Há um ano Tâmara Castelo fez análises para voltar a verificar as suas intolerâncias alimentares. Eram tantas que não cabiam no cartão. São mais de cem alimentos aqueles aos quais o seu organismo não reage bem.

“Tiveram de me enviar um livrinho para casa”, conta à MAGG.

Com 33 anos, a fundadora da clínica de Medicina Tradicional Chinesa e Homeopatia com o seu nome, nasceu asmática. A reacção que tinha a determinados alimentos contribuíam para este estado, percebe agora. Só que “há 25 anos ninguém falava em intolerâncias”.

Havia dias em que estava óptima e outros em que estava mal disposta e em que tinha de vestir dois números de calças no mesmo dia de tão inchada que ficava.”

Foi depois de uma viagem aos Estados Unidos que os pais ouviram falar na má reacção que alguns organismos fazem à lactose. Foram os primeiros produtos a serem excluidos da sua alimentação. E era mesmo verdade: leite, iogurtes, manteiga, queijos e todos os alimentos que continham algum destes fazem parte dos cem a que reage mal.

Sabia que um amendoim descascado é um alimento processado?

Alguns alimentos faziam-na ficar com dificuldades de  respirar, outros deixavam-na desconfortável. Havia ainda alguns que a faziam inchar. Até aos 10 anos de idade a coisa foi-se complicando.

“Durante a escola ficava mal disposta, com diarreia, dores de estômago, vómitos ou dores de cabeça duas vezes por semana”, diz. “Fizeram-me análises 300 vezes porque achavam que podia ter uma coisa grave. Não é fácil.”

Tomava demasiada medicação — anti-histamínicos e cortisona — para uma criança daquela idade. “Eram uns quatro por dia, mais do que uma vez.” Mas Tâmara já era pragmática e não dramatizava: “Tinha amigos ótimos e por mais que me deixasse triste, pensava que não valia a pena chorar pela comida. Tive de arranjar mecanismos para não ficar deprimida por causa da alimentação.”

A alimentação é o maior preventivo do mundo e conseguimos controlar as doenças. Estamos tão entupidos de coisas que não sabemos onde começa e acaba o problema. Esquecemo-nos do que é estarmos leves e bem.”

A entrada no universo da Medicina Tradicional Chinesa

Sem saber o que fazer, depois de muitas experiências com base no princípio tentativa-erro, a mãe recorreu à homeopatia. Melhorou muito, mas a grande alteração deu-se quando foi para a China fazer um estágio obrigatório do curso de Medicina Tradicional Chinesa que frequentava, área pela qual se interessou devido à relação que o seu organismo tinha com os alimentos.

Na altura já tinha cortado em 30 alimentos, mas ainda estava longe de encontrar a sua melhor versão. “Havia dias em que estava óptima e outros em que estava mal disposta e em que tinha de vestir dois números de calças no mesmo dia de tão inchada que ficava.” Com a chegada a este país, cortou com o glúten. E, gradualmente, entendeu que a alimentação era a chave para o seu bem-estar.

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Aquele que começou por ser um “exercício egocêntrico” para se conhecer, transformou-se numa espécie de missão. Ao perceber o seu corpo e o poder da comida no sistema imunitário e na “força interior”, Tâmara, autora do blogue “Tata 24/7” quis passar o seu conhecimento a pessoas que pudessem estar a passar por problemas semelhantes ou outros.

“Na altura só pessoas mais velhas é que frequentavam o curso de Medicina Chinesa. Apaixonei-me pela comida, pelas ervas, pela forma de trabalhar holística, que é capaz de tratar e regularizar tudo — desde o peso, às insónias, queda de cabelo, cansaço, problemas físicos ou fertilidade — e de contribuir para o nosso bem-estar total.”

A Clínica Tâmara Castelo fica em Lisboa, no número 4B na Rua Dom Francisco de Sousa Coutinho. Além de vender medicamentos homeopáticos, tem uma área de cafeteira, a Tata Deli. A consulta custa 35€.

O seu maior problema levou-a à sua vocação. Viveu na China entre 2005 e 2008, onde, além de estudar, trabalhou no Hospital Estatal e, mais tarde, frequentou a Faculty of Homeopathy London, onde se especializou em Homeopatia. Em 2007 abriu a clínica Tâmara Castelo, onde há as especialidades de acunpuntura, fitoterapia, massagem Tui Na e homeopatia, com tratamentos pensados para o sistema respiratório, distúrbios dos olhos, da boca, gastrointestinais, neurológicos e musculoesqueléticos. Trata também problemas de fertilidade, de emagrecimento e relacionados com crianças e grávidas.

“Adoro ser adulta e sentir-me confortável”

Não reage bem a nada que tenha trigo, portanto não pode tocar em nada do que está nas pastelarias. Dentro do universo das frutas, kiwi faz-lhe “muito mal”, tal como a papaia, as nêsperas. Não come amendoins, cajus, amêndoas, pimentos, aipo, beringela, nabiça, bebidas brancas e tudo o que tenha ovos. Aquilo que vem dentro das latas também não pode entrar na sua dieta. A laranja e os pimentos são completamente proibidos e há décadas que não lhes toca. “Fico com reacção de histamina, com falta de ar e tudo inchado.”

Sempre que janto fora pergunto como é que é feito o arroz e às vezes os empregados ficam a olhar para mim.”

Adora ser adulta e sentir-se confortável. Mas, como diz, não é o Gandhi. Não gosta de coisas rígidas e é capaz de desrespeitar as regras, consciente das consequências. O pão é a maior tentação. Poupa dinheiro em jantares fora, o que não significa que não vá, não fosse o marido o chef Chakall, dono dos restaurantes El Bulo – Social Club, Refeitório do Senhor Abel e o Heterónimo BAAR.

Octavio Freitas

“Hoje começa a ser mais fácil jantar fora. Posso comer peixe e uma grande parte de legumes”, conta. Ainda assim, todo o cuidado é pouco. Apesar de não ser intolerante ao arroz, este pode conter ingredientes que não digere bem, tal como o açúcar ou manteiga. “Sempre que janto fora pergunto como é que é feito o arroz e às vezes os empregados ficam a olhar para mim.”

A alimentação empacotada é perigosa porque há sempre alimentos escondidos. Não reage bem aos processados, por causa dos aditivos. Retirou-os da sua alimentação e em casa só há alimentos naturais e pratos cozinhados de raiz.

“Os alimentos hoje em dia são hiper processados e a qualidade tem muito que se lhe diga. São muito violentos”, diz. “A comida alimenta as células do nosso corpo. Temos de ter completa consciência do impacto que tem e daquilo que estamos a comer”.

Apesar de estar mais do que adaptada ao seu problema, há um ingrediente que lhe custa mais não poder comer. “Olho para queijo e dá-me assim uma dor no peito. Vai apetecer-me sempre, mas faz-me sempre mal. Faz-me falta e tenho pena porque está em todo o lado. É um alimento que se consome muito socialmente.”

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Tem de dispensar sempre as entradas clássicas dos restaurantes, mas já tem os seus truques: “Nessa altura já estou a beber um sumo”, diz.

Na semana passada foi à pizzaria o Refeitório do Senhor Abel que o marido abriu e não resistiu: “Roubei-lhe só um bocadinho de pizza. Passadas quatro horas, à uma da manhã, já estava cheia de cólicas. Só pensava: ‘Porque é que foste comer?’. Arrependo-me sempre.”

Como é que é, então a sua dieta? Deixamos um dia a título de exemplo: bebe um copo de leite de arroz e uma manga ao pequeno-almoço e lancha uma barra vegan. Ao almoço come salmão com húmus e salada e ao jantar um bife de peru acompanhado de legumes.

Tâmara Castelo é também autora do livro "Curar sem Medicamentos", editado pela Esfera dos Livros.

Tem duas filhas. Em casa, assume, “é muito chata”, tanto que, sempre que a mãe vai lá dormir leva a sua própria lancheira: “Diz que nunca há nada”, conta. Há algumas regras: não há lacticínios e glúten é o menos possível. Tenta ao máximo que as crianças não ingiram bolos, bolachas e alimentos com açúcares adicionados. Os lanches para a escola são sempre caseiros e bem pensados. Têm sinusite e asma, mas há meses que não têm de tomar medicamentos.

“A alimentação é o maior preventivo do mundo e conseguimos controlar as doenças. Estamos tão entupidos de coisas que não sabemos onde começa e acaba o problema. Esquecemo-nos do que é estarmos leves e bem.”