Duas pessoas estão sentadas num restaurante. Uma olha passivamente para a companhia, que está a mexer no telemóvel. O primeiro elemento está a ser vítima de phubbing, o ato de ignorar quem está connosco, em prol daquilo que está a acontecer do outro lado do ecrã.

A expressão, que nasce da junção da palavra “phone” (telefone) e “snobbing” (desprezar), já foi várias vezes estudada. Pode parecer inofensivo ou um ato sem importância, mas a realidade é que as conclusões nunca indicaram benefícios. Bem pelo contrário: o phubbing fragiliza as relações, sejam amorosas, de amizade ou individuais. Quem é vítima sente-se pior, mas quem pratica também não sai ileso aos sentimentos negativos. E a simples presença do telemóvel interfere com o prazer que retiramos da companhia dos outros.

As consequências do phubbing (comprovadas pela ciência)

“Todos os comportamentos que promovam alheamento da realidade presente e desconexão dos outros comportam riscos significativos”, diz a psicóloga Filipa Jardim Silva. “É nesse contexto que o phubbing se insere: normalizarmos um comportamento que não é saudável, nem sinal de respeito, tenderá a afectar de forma negativa as nossas relações e o nosso bem-estar.”

Ghosting, haunting e benching: as práticas das novas relações

Uma investigação publicada em março de 2018 pelo Journal of Applied Social Psychology estudou as consequências deste comportamento e demonstrou que dele nascem sentimentos negativos, tanto para quem o pratica como para quem é vítima dele. Segundo os investigadores, quem é ignorado sente que são ameaçadas quatro necessidades fundamentais: o sentimento de pertença/ligação, a segurança/percepção de controlo, a auto-valorização/auto-estima e existência com sentido/significado.

É grande o risco de repetirmos este padrão de comportamento e concluirmos de forma enviesada que não temos jeito para pessoas reais, o que só nos manterá numa bolha de solidão.

“Tal como temos necessidades nutricionais essenciais também temos necessidades psicológicas para satisfazer, fundamentais para o nosso bem-estar”, explica.

O “sentido de ligação”, as “emoções de proximidade experienciadas” e até a “qualidade do diálogo” ficam comprometidas. Filipa Jardim Silva realça a importância do valor que devemos dar a quem nos rodeia: “Não existindo contacto visual nem atenção dedicada à interacção do momento presente, dificilmente existirá empatia e sincronicidade”, diz. “Perde-se assim a oportunidade de uma ligação autêntica e satisfatória ao outro, uma das necessidades psicológicas fundamentais. “

As relações saem afetadas. Não se criam laços tão profundos. A conversa é fraca, a atenção é repartida e o sentimento de contentamento pela presença do outro é menor.  Outra investigação concluiu ainda que o phubbing pode prejudicar as relações entre marido e mulher, aumentando a probabilidade de se sentirem infelizes com o casamento ou do aparecimento de depressão.

A simples presença do aparelho é capaz de alterar a forma como nos sentimos quando estamos com outras pessoas. Já antes, em 2012, tinha-se concluído que a presença de um telefone numa conversa, mesmo não sendo utilizado, era suficiente para diminuir a ligação entre os presentes.

Quem é vítima sente-se desprezado e desvaloriado, mas quem o pratica também poderá sentir repercursões. Entra em estado de “piloto automático”. Deambula entre atividades sem estar totalmente presente. Deixa de ser um corpo inteiro e impede a mobilização dos sentidos ou da consciência. “Quando este comportamento se torna regular, a capacidade de satisfazer as nossas necessidades psicológicas diminui, uma vez que as lemos pior ou nem as identificamos”, diz a especialista.

A atitude poderá ser sistemática, inconsciente e alterar a percepção que os outros têm de nós. “Se estivermos do outro lado, a ignorar alguém, podemos nem nos aperceber do impacto do nosso comportamento, e em piloto automático dificilmente teremos a perspicácia necessária para fazer uma legenda adequada do que se passou”, diz. “Assim é grande o risco de repetirmos este padrão de comportamento e concluirmos de forma enviesada que não temos jeito para pessoas reais, o que só nos manterá numa bolha de solidão.”

O perigo da adição

Em fevereiro, num estudo, publicado no Journal Experimental Social Psychology, os participantes que utilizavam o telemóvel enquanto comiam com amigos ou família reportaram sentir menos prazer na refeição, sentindo-se mais distraídos e menos ligados, comparativamente a quem não utilizava nenhuma tecnologia à mesa. Outro, realizado em 2016 e publicado na revista Computers in Human Behavior, concluiu que enviar mensagens no decorrer de uma conversa torna o momento menos satisfatório para os dois lados, face a quem interage sem o telemóvel.

Por causa da atenção dividida e do modo piloto automático, focamo-nos menos em nós e nos outros. Tornamo-nos menos reflexivos e menos sociais e ignoramos aquilo que nos rodeia no mundo real.

“Fica mais em risco a satisfação das nossas necessidades psicológicas bem como a capacidade de estabelecermos ligações de qualidade com outros”, diz a especialista. Filipa Jardim Silva considera que se trata de “um comportamento que em algum momento poderá tornar-se aditivo” e que poderá retirar “liberdades e autonomia.”

A ativação cerebral com o uso de tecnologias é semelhante à que acontece com a de outras formas de adição. O impacto fisiológico é semelhante. E, nos dois casos, sabe-se onde é que o bem-estar reside: no mundo real.

Tem-se “demonstrado que os nossos níveis de felicidade aumentam quando estamos presentes, independentemente do que estamos a fazer ou do contexto em que estamos.”  Só que isso implica estar com os olhos fora do ecrã: “Presentes significa sem ecrãs enquanto filtros da realidade, para podermos estar atentos ao que nos rodeia e mobilizarmos os nossos sentidos no aqui-e-no-agora.”

Acabar com o phubbing em cinco passos

A solução não passará por deixar de usar o telemóvel. No entanto, é crucial saber utilizá-lo de forma equilibrada e funcional. Filipa Jardim Silva deixa alguns truques para evitar este comportamento e preservar as relações — individuais e com os outros.

1. Garanta que há momentos do dia em que o telefone está afastado

Durante as refeições, quando está com os seus amigos ou mesmo depois do jantar, a ver televisão ou a ler um livro. Tire tempo do telemóvel. E devolva-o a si mesmo.

2. Não pegar no telemóvel ao acordar ou adormecer

É importante “assegurar um intervalo de tempo higiénico entre o momento em que acordamos ou em que nos deitamos e o uso de equipamentos electrónicos”, diz a psicóloga.

3. Diga adeus às notificações

Seja do whatsapp todo ou do grupo em que ninguém se cala, do messenger, do Linkdin ou Instagram. Acalme o ritmo do seu telemóvel com o conselho da psicóloga:  “Se diminuirmos o número de notificações, não estaremos permanentemente com a atenção dividida.”

4. Nem som, nem vibração

Dê atenção aos seus amigos e família e não deixe margem para falhar. Filipa Jardim Silva diz que uma das formas de combater o phubbing passa por “priviligiarmos interacções sociais ao vivo e a cores”. Por isso, “quando as mesmas se derem, é importante garantirmos que temos os telemóveis no bolso sem som nem vibração.”

5. Treine a sua atenção focada

A especialista termina com um exercício: ao longo do dia, aproveite para treinar a sua atenção focada (em oposição àquela que se divide) com meditação, exercícios de respiração ou com a mobilização de todos os sentidos no momento da refeição, por exemplo.