“São os homens que devem mudar”. O apelo de jovens pais de uma aldeia moçambicana

Dez homens mostram como podem ter um papel ativo no nascimento dos filhos, porque a gravidez também é deles.

Um homem a aprender a dar o biberão. Um outro homem a dar banho à criança. Um homem a lavar a roupa do bebé? Sim. Um homem a dizer que a gravidez também é dele. E outro a garantir que “os homens é que devem mudar”.  Homens a assumir a importância de estarem presentes antes, durante e depois do nascimento dos filhos. O vídeo que os apresenta e que pode ver acima, abriu sorrisos na plateia do auditório do Convento de São Francisco, em Coimbra, onde na sexta-feira, dia 20, terminou a reunião intercalar da Cimeira Mundial de Saúde.

O pequeno clip foi retirado de um filme de 20 minutos feito por Anna Galle — uma aluna de doutoramento belga da Universidade de Ghent — numa aldeia moçambicana com jovens pais. Durante duas semanas, 10 pais discutiram formas de ter um papel mais activo e positivo nesse período da vida da mulher e dos filhos. Eles próprios decidiram o argumento e a mensagem a passar no vídeo que vai ser divulgado nos países em vias de desenvolvimento e na Bélgica para inspirar outros homens a mudar de atitude em relação à gravidez, nascimento e fase pós-natal.

Foi Marleen Temmerman quem trouxe este exemplo até à conferência “Investir na saúde da mulher, os desafios do desenvolvimento”, ela que é uma referência tão indiscutível no trabalho pela saúde e direitos das mulheres, adolescentes e crianças que os U2 em 2017, durante o concerto no estádio Rei Baudouin em Bruxelas, a incluíram na lista das mulheres inspiradoras (“Women of the World Unite”).

Obstetra e professora universitária, Marleen trabalhou muitos anos na Organização Mundial de Saúde (OMS) e criou o Centro Internacional da Saúde Reprodutiva, foi deputada no parlamento belga (em 2011, depois de a Bélgica estar 244 dias sem governo, sugeriu às mulheres dos políticos que fizessem uma greve de sexo até eles conseguirem formar governo) e agora está radicada no Quénia, onde dirige o departamento de obstetrícia e ginecologia da Universidade Aga Khan. A Universidade de Ghent, na Bélgica, formou um fundo com o nome dela, o Marleen Temmerman Fund, que financiou este pequeno filme. O dinheiro foi conseguido de uma forma muito curiosa, como a médica belga explicou à MAGG: “Quando nascem bebés, em vez de as pessoas oferecerem prendas aos recém-nascidos e aos pais, doam pequenas quantias para este fundo que nós depois utilizamos em projectos como este”.

Precisamos dos homens

Nesta conferência (uma das quatro principais da Cimeira), esta não seria a única vez que se falou dos homens. Magda Robalo, diretora do Departamento de Doenças Transmissíveis da OMS para África, mostrou-se muito peremptória: “Sem os homens ao nosso lado, a luta pela igualdade dos direitos das mulheres que muitos movimentos atuais travam — desde o #metoo, ao time is now passando pelo time’s up — será perdida”.

A médica guineense defendeu que é preciso descobrir “como envolver os homens na batalha pela saúde das mulheres e adolescentes”. Lembrou que, nos países da África lusófona, “apesar da maior e crescente participação de mulheres na política e nos governos, as mulheres e raparigas são desproporcionalmente afetadas nas dificuldades do acesso aos cuidados de saúde”.

Com a exceção de Cabo Verde, que tem “uma quase cobertura universal de cuidados de saúde e que descriminalizou o aborto”, as mulheres e raparigas “sofrem discriminação”, continuou Magna Robalo referindo a mortalidade maternal, a violência doméstica, a mutilação genital e a gravidez na adolescência (consequência “do casamento precoce e do acesso restrito ao planeamento familiar).

As estatísticas da África subsaariana apontadas por Magda Robalo mostram uma realidade diferente entre géneros: 3 em cada 4 novas infecções de HIV acontecem entre raparigas dos 15 aos 19 anos, “uma taxa muito superior ao que se passa com os rapazes na mesma idade”. Nos jovens com idades entre os 15 e os 24 anos, 3 de cada 5 novas infecções por HIV dão-se nas mulheres. “Se olharmos para as estatísticas correspondentes aos homens, estas são muitíssimo mais baixas”. E a incidência de HIV é 10 vezes mais alta “nas mulheres trabalhadoras do sexo do que na população em geral”. Globalmente, as jovens mulheres têm duas vezes mais probabilidades de contrair SIDA do que os homens jovens”.

Por outro lado, apenas 16% das adolescentes ou jovens casadas que vivem no campo naquela região africana usam contraceptivos modernos, uma taxa que sobe para 23% quando o cenário passa a ser urbano. “Isto significa que elas não têm controlo sobre a sua saúde sexual e reprodutiva, que vão continuar a ter crianças apesar de não o quererem”.

Com estes números Magda Robalo quis mostrar apenas dois aspectos que afetam as africanas e reforçar a necessidade de chamar os homens para esta guerra. Não só são eles os decisores políticos, como os diferentes papéis que assumem (como pais e maridos, por exemplo) são determinantes para a vida das mulheres (“podem impedir os casamentos precoces”, por exemplo).

“Uma interligação de fatores culturais, sociais, económicos e de género, que formam a masculinidade, leva muitas vezes à perpetração de violência contra as mulheres, limita a decisão delas no campo da reprodução e no acesso e controle aos recursos da família e da comunidade, bem como ao poder político, o que traz consequências negativas para a sua saúde”.

Magda Robalo lembrou que os homens líderes têm “um papel crucial a desempenhar em prol da igualdade de género e na melhoria da saúde das mulheres. Eles são guardiães da ordem estabelecida e influenciam decisões no uso de contraceptivos e no planeamento familiar, nos cuidados da mãe e dos recém nascidos e são líderes nas suas famílias e comunidades”.

Por isso insiste em chamar os homens para esta frente. “Há homens que têm tido sucesso em abordar questões como a prevenção do HIV ou a violência doméstica. Mas ainda são poucos para fazer a diferença”, lamentou. “Temos que envolver as nossas crianças, os nossos rapazes, os nossos jovens, os nossos maridos, os nossos parceiros”.

As mulheres seguram metade do céu

O planeamento familiar foi um dos aspectos em que Mónica Ferro, que dirige a representação regional do Fundo das Nações Unidas para a População, em Genebra, mais enfatizou, durante a conferência. À MAGG, comentou só ter chegado aonde chegou profissionalmente porque teve acesso à educação e saúde sexual e reprodutiva. “Eu pude decidir quando queria ter filhos. E isto é transformador na vida destas raparigas. Uma menina que é casada cedo de mais e que não pode decidir se e quando é que quer ter filhos parte de um patamar tão baixo que não consegue atingir a dignidade”.

A portuguesa sublinha que “alguém que tem acesso ao planeamento familiar , quer individual quer em casais, vai poder decidir se quer constituir família, quando e qual o espaçamento entre as gravidezes. Isto permite às mulheres ficar mais tempo na escola, completar mais anos de educação e ter um emprego remunerado. Nós sabemos que nas nossas sociedades quem não tem um emprego remunerado não é contado, quem não conta para o PIB não é tido em conta. E quem não tem um emprego remunerado não tem lugar no espaço cívico, não tem voz política, e a saúde é uma decisão política, e por isso as mulheres têm que estar no espaço público para poderem participar também na tomada de decisões sobre a sua vida”.

Mónica Ferro sublinhou ainda que “todos os dias morrem 300 mulheres por causas ligadas à gravidez, ao parto e aos pós-parto. E que 99% dessas mortes acontecem no mundo em desenvolvimento.  E se nós sabemos como evitar estas mortes maternas o mundo não nos vai perdoar se não o fizermos”.

A verdade é que sabemos como as evitar, como bem frisou Jerker Liljestrand, responsável pelo programa de saúde materna, de recém-nascidos e de crianças da Fundação Bill&Melinda Gates. “Dispomos de armas para combater a mortalidade materna”, referiu o sueco, dando o exemplo de um equipamento que custa 4 dólares e que evita 97% das mortes devido a hemorragias pós-parto, uma das principais causas de morte.

O ginecologista e obstetra que trabalhou em 30 países, incluindo Moçambique, destacou o impacto que a morte da mãe tem numa família, dizendo que “quando, dois anos depois de a mãe ter morrido, voltamos a uma família, vemos que esta desapareceu. A mortalidade dos filhos até aos 10 anos aumenta 80% com a morte da mãe”.

“Temos que salvar as mulheres da morte maternal”, considera o médico que esteve na OMS e no Banco Mundial. É que, afirmou, “as mulheres seguram metade do céu”.

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