Há perto de um mês comprei uma varinha mágica. Caminhei para casa feliz da vida, sem conseguir parar de analisar aquele caixote. Estava cheia de vontade de rasgá-lo para dar uso ao meu novo utensílio, como se de uma mala Zadig & Voltaire se tratasse. Saí da asa da minha mãe há menos de um ano. Nesta habitação anterior — à qual agora me refiro como “o palácio”— tinha tudo e não sabia. Lá há uma liquidificadora cheia de funções e velocidades. Há um espiralizador e uma máquina de fazer pão. Há máquinas para lavar tudo, pratos para ir ao forno, serviços para diferentes ocasiões e cadeiras para sentar todos os que aparecem.

Entrar numa grande superfície com eletrodomésticos não passou a ser o mesmo que entrar na Zara. Entrar numa grande superficie com eletrodomésticos significa atravessar os portões da Disneyland. Não o faço apenas por necessidade, mas como resposta a novas vontades — neste caso de voyeurismo de aparelhos para a casa, daqueles que fazem tudo e que resolvem tudo. Tal como acontecia com as lojas de roupa, há dias em que me arrependo de entrar porque quero levá-los a todos e não tenho dinheiro para nada.

Já posso fazer sopas e batidos, mas ainda não consigo sentar todos os convidados. É que a sala tem uma linda mesa de madeira herdada, mas apenas quatro cadeiras. Recentemente adquiri um banco de plástico preto, daqueles feios que doem, que escondo na cozinha e que só mostro ao mundo quando é mesmo preciso. Nos meus jantares semanais, já aconteceu ter de arrastar o sofá para a mesa para todos podermos comer sentados.

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Quando saímos de casa é assim: aos poucos. E as prioridades alteram-se: gasto menos em camisolas, na esperança de conseguir ter um espiralizador ou duas prateleiras novas, adornadas com cestos e cactos. Gasto menos em almoços fora, porque quero imenso usar os abacates em que investi no supermercado. Gasto menos em tudo porque tenho uma casa, uma renda para entregar e contas para pagar.

As prioridades mudaram e agora, além de tudo o que já disse, quero mesmo emoldurar em acrílico o tapete bestial que a minha irmã me trouxe de Marrocos, que vai ficar maravilhoso na parede da sala que está vazia, mesmo ao lado das quatro cadeiras decentes que sentam os meus amigos. Do outro lado, está a composição semi-desorganizada de quadros que tanto idealizei e que demorei três meses a conseguir pôr na parede. É assim mesmo: aos poucos.

Nunca uma ida ao Leroy Merlin libertou tanta dopamina no meu cérebro. Nunca pensei que um aspirador portátil pudesse mexer tanto com o meu estado de espírito. É que dá mesmo jeito. Um eletrodoméstico ou um utensílio de cozinha novo — estilo mini tábua de queijos ou papel de alumínio, que é caro como tudo — serve para horas de conversa. Estou obcecada com um pirex novo, porque os que tenho por lá não dão conta do serviço. O que é que se passa comigo?

Sigo páginas de venda e troca de mobília. Estou atenta a todas as promoções. E a única coisa que me dá vontade de arranjar no meu carro é uma nova ida ao IKEA, onde entro sempre com um objetivo, mas saio de lá com 10 novos objetos e uma conta que não parecia ser tão grande, mas que é capaz de me fazer viver um dia de cada vez no final do mês.

Há quatro dias tive mais uma conquista: uma máquina de lavar a roupa. Agora só tenho de saber pô-la a funcionar. É que em casa da minha mãe ela trabalhava sozinha, assim como por magia.