Quantas vezes já reparou que cada vez que fala com o seu cão, este inclina a cabeça para um lado ou para o outro? É quase matemático, ora experimente. Se o chamar e lhe perguntar se quer comida, provavelmente irá inclinar a cabeça para a direita ou para a esquerda. Se mencionar a palavra proibida (rua) — que geralmente o deixa histérico —, é expectável que reforce a inclinação ou que repita o mesmo movimento para o lado oposto.

Durante anos a ciência tentou oferecer uma resposta conclusiva para este comportamento, mas as hipóteses são várias e nunca se esgotam. Primeiro, fizeram-nos acreditar que os cães inclinavam a cabeça como forma de criar empatia com os donos e, de facto, não há nada mais adorável do que um cão de cabeça inclinada enquanto falamos com ele.

A revista “Mental Floss” propôs uma ideia que estabelece uma relação entre o estado de atenção do cão e o movimento de cabeça, e defende que o comportamento serve para demonstrar que “estão atentos ao que os donos lhe estão a dizer.”

Há também outras hipóteses que sugerem que o movimento é feito para que os animais sejam capazes de identificar o tipo de som que está a ser emitido, bem como a sua origem. Outra teoria diz que este comportamento surge como resposta ao tom carinhoso dos donos e significa a sensação de conforto dos animais ao ouvirem as palavras naquele tom específico.

Mas é o estudo realizado por Stanley Coren, psicólogo e autor do livro “How to Speak Dog — Mastering the Art of Dog-Human Communication”, que está a ganhar alguma credibilidade, apesar de ter sido realizado há cinco anos, em 2013.

Tudo começou quando o autor se apercebeu que o seu cão movimentava a cabeça para a direita ou para a esquerda consoante aquilo que ele lhe dizia. Isto, aliado ao facto de, na altura, existirem poucos estudos que procurassem responder ao motivo deste comportamento, levaram Coren a procurar uma resposta coerente e definitiva.

Partindo do princípio de que os cães possuem uma inteligência emocional muito elevada, e que precisam de conseguir ler o rosto humano para captar o estado emocional das pessoas com quem interagem, o psicólogo avançou a hipótese de que o movimento de cabeça dos cães tinha como objetivo melhorar o seu campo de visão.

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Experimente cerrar o punho e metê-lo em frente ao seu nariz — isto é o que os cães de focinho médio e longo veem quando olham de frente para um objeto ou para uma pessoa. Foi com base nesta ideia que o escritor realizou um simples questionário que pretendia recolher apenas duas informações: quantas vezes os cães dos inquiridos inclinavam a cabeça, e qual a raça dos animais.

Os resultados foram mais ou menos o esperado e revelaram que 71% dos cães com focinhos maiores inclinavam a cabeça com mais frequência do que os cães de focinho achatado (52%). Contudo, o psicólogo não nega que a elevada percentagem de cães com focinhos mais pequenos não permita que, ainda, se possa chegar a uma conclusão definitiva. Mas garante que “foi o passo necessário para que se começasse cada vez mais a investigar sobre o tema.”

“Estes resultados podem significar que mesmo aqueles cães com focinhos mais achatados — como os Pug, os Boton Terrier ou os Pekingese —, beneficiam do movimento de cabeça para melhorar o seu campo de visão, já que o focinho deles bloqueia a parte inferior do rosto do humano.” diz o psicólogo e não tem dúvidas que este pode ser apenas um dos elementos que os faz adotar este tipo de comportamento.

“A tentativa de captar um tipo de som, por exemplo, é também uma das hipóteses para o movimento mas há outras várias com as quais concordo. Até mesmo aquela que diz que eles estão só a tentar ser fofinhos e adoráveis”, conclui.