Alexandra Forbes: “Não podemos pedir a quem tem fome que se preocupe com desperdício”

Alexandra Forbes ajudou a criar no Brasil um espaço onde pessoas carenciadas podem comer gratuitamente refeições feitas por chefs.

Alexandra Forbes é colunista da Folha de São Paulo e editora de gastronomia da GQ Brasil

Guilherme Martins

Enquanto um terço dos alimentos produzidos em todo no mundo é desperdiçado, milhões de pessoas passam fome. Esta equação começou a não fazer sentido para Alexandra Forbes, habituada a lidar com os alimentos apenas na ótica do utilizador e, quanto muito, enquanto jornalista dedicada à área da gastronomia. É colunista da Folha de São Paulo e editora de gastronomia da GQ Brasil, mas um dia percebeu que podia fazer mais pelo mundo do que apenas escrever.

Com “muita vontade e muita cara de pau” — palavras da própria — ajudou a levar para o Brasil o Reffetorio, um espaço criado pelo chef Massimo Bottura no qual se servem refeições gratuitas, “à francesa, com entrada, prato e sobremesa”, a pessoas com dificuldades económicas. Todas os pratos são feitos com excedentes alimentares, em condições de serem usados, mas que por regras de controlo alimentar iam parar ao lixo.

Alexandra esteve em Lisboa para o simpósio Sangue na Guelra, que este ano discute o impacto da gastronomia nas áreas social, política e ambiental. Pareceu-nos o sítio ideal para saber mais sobre um projeto que Alexandra quer ver nascer também em Lisboa.

As pessoas têm noção do que realmente se desperdiça?
Acredito que eu e você não somos as únicas com preocupações sobre o desperdício alimentar, e que bem devagarinho a mensagem começa a passar. O problema é que isso não é o mais grave. O mais grave é haver pessoas que nem vão ler o que eu e você escrevemos porque simplesmente vivem numa realidade que não lhes permite sequer abrir um jornal para ler sobre os números da FAO [Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação]. Não podemos pedir a quem tem fome que se preocupe com desperdício. Quem se pode dar ao luxo de estar atento a essas questões, essas pessoas sim têm responsabilidade de fazer alguma coisa.

Sentiu-se com essa responsabilidade?
Completamente. Houve um dia em que percebi que podia fazer muito mais com a comida do que só escrever sobre ela. Sei que, a nível global, o que eu faço tem pouco impacto, mas é um prazer ver acontecer esse impacto. Há uns tempos, um rapaz que mora na favela do Morro do Vidigal comeu no Reffetorio e me disse: “Essa ideia é muito legal. Será que eu posso abrir um restaurante feito só com excedentes alimentares?”. E não é que abriu? Foi falar com o mercado do morro onde vive, fornece os produtos que iam para o lixo. Esse é um exemplo, mas há muitos mais.

É a prova que há mesmo muita comida a ir para o lixo sem necessidade.
Muita mesmo. A ultima vez que fui abraçar e agradecer ao fornecedor do Reffetorio no Brasil, ele me disse “Para de me agradecer e faça mais refeitórios. Eu tenho comida para, pelo menos, mais 80”.

E refeitórios do género já são quatro.
Sim, o primeiro em Milão, o segundo no Rio de Janeiro e agora, mais recentemente Londres e Paris. É muito replicarei. Espero que Lisboa seja o próximo [risos].

E é fácil ultrapassar a burocracia de aproveitar comida que iria parar ao lixo?
Não há lugar pior do que o Brasil para isso. A burocracia e as regras são tão restritas que uma melancia, se tiver cortada ao meio, não pode ser reaproveitada. Qualquer tipo de manipulação ao alimento inviabiliza o seu aproveitamento.

Reffetorio em números

Em 2017:

  • organizaram 229 jantares
  • serviram 20610 refeições
  • evitaram que cinco toneladas de alimentos fossem para o lixo

 

Então onde vão buscar matéria-prima?
O nosso maior apoiante é esse fornecedor que antes de entregar no supermercado, nos dá caixotes de fruta e verdura. A partir do momento em que entra no supermercado, já não sai de lá a não ser para venda.

E para onde vai?
Para o lixo. Um dos meus projetos é mudar também essa lei. Em França há uma lei que proíbe os supermercados de deitar fora comida que não é vendida. São obrigados a doá-la a instituições de solidariedade ou bancos alimentares. Se a França, que é o país da burocracia, consegue, como é que o Brasil não consegue?

O vosso trabalho é muito diferente do das carrinhas que entrega comida aos sem abrigo na rua. A ideia é dar ao momento alguma dignidade?
É uma refeição servida à francesa, com entrada, prato e sobremesa. Não é buffezão, panelão. Costumo dizer que este espaço não serve comida, serve dignidade. Esse é um dos pilares do Massimo, quando criou o primeiro Reffetorio em Milão: o espaço tem que ser bonito, tem que ter arte e os jantares têm que servidos como num restaurante. É servir amor em forma de comida.

Enquanto jornalista, Alexandra escrevia sobre gastronomia. Como é que foi passar da parte de usufruir de uma refeição para a burocracia de gerir um restaurante?
Escrever tantos anos sobre restaurantes permitiu-me perceber toda a logística que é gerir um. Mas claro que sempre subestimamos a realidade. Por exemplo, quando apareceram ratos, o meu primeiro instituto foi: “Fácil, pomos um gato atrás”. Foi aí que me disseram que não é possível, é contra a lei. Depois rebentam canos, é um problema atrás do outro. Mas lá está, vamos resolvendo um problema atrás do outro.

É a prova de que basta querer.
Claro que sim. Eu apenas reportava assuntos ligados a comida, enquanto jornalista. Um dia percebi que podia fazer muito mais. Sei que é uma gota no oceano, mas uma gota replicáveis em todo o mundo. Quero que Lisboa seja o passo seguinte.

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