Sair de casa de manhã, entrar no metro, sair do metro, chegar ao trabalho. Foi isso que fizemos hoje, como aliás quase todos os dias, sem nos apercebermos que o facto de o metro de Arroios, em Lisboa, estar fechado para obras e da redação ficar uns metros acima do nível da estação da Baixa-Chiado serem um impulso extra para que já tenham sido dados quase 3 mil passos. E tudo isto antes da hora de almoço.

Pode parecer muito, mas hoje, Dia Mundial da Atividade Física, decidimos recordar a regra que dita que são precisos dar pelo menos dez mil passos para que a vida se torne automaticamente mais saudável.

O investigador Yoshiro Hatano foi o impulsionador desta teoria, quando percebeu que os japoneses se estavam a aproximar perigosamente dos hábitos sedentários ocidentais e apontou  os dez mil passos por dia como o número mágico para ver crescer a qualidade de vida.

Na sua investigação concluiu que estes mesmos dez mil passos queimam 300 calorias, ainda que aqui o foco não seja apenas ver o peso baixar. Esta atividade física ligeira reduz a tensão arterial e os níveis de glicose no sangue, especialmente importante para quem sofre de diabetes ou obesidade.

Claro que promessas como estas não passaram ao lado do marketing, ainda que falemos da década de 60. De forma a aproveitar a onda desportiva dos Jogos Olímpicos de Tóquio em 1964, foi criado um dispositivo chamado Manpo-Kei, sendo que ‘man’ significa 10 mil, ‘po’ quer dizer passo e ‘kej’ significa medida. Literalmente, a expressão significa “medidor de 10 mil passos” e deu mote à criação do primeiro pedómetro para uso comercial (o primeiro foi ideia de Leonardo da Vinci, ainda que com aplicações militares).

A rotina dos dez mil passos

Dos anos 60 ficaram as mini saias e as músicas dos Beatles, mas não os pedómetros, vistos atualmente por muitos como autênticas peças de museu perante os smartphones contam automaticamente (como o iPhone) ou através de Apps não só os passos dados, como até os lanços de escadas subidos. É exatamente esta técnica que ajuda Margarida Santos, médica de 24 anos,  a chegar ao fim do dia com a sensação de dever cumprido sempre que a aplicação dá conta que já deu os dez mil passos do dia.

“Há mais de dois meses que criei este desafio diário e ainda não falhei um dia”, garante. Os truques são ir a pé para o trabalho, não usar elevador e preferir cafés que fiquem um pouco mais longe e que, por isso, obriguem a uma caminhada extra. “Quando ainda me faltam passos tento convencer alguém a dar uma voltinha comigo, nem que seja à volta do quarteirão”, explica.

Mas se as contas de Margarida dão quase sempre positivo, os sete mil passos que temos pela frente face a umas inevitáveis oito horas sentada à secretária, põem a minha conta a negativo. Hora mais que certa para pôr em causa uma teoria com sessenta anos e questionar quem sabe: Precisamos mesmo de dar dez mil passos por dia?

A resposta é não. Segundo um estudo divulgado há dias pelo Journal of the American Heart Association, qualquer duração é válida quando se fala em atividade física.

Afinal, não precisa de 30 minutos de exercício seguido para viver mais

Além de os investigadores terem comprovado que a atividade física promove a longevidade — dado menos surpreendente — concluíram que o risco de morte prematura diminui tanto em pessoas que caminham continuamente durante cinco minutos ou naquelas que fazem pequenas atividades como caminhar ou subir escadas mas em espaços de tempo mais curtos. “A mensagem aqui é que toda a atividade física conta”, refere William Kraus, coordenador do estudo.

“É por isso que a teoria dos dez mil passos está ultrapassada”, garante à Magg Pedro Teixeira, diretor para a Área da Promoção da Atividade Física da Direção-Geral de Saúde. O importante, segundo o especialista, é acumular atividades ao longo do dia. “Pode ser um minuto a subir e a descer as escadas no escritório ou uma caminhada de cinco minutos no quarteirão”.

Mexer-se, não importa como

Para traçar um plano diário próximo do que seria o ideal, pedimos ajuda a Paulo Esteves, personal trainer do ginásio 1Fight, que lembra que 150 minutos por semana de atividade física com intensidade moderada são o ideal. “Para melhorar a condição física, o volume de treino deverá subir para 300 minutos por semana e já com uma exercícios mais intensos que uma simples caminhada”, explica.

Já longe do número 10 mil, Pedro Teixeira arrisca num novo que, segundo a sua pesquisa, se aproxima mais dos tais 150 minutos de atividade física que todos devemos ter por semana. Assim, 7500 passos serão suficientes, tanto a nível físico, como tendo em conta um ritmo de vida que deixa pouco tempo para mexer o corpo. Portugal é, aliás, um dos países da Europa que menos tempo dedica ao exercício físico. Segundo o Eurobarómetro sobre desporto e atividade física, realizado de quatro em quatro anos e coordenado pela Direção-Geral da Comunicação da Comissão Europeia, a percentagem de portugueses que pratica exercício ou desporto regularmente era 9% em 2009, passou para 8% em 2013 e para 5% em 2017. “Explicar este retrocesso é difícil, mas acredito que seja motivado por uma sociedade que promove o sedentarismo”, refere o especialista. Temos cada vez menos horas de lazer, trabalhamos mais à secretária e somos fãs do transporte motorizado, uma junção de três fatores que, segundo Pedro Teixeira, podem ajudar a explicar este fenómeno.

Mas pelo menos hoje, Dia Mundial da Atividade Física, criemos desafios para ver mudar os números do barómetro. No meu regresso a casa vou esquecer que existem escadas rolantes no metro. Vão ser 232 degraus e, com sorte, apanho um de três carruagens, o que obriga sempre a uma corrida extra.