Gostava de começar este texto sendo o mais honesto possível e assumir, sem pudor, que falhei redondamente na missão que tinha proposto levar até ao fim. Numa reunião de trabalho aqui na MAGG — aquelas coisas chatas em que discutimos ideias para a semana, mas que a melhor parte é quando há amendoins e pastéis de nata na mesa —, sugeri passar uma semana e meia com um telemóvel de nove dígitos.

Aqueles tijolos que abrem e fecham e que têm as teclas asterisco e cardinal, sabe? Os mesmos que quando caem têm mais probabilidade de abrir uma cratera no chão do que ficarem completamente destruídos. Esses, sim.

Pois bem, não há que ter vergonha de admitir isto: só aguentei três dias. Três longos dias em que as dificuldades começaram logo ao início — muito antes de sequer se dar a mudança.

Como sabem, todos os telemóveis mais recentes aceitam dois tipos de cartão SIM, Micro ou Nano. Ora, os telemóveis do século passado só aceitavam o modelo Standard de cartão de operadora. Sim, aqueles gigantes que hoje são quase do tamanho de uma bateria de um smartphone.

Problema? Esses cartões já (quase) não se usam e, como tal, tive de me deslocar à minha operadora onde ainda fui julgado por querer voltar à “tecnologia” do passado.

“Sabe que isto já não se usa, não é?”, foi a resposta do operador de loja, que olhou para mim com o desdém típico de quem já não tem fé na juventude. Esqueceu-se, porém, que naquela mesma loja existiam vários telemóveis que ainda usam este tipo de cartão SIM.

De volta a casa, meti o cartão no telemóvel e o processo foi todo muito rápido. Não tive que configurar o Wi-Fi (até porque não tinha), aceitar termos e condições de sistemas operativos ou introduzir contas de email. Demorei cerca de dois minutos a ter o telemóvel pronto para utilização até que me ocorreu ligar para a minha namorada a contar no que é que me tinha metido.

Este pequeno e adorável Alcatel tirou-me do sério durante três longos dias — e nem os toques polifónicos eram engraçados

Vou à lista telefónica do telemóvel (sim, que na altura não havia esta modernice de chamar “Contactos” à lista telefónica) e, para meu espanto, vejo que está completamente vazia. Zero, nada. Como qualquer jovem do futuro, os meus contactos estavam todos armazenados na nuvem e associados à minha conta Google.

“Sem problema”, pensei. “É só uma questão de associar a minha conta Google ao telefone e está feito.” Resposta errada: este pequeno calhau com teclas não tinha chip de Wi-Fi.

Problema número dois? Como eram cartões diferentes, não podia simplesmente usar o “novo” no iPhone para copiar os contactos da conta para o cartão. Estão a ver o que é ter de registar mais de 200 contactos à mão? Pois, copiei apenas dez e desisti. Já estava a prever que isto não iria durar muito tempo.

O primeiro dia tinha passado e eu já suava do bigode cada vez que tinha de pegar no monstrinho, com medo de descobrir novos entraves à utilização. O segundo dia foi pacífico. Demasiado pacífico, até. Já não era inundado por notificações desinteressantes e, muitas vezes, intrusivas.

Aos 64 anos a minha mãe recebeu o seu primeiro smartphone. Saiba como vai esta relação

Mas isso também implicava não estar a receber notificações de emails de trabalho, sobre a atividade dos meus amigos ou acerca daquela encomenda que ainda não tinha sido enviada mas, estivesse eu a usar um smartphone, faria questão de verificar o estado de envio a cada cinco minutos.

Aos meus amigos disse que só estaria contactável por mensagem e chamada normal. A indignação foi geral e durante horas fui alvo de chacota no grupo de WhatsApp que não podia ler. A risada foi ainda maior quando um dos meus amigos me ligou a perguntar se eu já tinha visto o trailer de um novo jogo que ia sair em maio.

“Não, deixa-me só chegar a casa e vejo no computador”, disse. Do outro lado da linha não se ouviu mais nada, a não ser condescendência e desprezo.

Ao terceiro dia senti que já não dava mais. Tirei o iPhone da gaveta e preparei-me para desligar de vez o Alcatel preto de teclas coloridas. Em três dias, a bateria manteve-se com os três traços por gastar — o que significa que tinha carga suficiente para ir num safari louco, perder-me com os leões durante uns cinco meses e voltar ainda com um traço de bateria.

Mal liguei o iPhone foi como voltar a sentir aquela liberdade de aprender a andar. De um ecrã de apenas uma polegada, com baixíssima resolução, para um de quase seis, foi difícil não ficar cego com a diferença de brilho entre os dois equipamentos. No smartphone, tinha inúmeras conversas por ler e tantos outros emails por responder.

As notificações eram às milhares e confesso que nem me dei ao trabalho de as eliminar. Em três dias, o iPhone tinha perdido quase toda a carga total, mesmo estando em repouso. Nas conversas de chat eram muitos os que perguntavam se alguém sabia se esta minha ideia era coisa para durar muito tempo.

Não durou. Já estou novamente a responder a emojis com outros emojis, a ignorar notificações intrusivas e a aborrecer-me cada vez que o telemóvel vibra com conteúdo desinteressante. Mas desta vez já não me sinto sozinho.