as mesmas radiações que permitem sintetizar este micronutriente são perigosas e potenciadoras de cancro de pele.

A MAGG falou com o médico de Medicina Geral e Familiar Alberto Pereira da Silva (que há cinco anos se tem dedicado ao estudo da vitamina D) e com a dermatologista Helena Toda Brito para entender os dois lados.

Quais são as fontes para o organismo sintetizar a vitamina D?

Há a comida. E há o sol. Mas, de acordo com Alberto Pereira da Silva, há uma fonte melhor do que a outra.

“A principal fonte é o sol. Na alimentação, os valores são muito baixos”, diz o médico de Medicina Geral e Familiar. “Para satisfazer as necessidades básicas seriam necessárias grandes doses desses alimentos: um quilo de salmão ou dez latas de sardinha fornecem cerca de duas mil unidades de vitamina D”. Segundo Alberto Pereira da Silva, a vitamina D pode ser obtida pelo fígado dos peixes ou nos ovos, por exemplo, mas em “quantidades irrisórias.”

A dermatologista Helena Toda Brito sublinha as recomendações da American Academy of Dermatology: “A AAD recomenda a obtenção da vitamina D através de uma dieta saudável que inclua alimentos naturalmente ricos em vitamina D — salmão, sardinhas, gema de ovo —, alimentos e bebidas enriquecidos em vitamina D, como lacticínios e cereais e/ou suplementos de vitamina D.”

Vários estudos vieram afirmar que a maior fonte de vitamina D é sintetizada a partir da exposição da pele à luz do sol, visto que pode durar pelo menos duas vezes mais no sangue, em comparação à que resulta da ingestão. Mas, voltamos ao reverso: outros dizem que os riscos dos danos dos raios solares não suplantam os benefícios da vitamina D.

Qual é a melhor hora para obter vitamina D via raios solares?

“Teoricamente, o que está dito é que a maior produção é quando há maior incidência de raios ultravioleta B.” Ou seja, em Portugal, entre as 10h30 e as 16 horas, sendo que é maior por volta do meio-dia, 13 horas. “É quando o corpo não faz sombra.”

Segundo Alberto Pereira da Silva, “se fizermos uma exposição de entre 15 a 20 minutos diários, nas horas de pico do sol, o corpo produz cerca de 20 mil unidades. Por um mecanismo desconhecido, passado este tempo deixa de produzir”, e, por isso, não será necessário ultrapassar este tempo.

Durante este período é preciso usar protetor solar?

“Não se usa protetor solar durante esses 15 minutos. Nenhum”, afirma o mesmo especialista.

E o cancro de pele?

“É um falso problema”, diz. De acordo com Alberto Pereira da Silva, a exposição prolongada é perigosa (e deve ser sempre evitada), mas a de curta duração não. Bem pelo contrário.

Michael F. Holick estudou a vitamina D durante 30 anos. É professor de Medicina, Fisiologia e Biofísica, diretor da Bone Health Care Clinic e do Heliotherapy, Light, e Skin Research Center no Boston University Medical Center. Diz que cerca de mil milhões de pessoas no mundo carecem desta vitamina. E defende a mesma ideia que Alberto Pereira da Silva.

Em entrevista ao “Doctor Yourself” disse: “A população do mundo sofreu uma lavagem cerebral da Academia Americana de Dermatologia e da indústria de proteção solar, com a mensagem incansável de que nunca devemos expor-nos diretamente à luz solar direta, porque vai causar cancro da pele grave, levando à morte. As pessoas estão realmente surpresas com a nova mensagem de que a exposição ao sol sensata, com moderação, é muito importante para uma boa saúde. Devemos aproveitar o sol pelos seus benefícios e não abusar dele.”

A dermatologista Helena Toda Brito está do lado da academia americana: “ A exposição desprotegida ao sol nas horas de maior calor é desaconselhada, mesmo que por curtos períodos”. A especialista defende a ideia por dois motivos: por um lado, em pessoas com aumento da sensibilidade ao sol (com pele, cabelo e olhos claros ou certas doenças como lúpus e porfirias, ou que estejam a tomar fármacos como minociclina e isotretinoína), 15 a 20 minutos de exposição desprotegida nos meses de verão pode ser suficiente para provocar uma queimadura solar.

“Claro que há um grupo de pessoas que não pode fazer exposição solar porque a sua pele está fragilizada. Mas temos de olhar para a maior parte da população — desde que saudável e com condições —, que pode fazer exposição solar, por curtos períodos”, diz Alberto Pereira da Silva.

“A ocorrência de 5 ou mais queimaduras solares prévias entre os 15 e 20 anos aumenta o risco de melanoma — o tipo de cancro de pele mais agressivo — em 80%”, diz Helena Toda Brito. Por outro lado, segundo a mesma especialista, mesmo sem queimadura solar, “o efeito da radiação ultravioleta na pele é cumulativo”, o que significa que “todos os minutos de exposição são somados ao longo da vida, levando mais tarde ao aparecimento de cancro de pele, bem como envelhecimento acelerado da pele.”

“É cumulativo, sim, e por isso é que se fala de curtos períodos de tempo”, sublinha o médico de Medicina Geral e Familiar.

A Vitamin D Council, por outro lado, diz-nos o mesmo que os dois especialistas que defendem a exposição de curta duração: “Até ao momento, investigações mostram que a exposição solar moderada, mas freqüente, é saudável.” No entanto, e excesso, é “perigoso”, pelo risco do desenvolvimento de “cancro da pele.”

Qual é o problema dos protetores solares?

Sobre os protetores solares, Alberto Pereira da Silva diz que a maioria dos que existem no mercado só protegem contra os ultravioleta B (que têm vitamina D) e não contra os A (que não têm vitamina D), que têm mais energia e penetram mais profundamente na pele.

“Os que protegem contra os A são os que têm óxido zinco e  titânio e não há muitos com esta composição”, diz. “Todos os outros só protegem contra os ultravioleta B.”

A dermatologista volta a defender o inverso: “Felizmente os protetores solares tiveram uma grande evolução nos últimos anos e atualmente existem muitos protetores solares no mercado que têm um bom índice de proteção contra os dois tipos de radiação ultravioleta (A e B)”, diz. “É aconselhável, ao comprar um protetor solar, prestar atenção não só ao nível de FPS/SPF (Fator de Proteção Solar/Sun Protection Factor, representado por um número, informa o nível de proteção contra as radiações ultravioleta B), como também confirmar que confere proteção contra as radiações ultravioleta A.”

“O fator de protecção não nos diz que um protetor protege mais do que o outro. É uma ilusão. Aquilo que acontece é que com um 50 se pode estar mais tempo ao sol do que com um 30. Mas os dois protegem 95% contra os ultravioleta B”, destaca o médico de Medicina Geral e Familiar.

Relativamente à composição dos protetores solares, existem dois grandes grupos: os filtros físicos e químicos. ”Os primeiros são aqueles onde se incluem o óxido zinco e o dióxido de titânio, que protegem contra os dois tipos de radiação”, diz Helena Toda Brito.

No entanto, para a dermatologista, não são os únicos com esta capacidade: “Para além dos filtros físicos, existem também diversos filtros químicos com capacidade de proteção contra as radiações ultravioleta A”, como a avobenzona, oxibenzona, sulisobenzona, dioxibenzona, meradimato, ecamsule.

No entanto, Alberto Pereira da Silva garante que “os químicos não conseguem ter este efeito”, uma vez que para a protecção destes raios — que têm grande capacidade de penetração — é mesmo necessária uma “barreira física.”

Se o sol pode fazer bem nas horas de maior calor, significa que podemos ir à praia e estar muito tempo sem protetor, nas horas de maior calor?

Não. A exposição prolongada aos raios solares fortes não faz sentido para Alberto Pereira da Silva, contrariamente à recomendação dos 15 minutos: “Não aumenta o risco de cancro porque é uma exposição curta. O problema é a prolongada, associada a outros produtos.”

De acordo com o médico, antes e depois das horas em que o sol está mais forte (até às 10h30 e depois das 17 horas) podemos estar na praia à vontade — e sem protetor. Estas horas de exposição irão garantir, à partida, a síntese da vitamina D necessária. Mas, entre estes momentos, deverá evitar a exposição solar prolongada, a mais perigosa e, aí sim, potencialmente cancerígena.

Quais “outros produtos”?

Somamos ao sol, outros hábitos que podem ajudar a potenciar o aparecimento deste cancro: “A incidência do cancro da pele não é só pela exposição solar. Está conjugada com hábitos alimentares que se levam para a praia: refrigerantes e bolos, fast food, álcool”, diz Alberto Pereira da Silva.

Além disso, o médico refere ainda a questão dos efeitos não estudados do sol nos químicos presentes nos protetores solares. “Vendem-se, aconselham-se, mas não há estudos que analisem o efeito do calor nos químicos na nossa pele. “

Vale a pena fazer suplementação? Até em Portugal que é um país cheio de sol?

“Vale a pena. Particularmente, de outubro a março, os meses em que a altura do sol, em relação ao horizonte, é mais baixa, portanto os raios são filtrados pela camada atmosférica e chegam à pele com menor intensidade”, diz. “Todas as pessoas deviam fazer a avaliação da sua vitamina D e, em função dos resultados, fazer suplementação até os valores da vitamina D3 25 [a que tem interesse clínico] normalizarem.”

Segundo o médico, os portugueses não aproveitam bem o potencial de vitamina D: “Somos um país de sol, mas se formos avaliar os valores no sangue da maior parte das pessoas, são muito baixos”, diz. “No inverno não há ultravioletas para estimular a produção da vitamina D suficiente e, no verão, saem com o protetor solar posto, que bloqueia a acção do sol, não tirando benefício dele.”

A maior parte das pessoas têm valores abaixo dos 20 e “o ideal seria terem superior a 30”. O médico refere que, para chegar a esta meta, são necessários a suplementação e os 15 minutos de exposição solar no verão.

A vitamina D do verão é suficiente para aguentar o inverno?

Não. “A vitamina D é uma hormona. O que o sol faz é estimular o derivado do colesterol na pele que a transforma numa pré vitamina, para depois, no rim, ser transformado numa vitamina”, diz. “Mas só acontece se o corpo tiver necessidade. Se os valores forem satisfatórios, o rim não produz mais, portanto, não acumulamos para o inverno. No máximo, acumula para o primeiro mês de outono.”

Depois disto, os valores começam a descer. Daí a importância de uma boa sintetização durante o verão e da suplementação no inverno.

“Em alguns países já é obrigatório ser dada a vitamina, como no Canadá, EUA e os países nórdicos. Estão a propôr a suplementação a todas as pessoas acima do paralelo 30, porque quase todos têm carência da D3.”

A forma de sintetização é igual em todas as pessoas?

Não. Quem tem a pele mais escura, por ter mais melanina (que dificulta a absorção dos radiações), precisa de mais tempo de exposição, porque a cor da pele funciona como um filtro. Mas é um aumento de tempo de exposição pequeno: “Pessoas de pele negra precisam de 25 ou 30 minutos”, diz. “Quem tem a pele mais clara precisa de menos tempo.”

Sobre a roupa, quanto mais área descoberta, maior a síntese. “O ideal é ter os braços e pernas descobertas, apesar de os livros recomendarem apenas um. É uma boa razão para se utilizarem calções e T-shirts.”

Quais são as consequências da falta de vitamina D?

Hoje reconhece-se que a vitamina D tem vários papéis, mas dado o “boom” que houve relativamente à sua importância, há, segundo o médico, um exagero nas culpas que se atribuem à sua carência.

Mas existem, de facto, três áreas do organismo em que assume especial importância. É importante para o metabolismo do cálcio, regulando-o. A exposição solar também melhora o humor: “Às pessoas com depressão e comportamentos ansiosos pede-se que vão para a rua apanhar sol.”

Outra questão importante é o sistema imunitário: “Está provado que as nossas células têm receptores da vitamina D e que para o seu funcionamento é necessário que os níveis sejam satisfatórios.”

Holick diz que bons níveis de vitamina D ajudam a prevenir doenças como cancro ou diabetes, sendo que também é um micronutriente importante para a fertilidade.

Quais são os valores saudáveis de vitamina D?

Acima de 30 ng/ml (nanograma por mililitro) é normal, diz Alberto Pereira da Silva, que adianta que o “ideal seria ter entre 45 e 50.” No entanto, “é muito raro encontrar pessoas com esses valores.” Quanto a casos de intoxicação, o médico adianta que este pode ocorrer quando se “atinge um valor acima dos 100ng/ml.” No então, isto só acontece com exagero na suplementação ou em caso de doença.

“Eu tenho recolhido dados em relação à vitamina D há cinco anos e mais de 85% das pessoas têm valores baixos, o que é muito significativo”, refere. “Agora já há muita gente a pedir, mas não tanta quanto seria desejável. A vitamina D devia fazer parte do check up de todas as pessoas.”

“Um assunto controverso, sem certezas absolutas”

A frase é da dermatologista Luísa Caldas Lopes. Segundo a especialista, “não há timings específicos até à data” entre a relação tempo e exposição solar “necessários para a conversão periférica de vitamina D”, uma vez que isto vai depender “do tipo de pele, da zona exposta, da hora do dia, da intensidade dos UV, da latitude”, entre outros.

Admite que o assunto relacionado com este micronutriente “está em evolução todos os dias e num país com sol como é o caso de Portugal, a exposição solar do dia a dia deveria ser o suficiente” para a sintetização desta vitamina. No entando, “ainda há muitas discrepância em resultados de laboratórios com períodos de poucos dias de intervalo.

É por isso que a dermatologista afirma que “não se recomenda a exposição solar sem proteção” e realça a importância de entender “qual a relevância clínica da alteração da análise, ou seja, despistar doenças associadas que possam estar relacionadas com o aumento ou diminuição de vitamina D no organismo.”

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