Não há altura do ano mais desejada do que a primavera, certo? Depois de meses infinitos de chuva e frio, nada como as primeiras manhãs de sol, tardes de praia e noites passadas numa esplanada.

No entanto, nem sempre a chegada do bom tempo acaba por corresponder às expetativas destes cenários pintados a calor e sol. São muitos os que associam os meses de março, abril e maio a um cansaço fora do normal ou sintomas de desmotivação ou até mesmo depressão.

Se já sentiu algum destes sintomas, não se preocupe. Faz parte da metade da população que não escapa a uma síndrome que até já tem nome: astenia de primavera.

Mas afinal, o que é astenia?

Clinicamente falando, a astenia é caracterizada por uma sensação generalizada de debilidade e falta de vitalidade. Quando tudo isso acontece durante esta fase do ano, dá-se o nome de astenia de primavera. “Não é um mito”, começa por esclarecer o médico José Almeida Nunes, “é algo bem real”.

Tem como sintomas a falta de energia e de apetite, dificuldades de memória, irritabilidade, diminuição da líbido, fadiga, fraqueza e desconforto geral. Não são agradáveis, é um facto, mas a boa notícia é que não se trata de uma doença. A astenia da primavera é uma síndrome que ocorre devido a um conjunto de fatores, dos quais o médico de medicina interna destaca três: o cansaço, o tempo de insolação e a necessidade de readaptação.

É possível combater a depressão com comida

“É normal sentir mais cansaço quando a temperatura sobe e há uma explicação médica para isso”, explica José Almeida Nunes. A vasodilatação provocada pelo calor acaba por fazer descer a tensão arterial, o que traz como consequência sintomas como fadiga e tonturas.

Além disso, parece que não mas a mudança da hora — ainda que seja apenas de uma — faz diferença. “De repente, o ser humano fica exposto à luz solar durante mais tempo e isso requer um tempo de adaptação, até mesmo a nível hormonal”. O especialista lembra que o cortisol, conhecido como a hormona do stresse, mas que também reduz as inflamações, está relacionada com a luz solar a que o ser humano está exposto, ainda que a sua libertação seja sobretudo estimulada pela necessidade de responder a estímulos e de adaptação a situações de stresse. “Até que o corpo se habitue a essa mudança, pode reagir através da sensação de cansaço e até perturbações de sono”, explica.

Por último, Almeida Nunes refere que, apesar de não haver uma explicação físico ou patológica, a verdade é que a primavera sempre esteve associada a alguma depressividade. “É a fase de readaptação” lembra o especialista, “e tudo o que seja readaptação implica sempre um ajustamento e, até que esse ajustamento esteja concluído, é normal que se passe pela fase de incapacidade, com a qual nem todos sabem lidar da melhor forma”.

As mulheres sofrem mais

Há um estudo feito em 2012 pelo Centro de Investigação sobre Fitoterapia espanhol que revela que mais de metade das pessoas sofre de cansaço generalizado quando chega a primavera. Deste grupo, são as mulheres entre os 35 e os 50 anos a encabeçar a lista da população dos mais afetados. Os cientistas que participaram no estudo lembram que as mulheres são mais afetadas pelas alergias típicas desta época que causam um mau estar generalizado, o que ajuda a perceber esta tendência para sofrer de astenia.

Viver junto a espaços verdes diminui o risco de depressão

Além disso, o médico lembra que, apesar de tanto homens e mulheres estarem expostos aos mesmos estímulos, por natureza, o homem tende a reagir de forma mais proativa, enquanto a mulher tem mais dificuldade em readaptar-se a uma nova situação.

Outro dos grupos mais afetados é o dos que trabalham por conta de outrem. Este facto é explicado pelo facto de não terem a liberdade de mudar as horas de trabalho e de sono, não podendo assim fazer uma adaptação personalizada às rotinas da primavera.

É só uma fase

A astenia de primavera é transitória, mas mesmo sabendo que tem um fim é sempre bom lembrar que existem formas de minorar os sintomas associados.

Alergias: o lado negro da primavera

A alimentação é essencial. A dieta deve ser equilibrada, com uma aposta em alimentos mais energéticos, como a banana ou os frutos secos, por exemplo. Também a prática de exercício ajuda neste fortalecimento mental e físico, uma vez que aumenta a produção de endorfinas que promovem a sensação de bem-estar.

A fechar este trio de receitas para diminuir a astenia está o descanso, fundamental para ajudar o corpo a reestabelecer energias.

Se mesmo com estes cuidados, os sintomas persistirem por mais de quatro semanas, Almeida Nunes aconselha uma ida ao médico, para perceber se existe alguma patologia associada, nomeadamente anemia, depressão ou alguma perturbação da tiróide.