Não estamos viciados nos telemóveis, mas sim nas outras pessoas

Estudo afirma que o vício dos smartphones vem da necessidade constante de estarmos em contacto com outras pessoas

Os autores querem dar uma boa notícia ao mostrar que é o desejo por interação humana que é viciante, e não o smartphone

Le Buzz / Unsplash

São muitas as pessoas que, aparentemente incapazes de viver sem o seu telemóvel por mais de cinco minutos, não passam sem estar constantemente a verificar emails, menssagens e redes sociais. Um hábito, cada vez mais, conhecido como anti-social e uma consequência do vício pelos smartphones, que está a alertar especialistas de todas as áreas: o uso do telemóvel está associado à depressão, materialismo, narcisismo e ansiedade social, o que levanta sérias questões sobre o lado negro do uso deste gadget. Mas será que este problema pode estar a ser avaliado de forma errada? Pode o vício do smartphone ser hiper-social e não anti-social?

Um estudo feito por Samuel Veissiére e Moriah Stendel, pesquisadores do Departamento de Psiquiatria da Universidade de McGill, em Montreal, no Canadá, afirma que “não são os smartphones que são viciantes, mas sim a socialização que eles proporcionam”. Dizendo ainda que as funções mais viciantes dos smartphones têm todas um tema em comum: elas permitem uma ligação com outras pessoas.

Assim, explicam que “o vício em smartphones é hiper-social e não anti-social”, pois o desejo de ver e monitorizar outros, tal como o de ser visto e monitorizado, é uma necessidade do ser humano desde há muitos milhares de anos: os seres humanos evoluíram para uma espécie exclusivamente social e precisam, constantemente, de informação de outros, que lhes sirva de guia para um comportamento culturalmente apropriado, o que também é uma maneira de encontrar objetivos e um senso de identidade comum.

Os autores do estudo consideram que, embora os smartphones aproveitem uma necessidade normal e saudável de socialização, o ritmo e a escala de hiperconectividade com que tudo acontece faz com que o sistema de recompensa do cérebro fique saturado, o que pode levar a vícios não saudáveis. No entanto, afirmam que “há muito pânico em torno deste tópico” e, por isso, estão a “tentar oferecer boas notícias ao mostrar que é o desejo por interação humana que é viciante” e que há soluções bastante simples para lidar com isso.

Entre as soluções estão: desativar as notificações push, configurar os horários apropriados para verificar o telefone e uma polítca laboral que proiba e-mails noturnos e ao fim de semana. Tudo isto pode ajudar a recuperar o controlo. “Em vez de se começar a regulamentar as empresas de tecnologia ou o uso desses dispositivos, precisamos de começar a conversar sobre a maneira apropriada de usar os smartphones”, disse Samuel Veissiére numa entrevista recente. “Os pais e professores precisam de estar cientes de como isto é importante ”.

Samuel e Moriah acreditam que os smartphones vieram, simplesmente, equipar-nos com um novo meio de socialização. Assim, a sua propensão para induzir o vício apenas indica o quanto os outros são importantes para nós e como queremos que eles também se importem connosco.

Partilhe
Fale connosco
Se encontrou algum erro ou incorreção no artigo, alerte-nos. Muito obrigado. adriana.melo.claro@hotmail.com