Sofia e Letizia

É evidente que Letizia, que representa a modernidade face à tradição, ainda não matou Sofia no coração dos espanhóis.

As duas rainhas apareceram cúmplices esta semana para mostrar que tudo está bem entre elas

Getty Images

Num dos brilhantes diálogos da fabulosa série italiana “Gomorra”, alguém dizia que depois da morte do Rei, há sempre alguém que nunca chora: o filho. Em Espanha, a monarquia “juancarlista” sempre teve elevados índices de popularidade, pela sobriedade institucional na transição da ditadura para a democracia e porque a “Hola” se tornou uma máquina de percepção positiva e simpatia daquela família.

Até que um dia, sucessivos escândalos de revistas sociais, caçadas e corrupção inverteram a boa imagem e a Casa Real teve de antecipar o futuro. Porém, houve sempre uma pessoa que manteve a sua linha condutora e permaneceu no coração daquele Estado povoado por diversas nações: a rainha Sofia. Um símbolo de estoicismo, de dignidade, de apagamento da sua “persona” face às exigências e obrigações do seu dever institucional.

O amanhã passava por Filipe e pela sua consorte. Uma ex-jornalista, sem sangue azul, sem pudor de recorrer a plásticas. O novo rei e Letizia tentaram rapidamente apagar os problemas do pai e das suas irmãs, retomando e recuperando a popularidade perdida. Contudo, nunca é bom estarem em jogo duas visões da mesma função e, mais cedo ou mais tarde, surgem as quezílias.

O incidente entre Sofia e Letizia marcou esse dualismo que persiste enquanto existirem dois reis. E apesar das coisas estarem aparentemente regularizadas, com uma foto para descansar os imensos painéis de debate de “revistas del corazón” que inundam as televisões espanholas, é evidente que Letizia, que representa a modernidade face à tradição, ainda não matou Sofia no coração dos espanhóis.

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