A série que todas as mães (e pais) deviam ver

"Maternidade e Desapontamento" pode ser exagerada, mas acerta em cheio em muitos desafios da maternidade. E eu identifiquei-me com vários.

A privação de sono é um dos grandes dramas da maternidade

IMDb

Quando, em plena reunião de redação, uma das minhas colegas me sugeriu que visse a série “Maternidade e Desapontamento” (a série da Netflix, cujo título original é “The Letdown”), confesso que torci o nariz. Apesar de ter sido mãe há cerca de um ano, tenho muito pouca paciência para séries e filmes completamente focados no tema da maternidade.

Gosto de pensar que sou uma pessoa terra à terra e prática, e daí ser pouco tolerante com o por vezes excessivo romantismo que rodeia a questão da maternidade.

Tirando os quilos a mais e a vontade constante de comprar vestidos e macacões amorosos para a minha filha, bem como os óbvios aspetos práticos do quotidiano, não mudei assim tanta coisa na minha vida desde que fui mãe. E, acreditem, isso pode fazer de mim uma criatura rara perante outras mulheres na mesma situação que eu.

As critícas veem (quase) sempre de quem menos se espera — de outras mães

Este exemplo passou-se pouco depois de a minha filha nascer: “Foste sair à noite um mês e meio depois de teres sido mãe? E a menina? Como a conseguiste deixar? E bebeste cerveja? Mas não estás a amamentar?”. Sim, isto passou-se. Estão a sentir o julgamento? Pois, bem me parecia.

Na verdade, nesta situação em específico, não fui para nenhuma discoteca até às cinco da manhã. Podia, mas não fui. Não que tenha de me explicar, mas tratou-se de um final de dia em que (observem a audácia), juntamente com o meu namorado e os meus amigos, fomos participar numa das edições da Rota das Tapas, um evento pelas ruas de Lisboa, para respirar ar, ver pessoas, beber uma cerveja (não, não estava a amamentar) e sentir-me uma pessoa minimamente decente, vestida e penteada, depois de semanas praticamente sempre enfiada em casa, de fato-de-treino, cujo ponto alto do meu dia era perceber se a minha filha tinha feito cocó.

Não queiram saber a cara da minha amiga, também mãe, enquanto ouvia as minhas respostas. E mais, tive a “lata” de publicar fotos dessa noite no Instagram, o que, presumo eu, também deve ter causado alguns comentários deliciosos.

Acho que muitos destes julgamentos e noções pré-concebidas do que uma mãe deve ser são, muitas vezes, a razão porque fujo a sete pés de produções cujo tema fulcral é a maternidade —não preciso de me sentir um peixe fora de água constantemente. Mas apesar do descrédito inicial, sentei-me no sofá durante duas noites desta semana e consumi rapidamente os sete episódios (de cerca de 20 minutos cada) da sitcom australiana. E tenho-vos a dizer que voltei a sentir-me como um peixe, desta vez dentro de água.

A visão sem filtros da maternidade

“Maternidade e Desapontamento” foca-se na vida de Audrey (interpretada pela atriz Alison Bell), uma recém-mãe australiana com uma bebé de dois meses, Stevie. Em casa a gozar da licença de manternidade, inscreve-se num grupo de apoio de novas mães, muito ao estilo de qualquer reunião dos Alcóolicos Anónimos. E tal como eu em relação a esta série, inicialmente Audrey acha que estes encontros não são para si.

Sente-se deslocada, despenteada, com défice de sono e com pouca paciência para os temas discutidos nas reuniões, bem como para os julgamentos e atitudes de todas as outras mães (e um pai), que aparentemente sabem tudo sobre bebés e estão a passar todos os testes do desafio da maternidade.

Audrey acaba por voltar às reuniões por se sentir desamparada na sua vida, com uma mãe ausente e com pouca aptidão para os deveres de uma avó, um marido focado no trabalho e amigos solteiros e sem filhos que a deixam de incluir nos planos.

Mas é a partir do regresso de Audrey ao grupo de mães que a série, apesar de algum exagero para efeitos de comédia, se torna deveres inteligente, de uma forma irónica, engraçada e certeira.

Lembram-se do conjunto de mães perfeito de que falei há pouco? Com o decorrer da série, vamos-nos apercebendo que são tudo menos isso e que, todas elas (e ele, também temos um pai no grupo) têm os seus problemas e se sentem intimidadadas perante as outras mães, com medo de julgamentos e de estar a falhar.

Nos sete episódios de “Maternidade e Desapontamento”, os argumentistas conseguiram abordar os principais desafios da maternidade. A solidão de uma nova mãe, a questão da amamentação, os problemas de memória, a incontinência depois do parto, os conflitos do casal, o défice de sono, as hormonas, o choro de um bebé, os julgamentos exteriores, a intervenção de terceiros, entre muitos outros. E o melhor de tudo é que é feita para todos os tipos de mães (e pais), sem ser tendenciosa.

Zero julgamentos

Assim como retrata uma mãe disposta a fazer um protesto por não a deixarem amamentar num café, a série mostra-nos de seguida uma outra mulher que se sente muito pouco confortável em alimentar o filho em público. Ao retratar um pai que ficou em casa durante a licença de paternidade a cuidar do bebé e agora não se imagina a deixá-lo numa creche (chegando a sabotar intencionalmente uma entrevista de trabalho), também aborda a ânsia de uma mãe em regressar ao trabalho e à sua rotina de sempre.

Podia continuar mas não quero ser spoiler. E quero muito que todas as mães (e pais, repito) que lerem esta crónica deem uma oportunidade a esta série, que retrata tão bem todo este processo incrível, recompensador mas também cansativo e desafiante que são os primeiros meses da vida de uma criança e a volta que dá ao cérebro de uma mulher (literalmente, um dos episódios também aborda a já provada falta de memória depois do parto) e à vida de um casal.

“Maternidade e Desapontamento” não desaponta e, para além de ser uma série divertida e nos fazer soltar umas boas gargalhadas, é também uma espécie de conforto para mostrar a muitas mães que não estão sozinhas, que os seus problemas não são únicos e que ninguém é perfeito. E que se lhe apetecer deixar o bebé com os avós para ir beber uma cerveja com o seu marido, também pode. Sem julgamentos.

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