Histórias. Quando as amizades não resistem ao nascimento de um filho

Nídia Santos perdeu o grupo de amigos mais próximo depois de ter sido mãe, Cláudia Gaudêncio passou pelo contrário e sentiu-se excluída.

Este é um cenário que pode não se repetir depois do nascimento de uma criança

Brooke Cagle/ Unsplash

Um filho muda muita coisa na vida dos pais. Horários, rotinas, prioridades — e até mesmo relações. O nascimento de uma criança, apesar de ser um acontecimento feliz, pode também colocar um ponto final em muitas amizades.

“Assim que o nosso filho nasceu, os amigos desapareceram”, conta Nídia Santos, administrativa e assistente médica de 32 anos, à MAGG. Nídia e o companheiro tinham um grupo de amigos coeso, com o qual se reunia semanalmente.

Em cafés, jantaradas e para sair para dançar noite fora, o grupo de amigos de Nídia, constituído maioritariamente por casais sem filhos, solteiros ou pais divorciados (que apenas tinham os filhos a seu cargo a cada 15 dias), passava praticamente todos os fins de semana juntos.

“Eu e o meu companheiro estávamos a tentar engravidar há algum tempo e os nossos amigos sabiam disso. Foram os primeiros a apoiar-nos e, mesmo quando engravidei, continuávamos a passar imenso tempo juntos. Mas assim que o nosso filho nasceu, pararam de aparecer, de nos telefonar. Alguns deles nem sequer conhecem o Martim, que já tem dois anos”.

Este não é um caso isolado. Como explica Rosário Carmona e Costa, psicóloga clínica, é natural que na sequência do nascimento de um filho, as diferentes esferas da vida de uma pessoa ou de um casal sofram alterações.

“Estas alterações podem ser temporárias, decorrentes de um necessário período de adaptação, ou permanentes — e a esfera social não é exceção”, afirma a especialista. “E ainda bem: qualquer acontecimento de vida significativo merece tempo e espaço para ser integrado.”

De quem é a “culpa” — dos novos pais ou dos amigos?

Rosário Carmona e Costa avança que não considera importante encontrar os responsáveis do afastamento e do consequente esmorecer das relações de amizade após o nascimento de um bebé.

“Por vezes, há pais que realmente ainda não encontraram a fórmula que resulta para conciliarem uma vida social satisfatória com a exigência da vida com filhos”, afirma a especialista. “Por outro lado, também existem pais que o fariam de forma muito mais rápida, mas cujos amigos não manifestam nenhuma abertura à presença dos novos filhos nos velhos programas.”

Chegou uma altura em que desistimos de correr atrás de pessoas que claramente não queriam estar connosco.”

Nídia Santos conta que o afastamento acabou por ser inevitável, mas não sem antes ter feito todos os esforços para o evitar, com sucessivos convites aos amigos, sempre recusados.

“Nunca mais soubemos nada de ninguém do grupo mais chegado. Pararam de nos ligar, de nos enviar mensagens. Tentámos por várias vezes contactá-los, combinar coisas, mas nunca podiam. Chegou uma altura em que desistimos de correr atrás de pessoas que claramente não queriam estar connosco.”

No caso de Nídia e do companheiro, foram os amigos que, através de atitudes e da sua ausência constante, demonstraram que já não existia uma ligação ou interesses em comum. “Nós continuamos exatamente iguais. Não tínhamos a mesma disponibilidade para sair à noite, mas podíamos jantar, lanchar, estar um bocado em casa ou no café.”

A psicóloga acrescenta que, na sua opinião, é compreensível que “um casal que esteja a tentar acertar os horários da noite do seu filho de um ano dispense uma jantarada pela noite dentro, que deitaria por terra esforços de semanas”.

Quando são os pais a desligarem-se dos amigos

A gestora Joana Soares, 33 anos, é solteira e não tem filhos. E começou a sentir mudanças na forma como as amigas se relacionavam com ela à medida que estas sofriam alterações nas suas vidas.

“Comecei a sentir um afastamento da parte de muitas amigas: umas logo quando começaram a namorar, outras quando ficaram grávidas”, conta Joana. “Entendi que foi uma questão de prioridades ou, pelo menos, foi mais fácil aceitar a mudança assim.”

Honestamente, tinha muito receio de não ser oportuna. O meu maior medo era convidar as minhas amigas para coisas descabidas.”

Joana confessa que sentiu as amigas a afastarem-se, mas também não correu atrás, nem exigiu atenção. “Principalmente quando passam pela experiência da maternidade, a vida das mulheres muda muito. E honestamente, tinha muito receio de não ser oportuna. O meu maior medo era convidar as minhas amigas para coisas descabidas, por não saber se faziam sentido ou se ainda eram, sequer, do interesse delas.”

Tempo vs. Prioridades

Márcia Pereira é designer de comunicação, 41 anos, tem três filhos e já esteve dos dois lados da questão. “Antes de ser mãe, senti que as minhas amigas com filhos se afastaram, principalmente por falta de tempo. Hoje sei isto mas, na época, o que senti foi que me tinham colocado em outro patamar, devido a não ter filhos. Achavam que eu não tinha mais nada para fazer do que estar a deitar conversa fora e que também não tinha nenhuma mais-valia para elas, nada a acrescentar.”

Em diferentes fases da vida, existem pessoas com quem nos conectamos de forma mais satisfatória.”

Já depois do nascimento do primeiro filho, a designer de comunicação explica que sentiu na pele o afastamento das amigas sem filhos e considerou, mais uma vez, que o tempo ou falta dele foi um fator fulcral nesta situação.

“Tive realmente amigas minhas que se afastaram, talvez por acharem que eu não tinha disponibilidade ou simplesmente não queria estar com elas. Na verdade ainda hoje, passados cinco anos, tenho amigas que não acreditam que eu só queria estar com elas como sempre estive — acharam sempre que, quando as convidava para algum programa, o que queria era impingir-lhes as minhas crianças.”

A psicóloga entende que a falta de tempo que assola muitos pais não é uma falta de tempo real, “mas sim um período em que a organização está ainda em fase de caos. Certamente que existem diferentes prioridades o que, mais uma vez, não tem qualquer problema”.

Não percebem que, dado o pouco tempo livre que tenho, prefiro passar uma noite fora com o pai das crianças do que estar com elas a beber copos.”

No entanto, Márcia explica que as exigências da maternidade e as diferentes prioridades que o nascimento dos filhos impuseram fizeram com que, também ela, desistisse de algumas amizades.

“Também me afastei de outras amigas que não compreendiam que eu tinha horários para poder estar com elas, não percebiam que a logística de tantas crianças pequenas a meu cargo obrigava a alguma rigidez. Assim como não percebem que, dado o pouco tempo livre que tenho, prefiro passar uma noite fora com o pai das crianças do que estar com elas a beber copos.”

Rosário Carmona e Costa realça que há um lado positivo em manter uma continuidade nas relações que mantemos ao longo dos anos mas há também que encarar que as amizades têm um ciclo de vida: evoluem, terminam, transformam-se.

“É natural e é consequência de uma vida que constantemente se renova, e do processo de transformação de todos nós, consoante as experiências que temos. Assim, seja um filho, uma mudança de emprego, uma nova relação amorosa, algo que faça com que duas pessoas cresçam em sentidos diferentes, tudo isto pode fazer com que desapareçam pontes. Não faz mal, não há problema, não somos piores nem isso retira valor ao outro. Simplesmente, em diferentes fases da vida, existem pessoas com quem nos conectamos de forma mais satisfatória.”

“Na dúvida, aproxime-se sempre da sua amiga que foi mãe”

“Já cheguei a pensar que se calhar também devia ter filhos para poder entrar em programas de família, já que qualquer dia não tenho ninguém com quem sair”, lamenta Cláudia Gaudêncio. A maquilhadora de 31 anos não tem filhos, mas grande parte das amigas tem e confessa ser alvo de muita pressão social.

“Sinto muitas vezes que não ofereço nada às minhas amigas e colegas — 90 por cento dos temas das conversas são filhos e, obviamente, não tenho muito para partilhar nessa área.”

No entanto, Cláudia sente falta das amigas e, apesar do afastamento inerente, tenta fazer um esforço para que todas continuem a conviver mesmo com diferentes realidades. “Este ano decidi dispensar o jantar de aniversário e optar por um brunch, o que agradou a muitos das minhas amigas mães. Vamos ver como corre.”

Rosário Carmona e Costa apoia atitudes como as de Cláudia e acredita que fazer um esforço para conjugar as diferentes prioridades e realidades dos amigos é “de uma riqueza enorme. Se nos dermos tempo e se formos empáticos com a situação de cada um só vejo fórmulas vencedoras.”

A psicóloga clínica alerta também para uma realidade muitas vezes descurada: a solidão escondida dos pais, e principalmente das mulheres que foram mães.

“Na dúvida, aproxime-se sempre da sua amiga que foi mãe. Combata a resistência, as recusas e os argumentos muito firmes acerca da falta de tempo. Seja um ginasta na aproximação, porque do outro lado vai haver uma mãe, um pai ou um casal que agradece”.

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