Uma das mais bonitas e doces canções de amor é dos The Beatles. Chama-se “When I’m Sixty Four” — foi composta por Paul McCartney nos tempos em que os gigantes do rock só eram conhecidos para quem frequentava o Cavern, o pub de Liverpool onde atuaram 292 vezes no mesmo ano — e é cantada do ponto de vista de um rapaz que faz planos para envelhecer com a mulher que ama.

O amor tem tanto de inexplicável como de difícil se, como deseja McCartney, quisermos que dure até aos 64, ou mais. Para lá chegar, não basta amar. É um chavão, nós sabemos, mas é daqueles que não perdem a validade. Há comportamentos encarados com normalidade — alguns são vistos até como saudáveis — que podem estar a boicotar a sua relação. A MAGG falou com a terapeuta de casais da Oficina de Psicologia Rita Fonseca de Castro que indica os 11 principais.

Estar sempre de acordo

Por mais empatia que exista entre um casal, e por mais semelhantes que possam ser, ninguém pode estar sempre de acordo. Logo, dizer sempre que “sim” poderá ser sinal de que algo não está bem.

“Saber dizer não quando uma situação nos desagrada, ou vai contra algo que faz parte de nós, representa uma manifestação das nossas genuínas necessidades e desejos, aos quais o outro poderá não conseguir aceder se estivermos sempre a concordar com tudo, pelo desejo de agradar e ser aceite”, diz a terapeuta de casais Rita Fonseca de Castro. “Muitas pessoas acabam por sentir que se foram anulando em privilégio de uma relação, o que pode conduzir a elevados níveis de mal-estar.

Usar todo o tempo livre individualmente

Nenhum extremo é bom. O equilíbrio é o segredo para quase tudo na vida — incluindo as relações. Passar o tempo todo com o namorado ou marido não é positivo, da mesma forma que não investir nessa relação também.

“Um dos maiores desafios da vida em casal é encontrar o equilíbrio entre os “diferentes tempos” — a que se acresce o tempo da vida familiar, quando existem filhos”, diz a psicóloga da Oficina de Psicologia. Uma relação saudável e funcional depende da existência de “momentos em que os elementos do casal usufruem da presença um do outro, bem como ocasiões em que se dedicam aos seus hobbies ou áreas de interesse individuais, não necessariamente partilhados.”

Não investir noutras relações

O princípio “ele [ou ela] é tudo para mim” não é bom. “A escassez de relações sociais e de suporte fora da relação amorosa vai acabar por se revelar um enorme ‘contra’ para o casal.”

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Não discutir

Discutir é importante, na medida em que é sinal de que os dois elementos do casal não têm problema em manifestar desagrado perante determinadas situações. “Ficar em silêncio para evitar conflitos” é um comportamento tóxico, na medida em que retira transparência e entendimento numa relação.

“O silêncio, caminho muitas vezes escolhido por um dos elementos do casal quando o outro expressa insatisfações ou começa a discutir, parece ser uma forma de não alimentar conflitos”, diz Rita Fonseca de Castro. “Contudo, o que se verifica é que esta acaba por ser uma estratégia potencialmente letal para a comunicação do casal.”

Estar sempre a discutir

Mas discutir por tudo e por nada também está longe de ser o cenário ideal. Mais uma vez, a chave é o equilíbrio: “Se expressarmos aquilo que nos incomoda é fundamental para evitar a instalação de motivos de insatisfação na relação, promovendo uma saudável resolução, será que vale a pena fazê-lo a todo o instante?”, questiona a psicoterapeuta. “Também é importante aceitar o outro com as suas especificidades, incluindo aquilo de que gostamos menos”, acrescenta.

O conflito faz parte de todas as relações. Mas, tal como afirma o terapeuta conjugal norte-americano John Gottman, citado por Rita Fonseca de Casto, “o que os distingue [aos casais] é a forma como lidam com os conflitos e as estratégias que, juntos, encontram para os ultrapassar.”

“Já nos conhecemos tão bem que até adivinho o que ele está a pensar”

“Se, muitas vezes, até podemos estar certos, em outras tantas podemos não fazer ideia alguma do que passa pela cabeça do outro”, diz Rita Fonseca de Castro. “Esta ilusão de que somos capazes de fazer uma espécie de ‘leitura da mente’ pode levar a grandes mal entendidos.”

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Tentar mudar o outro

É quase uma frase feita, mas ainda é comum haver a vontade de alterar traços de personalidade ou físicos do parceiro, que tem legitimidade para manter-se e ser aceite tal como é. Ainda que um casal se deva moldar às características do outro, é fundamental que cada elemento aceite o companheiro tal como ele é, mesmo “considerando, que a mudança é para o seu próprio bem e que fará dele/dela uma pessoa melhor”.

Expor demasiado a vida — até quando a felicidade é pura e genuína

Vivemos na era do oversharing. Pessoas felizes, refeições deliciosas, atos carinhosos invadem as redes sociais. Será isto benéfico para o casal? Talvez não. Segundo a terapeuta, pode estar na origem de “desacordo”, levando a que momentos bons se transformem em pretexto para conflito.

“É frequente que, por se sentir uma felicidade genuína, sobretudo em fases iniciais de uma relação, se tenda a partilhar este sentimento com quem se conhece, contando a toda a gente sobre a (nova) relação e, atualmente, com recurso às redes sociais, partilhando fotografias do casal, de refeições partilhadas ou momentos e locais visitados a dois”, diz. “Muitas vezes isto é feito sem que o companheiro ou companheira seja consultado sobre a forma como se sente em relação à exposição”, acrescenta.

Cuidar demasiado

Devemos cuidar de quem nos é querido, mas com alguma contenção. O auto-cuidado não deve ser descartado em prol do outro. Não nos devemos abandonar para nos dedicarmos a outra pessoa.

“Toda a gente gosta de receber mimo, atenção e ser alvo de preocupação e cuidado por parte da pessoa com quem se encontra em relação, mas “se estas manifestações forem excessivas e estivermos sempre a fazer tudo pela outra pessoa, permanentemente a assegurarmo-nos de que está bem ou que não se esqueceu de nada, por exemplo, podemos ser mal interpretados”, explica.

Numa relação não queremos (ou não devíamos querer) alguém que se comporte como um pai ou mãe. Além disso, este zelo excessivo pode ser também associado a um défice de confiança que faz crer que o “outro não consegue conduzir a sua vida sozinha, podendo fazer com que se sinta sufocado.”

“Com exceção de situações extraordinárias, em que alguém precise efetivamente de ser cuidado ou esteja com compromissos de funcionamento, todos temos recursos que podem ser mobilizados em situações de necessidade, sendo que, na verdade, a maior parte de nós cuidava de si de forma eficaz antes de iniciar uma relação.”

Demonstrações de ciúmes

“É muitas vezes encarada como uma forma de amor e, até, com algum humor, sobretudo no início de uma relação”, explica. “Contudo, com o decurso do tempo e a consolidação da relação, pode tornar-se um sinal de falta de confiança e um motivo de verdadeiro desconforto para quem é alvo de dúvidas. Em casos mais extremos, pode mesmo conduzir a comportamentos de controlo.”

“Os opostos atraem-se”

“Nem muito iguais, nem muito diferentes”, diz a especialista. “É verdade que muitas vezes nos sentimos atraídos por quem é muito diferente de nós, contudo a investigação tem vindo a demonstrar é que esta atração acaba por não conseguir evoluir para uma relação satisfatória.”

Por outro lado, ser-se demasiado idêntico poderá também não ser benéfico. Deve haver semelhanças, claro, sobretudo nos valores, interesses e backgrounds socais e culturais. Mas, “se estivermos perante duas pessoas demasiado semelhantes, pode existir uma perda a nível da novidade e curiosidade pelo outro.”