As histórias hilariantes, enervantes e inacreditáveis de quem partilha casa

A comida não é de todos e é preciso puxar o autoclismo. Temos seis histórias de pessoas que viveram o caos a dividir casa. Uma delas sou eu.

A louça por lavar acumulada e com bolor, as festas em casa sem avisar e os namorados das colegas a chegar bêbados da noite são coisas pelas quais não vai querer passar

Dividir casa tornou-se cada vez mais numa necessidade: seja para estudantes ou jovens trabalhadores, ou para gente mais velha que quer simplesmente poupar dinheiro ou viver perto do centro da cidade. Com os preços atuais das rendas, às vezes não há mesmo volta a dar. À primeira vista, dividir casa pode parecer uma boa maneira de fazer amigos, partilhar experiências e apreciar a vivência em comunidade. Infelizmente, às vezes não é bem assim — juntem-se estilos de vida, horários, hábitos de limpeza e de organização diferentes e está o caos instalado. Acreditem, eu sei do que falo.

Para mim, sair de casa dos pais e viver “com amigos” sempre me pareceu um sonho. Por isso mesmo, quando entrei na faculdade e tive de mudar de cidade, fiquei em êxtase por poder arrendar um quarto numa casa com mais três raparigas. Já sonhava em como ia decorar o quarto e a sala. E até criámos um grupo no Facebook para partilhar o que íamos comprar em comum.

Escusado será dizer que as coisas só correram bem na primeira semana. Com isto, arrisco-me a afirmar que tive a pior experiência da minha vida no que toca a partilhar casa (e não, isto não é um desafio ao destino).

Como assino este artigo, e não quero ferir suscetibilidades, limito-me a contar que a minha experiência incluiu um coelho, mantido na sala comum, que fazia muito barulho e deixava pequenos dejetos em todo o lado (até em cima do sofá); comida ressequida na minha frigideira anti-aderente (acabada de comprar e nunca usada por mim); pilhas de loiça por lavar, no lava-loiça e na bancada, o que tornava impossível a operação “lavar a minha própria loiça” (por causa disto cheguei a lavá-la no lavatório da casa de banho).

Acabei? Não, há mais. Muito mais. Sacos de lixo cheios, e guardados dentro de casa — que cheiravam mal, claro. Cocó de cão no meu tapete da casa de banho e sons inapropriados ouvidos pela noite dentro. Já para não falar das festas de karaoke e jantaradas lá em casa sem avisar ninguém, a sujeira que ficava no fim — pratos em cima da mesa, ainda com comida, — e do facto de ter de guardar a minha comida no quarto.

Quando contava isto aos meus pais e amigos, eles não acreditavam: era impossível que, numa casa onde só viviam raparigas, acontecessem coisas assim. Então comecei a tirar fotografias a tudo e, posso dizer, tenho um belo álbum. Mas não é isso que vou partilhar hoje. Esta é a minha história, mas há pessoas com experiências (ainda mais) mirabolantes.

“Tinha uma colega que, sempre que íamos limpar a casa, fechava-se no quarto”

Catarina (nome fictício) tem 22 anos e estava a partilhar casa com duas colegas no início deste ano. “O pior é que, além de não limparem a sujidade que faziam, usavam tudo sem autorização e ainda esvaziavam o frigorífico — e comiam o que era deles e o que era dos outros”, conta à MAGG a estudante.

“Tinha uma colega que, sempre que íamos limpar a casa, fechava-se no quarto e nem o seu próprio quarto limpava. Deixava roupa interior espalhada pela casa de banho. Um dia cheguei à cozinha, de manhã, e ela estava a descongelar comida que eu tinha comprado. Além disso, tinha por hábito abrir manteigas, fiambres e queijos meus sem pedir autorização, e mexer na minha prateleira sem avisar. Foi tudo mau”, conta.

Eu já tinha uma das minhas colegas de casa no meu quarto a chorar porque tinha visto um rapaz, que não conhecia, bêbedo e com um taco na mão.”

Sara Velez tem 21 anos, é portuguesa mas vive em Londres. Partilha casa com mais oito pessoas, e entre espanhóis, franceses, colombianos e portugueses, “há gostos para tudo”. “O desrespeito, a desconsideração pelos que trabalham cedo, a desorganização e a sujidade são alguns dos problemas”.

A pior história pela qual passou aconteceu quando, um dos rapazes, com quem partilha casa, chegou a casa “às três da manhã, podre de bêbedo e aos murros à porta enquanto todos dormiam”. Quando alguém a foi abrir, ele não foi o único a entrar: os amigos aproveitaram para invadir o espaço.

“Eu já tinha uma das minhas colegas de casa no meu quarto a chorar porque tinha visto um rapaz, que não conhecia, bêbedo e com um taco na mão. Conclusão: fizeram alta confusão, com tudo em pânico lá em casa, e o nosso colega era o que estava pior: ninguém conseguia falar com ele. Os amigos, em vez de perceberem que estávamos assustadíssimas, simplesmente gozaram com a nossa cara e não paravam de bater na porta dos nossos quartos”, lembra.

Para Inês Silva, 22 anos, a experiência não foi melhor: “Uma das piores coisas que acontece quando partilhamos casa é deixarem louça por lavar, e com comida (ao ponto da mesma ganhar bolor), e a higiene na casa de banho ser tão má ao ponto de teres de puxar o autoclismo das outras pessoas”. E a sua pior história também envolve pessoas alcoolizadas: “Uma das piores coisas que me aconteceu foi acordar com o namorado da minha colega de casa a chegar a casa todo bêbado e comer as minhas coisas.”

Quando acordei, passadas seis horas, e fui tentar comer alguma coisa, descubro que ele não só me tinha comido o almoço como me tinha deixado em casa, sozinho e com febre, para ir tomar café com umas amigas minhas.”

Embora seja comum escolher partilhar casa com pessoas com quem já se tem uma relação de amizade, por vezes essa não é a melhor opção: torna-se mais difícil falar sobre o que não está a correr bem porque, além de não querermos magoar os sentimentos da pessoa, não queremos correr o risco de estragar a amizade.

Andreia Barbosa, 21 anos, partilha casa com três amigas e, apesar de se darem todas muito bem, as limpezas são assunto de discussão: “Acho que a pior coisa é mesmo quando, na sua semana da limpeza, a pessoa finge que faz limpeza e ainda deixa as coisas mais desarrumadas do que estavam”.

Filipe Aguiar tem 26 anos e, quando foi de Erasmus para a Alemanha, onde partilhou casa com um colega de curso do qual já era amigo, descobriu “que o velho ditado de conhecer uma pessoa e viver com ela serem coisas diferentes”, era verdade.

“A pior coisa que me aconteceu foi quando tinha uma apresentação para fazer à minha orientadora, só que me tinham corrido mal umas coisas e tive de fazer direta na noite anterior. Entretanto apanhei uma gripe e fiquei com febre, mas fui na mesma apresentar o trabalho e voltei logo para casa. Quando cheguei falei com o meu colega e expliquei-lhe que estava de direta, e doente.”

Como tinha por hábito cozinhar para os dois, Filipe Aguiar avisou-o que só tinha feito comida para um. Ainda assim, disse-lhe que podia tirar coisas do frigorífico para fazer o almoço.

“Quando acordei, passadas seis horas, e fui tentar comer alguma coisa, descubro que ele não só me tinha comido o almoço como me tinha deixado em casa, sozinho e com febre, para ir tomar café com umas amigas minhas.”

Não há forma de descobrir antecipadamente o colega de casa perfeito. Ainda assim, não custa fazer um teste prévio — a Homes.com e a ForRent.com, por exemplo, fizeram uma infografia com aspetos a considerar quando está à procura de um colega de casa.

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