Entrevista. “Alguém ligado às autoridades disse-me que recebia primeiro os alertas pela minha aplicação do que pelo sistema interno”

João Pina é o fundador do Fogos.pt que avisa, em tempo real, através do site e das redes sociais, dos incêndios que decorrem no País.

O fundador da plataforma diz que há vários bombeiros que lhe enviam mensagem a pedir funcionalidades que podem vir a ser úteis no terreno

A plataforma digital Fogos.pt surgiu em 2015 mas desde então que tem crescido a passos largos desde os incêndios de 2017, onde uma grande parte do País ardeu. Desde então que foram criadas duas aplicações móveis que têm como objetivo facilitar o acesso à informação e alertar, em tempo real, todos os cidadãos acerca da localização e evolução dos fogos.

Os dados são oficiais, recolhidos através do sistema interno da Proteção Civil, e são atualizados a cada dois minutos. Quando os fogos florestais começam a fazer parte do discurso oficial — nesta segunda-feira o primeiro-ministro apresentou o Programa Nacional de Redução de Ignições de Incêndios Rurais — a MAGG foi conhecer João Pina, programador e fundador da plataforma, que nos contou que a base do projeto ficou pronta numa madrugada, depois de uma conversa com amigos acerca do estado arcaico do sistema de alertas da Proteção Civil em Portugal.

Como nasceu o Fogos.pt e como funciona?
Tudo começou em agosto de 2015, em plena altura de fogos. Na altura, a Autoridade Nacional de Proteção Civil (ANPC) tinha um site ultrapassado que remetia a informação referente a incêndios através de pdfs que atualizavam uma vez por hora. Cada documento tinha uma tabela onde estava identificado o local do incêndio, a hora de início, e o número de meios envolvidos no combate. Mas essa informação não estava, de todo, acessível ao utilizador comum. Era preciso pesquisar imenso dentro do site e não era nada intuitivo.

Num dia, estava num jantar com amigos que pertenciam aos bombeiros e ao Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) e comentou-se que era muito mau que este tipo de informação tão importante se encontrasse quase como que escondida da população. No fundo, foi uma conversa que surgiu numa típica noite de copos em que, entre cervejas, começámos a mandar vir com tudo e mais alguma coisa.

A ideia partiu daí. Se os fogos estavam localizados e tinham um ponto geográfico, a visualização óbvia seria por um ponto no meio do mapa.

E foi aí que criou a plataforma?
A primeira linha de código foi feita dias depois, por volta da uma da manhã. No dia seguinte mandei uma mensagem para uma mailing list composta por uma comunidade de indivíduos ligados à tecnologia a dizer “olhem o que fiz esta noite”. Todos adoraram o projeto e desde então tudo escalou. Comecei por comprar o domínio “Fogos.pt”, dar uma mudança visual à plataforma e, no ano seguinte, criar as aplicações e permitir notificações em tempo real.

Desde então temos ouvido o feedback dos utilizadores para tentar melhorar aquilo que eles acham importante, tendo em conta todas as possibilidades e limitações ao nível da tecnologia.

O sistema de alertas funciona por distritos, mas no futuro será possível filtrar por concelho até porque não faz sentido que uma pessoa que viva no norte de um distrito receba notificações de um fogo que esteja a ocorrer no sul desse mesmo distrito.

Mas como funciona?
Sempre que o sistema da ANPC disparar um alerta sobre um fogo, a nossa plataforma trata de receber essa informação e torná-la mais imediata, através da partilha não só no site, mas também nas redes sociais como o Facebook ou o Twitter, porque é aí que as pessoas estão. No fundo, o que fazemos é fazer chegar a informação às pessoas de uma forma que, acredito, é mais simplificada e fácil de consumir.

O sistema de alertas funciona por distritos, mas no futuro será possível filtrar por concelho até porque não faz sentido que uma pessoa que viva no norte de um distrito receba notificações de um fogo que esteja a ocorrer no sul desse mesmo distrito.

Como evoluiu a plataforma e como a concilia com a profissão?
Isto é difícil de explicar às pessoas, mas a primeira versão do site corria num subdomínio de um domínio meu, porque não estava à espera que se tornasse naquilo que é hoje. O primeiro passo foi pegar no que tinha feito naquela madrugada e dar-lhe um aspeto mais bonito e uma casa própria. Daí surgiu aquilo que hoje vemos. “Fogos.pt” é mais curto, direto, e também mais fácil de memorizar.

No ano seguinte criei as aplicações para iOS e Android dando especial atenção às notificações em tempo real. No ano passado não houve grande evolução a não ser o início da reestruturação das aplicações de raiz, já que a plataforma que estava a utilizar para enviar os alertas passou a ser paga. Como tudo isto é um projeto sem fundos, tive de mudar de plataforma e, já que estava com a mão na massa, aproveitei para refazer tudo.

Mas há novidades para este ano?
Uma completa remodelação de toda a plataforma e que conta com a ajuda da comunidade. Já não sou só eu que trabalho o código, o que vai permitir um salto gigante a nível qualitativo não só do site mas também das aplicações. Em parte porque a comunidade se interessa e ajuda.

O novo site chegará ainda no mês de maio, as aplicações talvez demorem um bocadinho mas permitirão que qualquer utilizador as possa usar sem precisar de um registo. A ideia é não guardar nenhuma informação pessoal de quem as está a utilizar.

A criação do projeto decorreu de alguma experiência traumática com fogos?
Não, foi totalmente espontâneo. Percebo que essa pergunta surja decorrente dos incêndios de 2017, mas o Fogos.pt existe desde 2015. Obviamente que quando era criança tinha o sonho de ser bombeiro, mas nunca o cheguei a ser. Vivi no interior, uma zona sempre muito afetada por incêndios e, muitas vezes, saía de Lisboa e ia ajudar sempre que possível. Mas nunca sofri nenhum dano direto.

Muito recentemente recebi uma mensagem de um bombeiro a perguntar se a plataforma iria permitir notificações acerca do estado evolutivo dos incêndios, já que no terreno não têm acesso a este tipo de informação e seria muito útil para eles.

Quando sentiu um boom de visualizações?
No ano passado tive um problema enorme com as visualizações do site porque o Google Maps impunha um limite de pageviews [cada vez que um utilizador acedia a plataforma via o mapa disponibilizado pelo Google Maps] e eu assumi como missão resolver esse problema o mais depressa possível, já que não me permitiam corresponder ao número de visualizações diárias que o site recebia.

A opção que me pareceu mais viável foi negociar com a MapBox, uma concorrente do Google Maps, e após uma semana de negociações via email, disponibilizaram a utilização total dos mapas para as aplicações e para o site.

Lembro-me de um tweet que se tornou viral onde pedia ajuda para manter o projeto online…
Esse momento foi fantástico porque levou a imensos comentários e partilhas. Ainda antes de negociar com a MapBox, pensei em rodar chaves de utilizadores [do Google Maps] já que cada chave permitia 25 mil requests na página. Então pensei que se fóssemos trocando as chaves, cedidas por vários utilizadores, pudéssemos resolver minimamente o problema.

Foram perto de centenas de utilizadores que partilharam as suas chaves e mostraram o carinho que tinham pelo projeto. Fiquei verdadeiramente surpreendido.

Mas e a nível de evolução? Como foi o crescimento?
Tenho aqui imagens que mostram o salto gigante desde 2015 até hoje. Em agosto de 2015 tinha apenas 101 pessoas online e em 2016 esse número subiu para 701 pessoas. Em 2017, nas situações críticas em que quase todo o País estava a arder, cheguei a ter 8200 pessoas todas conectadas em simultâneo. Esta foi a evolução.

Em outubro de 2017, quando ainda existiam muitos incêndios a decorrer, cheguei a ter 14 mil pessoas online só no site.

Como é que os incêndios do ano passado o influenciaram pessoalmente?
Sou de Canas de Senhorim e a 15 de outubro, considerado o pior dia do ano pela ANPC ao registar 445 ocorrências em todo o País, o incêndio na minha localidade ocorreu de domingo para segunda. Nesse fim de semana tinha ido a casa dos meus pais e no final da tarde de domingo eu já estava a caminho de Lisboa quando, no IP3, vi imenso trânsito, um clarão de chamas por todo o lado, e imensos carros de bombeiros a passar em contramão.

João Pina tem 30 anos e diz que além de querer tornar a informação mais acessível, quer que o seu projeto se mantenha isento e independente

Naquele cenário, transpus o traço contínuo e voltei para trás. Nessa noite, entre responder a mensagens via Facebook pela página do Fogos.pt, a ver se os meus familiares estavam todos a salvo, acabei por me deitar às sete da manhã para dormir apenas uma hora. O suficiente para me levantar horas depois para regressar ao trabalho, em Lisboa.

Recebi mensagens de sapadores de vários municípios que se mobilizavam assim que viam os alertas do Fogos.pt chegar, porque já sabiam que minutos depois iriam ser chamados.

No seu trabalho, as pessoas são compreensíveis?
Totalmente. Aqui na empresa percebem por completo o esforço que acabo por fazer e dão-me o desconto quando veem que estou a responder a mensagens que são direcionadas ao Fogos.pt. Também ajuda o facto de não ter o horário clássico das nove às seis,  já que tenho a flexibilidade de parar por uma hora para trabalhar no site, e compensar ao fim do dia.

No fundo, é um projeto social que pretende servir as pessoas e não garantir que ao final do mês recebo uns mil euros extra. A filosofia do projeto foi, desde o início, fazer chegar às pessoas toda a informação possível. E há de ser sempre assim.

Sabe se a sua plataforma é utilizada pelas autoridades?
Sei que a minha plataforma de alerta de incêndios era utilizada pelas autoridades, pela ANPC. Desde o ano passado que não tenho tido grande contacto com elas mas estou sempre atento a todo o feedback que recebo. Lembro-me, por exemplo, de ter recebido uma mensagem de alguém ligado às autoridades, à ANPC, que me disse que recebia primeiro os alertas pela minha aplicação do que pelo sistema interno da proteção civil.

Também recebi mensagens de sapadores de vários municípios que se mobilizavam assim que viam os alertas do Fogos.pt chegar, porque já sabiam que minutos depois iriam ser chamados. Sei que isto acontece, e acontecia muitas vezes, porque recebo mensagens e tweets diariamente com esse tipo de feedback.

Muito recentemente recebi uma mensagem de um bombeiro a perguntar se a plataforma iria permitir notificações acerca do estado evolutivo dos incêndios, já que no terreno não têm acesso a este tipo de informação e seria muito útil para eles. Por isso sim, as autoridades, ou quem trabalha de perto com as entidades responsáveis, utilizam a aplicação.

E vai implementar essa funcionalidade?
Sim, não só a evolução dos fogos mas também os meios envolvidos no combate às chamas com recurso a gráficos para poder filtrar a informação de hora a hora.

Há uma explicação para que o Fogos.pt consiga alertar primeiro que a ANPC visto que os dados são os mesmos?
Eu acho que é devido à própria política da ANPC, mas não conheço a instituição por dentro nem a forma como trabalham. Mas creio que se deve à falta de mecanismos e ferramentas que têm para distribuir a informação de forma mais direta e imediata.

Alguma vez aconteceu a ANPC não reportar um incêndio e serem os utilizadores a alertarem?
É muito comum receber mensagens de utilizadores a alertar de fogos que ainda não estão declarados no site. Mas não posso fazer nada em relação a isso. Eu não invento estes dados e nunca nenhum incêndio foi colocado manualmente por mim. Todos os registos que o Fogos.pt tem são os mesmos que a Proteção Civil disponibiliza.

Por vezes, sim, pode haver demora num alerta mas não me lembro de alguma vez ter acontecido um incêndio acontecer e nunca ser reportado quer pela ANPC, quer pela minha plataforma.

Saber que um fogo está a acontecer mas que, por estar na fronteira desse distrito, tem de ser aquele quartel de bombeiros a responder e não outros, que se calhar até estão mais próximos, é muito frustrante. Obriga a esperar por autorizações de várias entidades diferentes enquanto vidas são destruídas.

O que falhou nos últimos incêndios?
Não sei, eu não sou bombeiro, não ambiciono ser e não estou por dentro para saber o que falhou. Posso ter uma opinião pessoal acerca do que pode ser melhorado, e esta página permitiu-me receber muita informação. E quando digo muita, é mesmo muita informação. Mas não tenho a perceção para poder dizer que um fogo deve ser atacado pela esquerda ou pela direita, ou se há meios suficientes ou não.

O que deve ser melhorado?
Eliminar todos os pormenores burocráticos que são grandes barreiras em Portugal. Saber que um fogo está a acontecer mas que, por estar na fronteira desse distrito, tem de ser aquele quartel de bombeiros a responder e não outros, que se calhar até estão mais próximos, é muito frustrante. Obriga a esperar por autorizações de várias entidades diferentes enquanto vidas são destruídas.

Os incêndios deste verão têm tudo para acontecer com a mesma gravidade?
Mais do que ser a minha opinião, são factos. Tendo em conta as condições atmosféricas, as secas e o aquecimento global, tudo isso indica que casos destes vão acontecer mais frequentemente e que esta é a nossa nova realidade. Se calhar, num futuro não tão longínquo assim, Portugal já estará numa situação de seca extrema.

Não dou muito valor àquilo que se chama de informação gerada pelo utilizador, principalmente porque pode decorrer de más intenções ou até mesmo de desinformação. Aceitar dados brutos só porque um utilizador diz que sim não me parece nem correto, nem isento.

Está a tomar medidas para preparar a sua plataforma para o verão que se aproxima?
Como estou à espera de ter muitas mais visitas, estou a preparar a infraestrutura para poder suportar cada vez mais utilizadores online e garantir a estabilidade do site. Estamos a tentar criar mais funcionalidades, dar mais informação às pessoas e tentar responder às exigências e sugestões.

A plataforma não permite que um utilizador comum registe o estado do fogo. Porquê?
Não dou muito valor àquilo que se chama de informação gerada pelo utilizador, principalmente porque pode decorrer de más intenções ou até mesmo de desinformação. Aceitar dados brutos só porque um utilizador diz que sim não me parece nem correto, nem isento. Assim, toda a informação presente no site é sempre informação oficial.

O site permite disponibilizar o estado atual dos incêndios em tempo real

Fogos.pt

Dou muito este exemplo: é comum na altura dos incêndios ver-se nas redes sociais publicações com vários gostos e partilhas, que dizem que os quartéis de bombeiros estão a aceitar mantimentos, água e medicamentos. Costumo sempre confirmar pessoalmente, contactando diretamente os quartéis e confrontando-os com as informações que estão a ser partilhadas. Na maior parte das vezes, dizem-me que a informação é falsa apesar de, em apenas dez minutos, essa mesma publicação já ter corrido meio mundo.

Não querer dar visibilidade a notícias falsas faz, também, parte do ADN da sua plataforma?
Sem dúvida. A partir do momento em que o fogos.pt der credibilidade a este tipo de desinformação, deixa de ser útil e passa a ser inútil.

No ano passado, a maior conta que paguei superou os três mil euros. O que, para uma pessoa normal, sem qualquer financiamento, é chato.

O projeto não tem financiamento. Gostava que tivesse?

O site e as aplicações tiveram um banner de publicidade que, até hoje, chegou para pagar todas as despesas. Mas as pessoas não têm noção de quanto chegava a pagar só em contas do Google Maps nos meses de pico.

Pode dar um valor ou prefere não revelar?
No ano passado, a maior conta que paguei superou os três mil euros. O que, para uma pessoa normal, sem qualquer financiamento, é chato. Não é barato, de todo, e foi um dos problemas que quis resolver logo de início. Há uma coisa que eu nunca vou deixar que aconteça: permitir que o Fogos.pt sirva os interesses de alguém e sei, que assim que receber ajuda financeira de alguém, a plataforma vai servir como acessório para uma qualquer manobra política.

Que alternativas encontrou?
Parcerias onde a troca de dinheiro não esteja envolvida. Além da MapBox, que oferece o seu serviço para que possamos usar, conto também com o apoio da Bright Pixel que nos ofereceu um voucher para serviços cloud (como servidores). Com isso, sei que tenho de lhes agradecer e mostrar também a marca deles, mas tenho assegurado que nenhuma das empresas vai interferir com aquilo que eu procuro do meu projeto.

Assim, garanto que o Fogos.pt se mantém independente de cores políticas ou interesses corporativos e isento.

O João Pina é uma pessoa normal?
Sou um rapaz com 30 anos, nascido e criado no Interior, na Beira Alta. Estudei em Aveiro e frequentei dois cursos, sempre na área da tecnologia, embora nunca tenha concluído nenhum. Sempre tive um computador em casa desde pequenino, o que ajudou a desenvolver esse gosto. Não sou casado, não tenho filhos e, atualmente, sou CTO [Chief Technology Officer] na MeshApp — uma startup portuguesa encubada na Bright Pixel —e estou responsável por toda a parte tecnológica, desde a arquitetura dos sistemas, a gestão das bases de dados, ou até a user interface.

Tirando isso, sou uma pessoa normal, ou não, já que tenho alguns interesses peculiares que talvez me tornem menos normal, sempre ligado à internet e ao digital, como o interesse pela privacidade.

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