Meio século depois da morte de Martin Luther King, a 4 de abril de 1968, e muitos textos, filmes, depoimentos, revelações, estudos e análises depois, ainda há alguma coisa a descobrir sobre esta figura lendária? Parece que sim.

Três novos documentários televisivos assinalam a data: “Hope&Fury: MLK, the Movement and the Media”“I Am MLK JR”.” e “King in the Wilderness”. Os três apresentam vozes conhecidas do movimento dos direitos cívicos nos Estados Unidos da América e, segundo o New York Times, todos procuram mostrar “a uma nova geração de espectadores uma versão mais radical de King”.

Mas é “King in the Wilderness”, que estreou a 2 de abril na HBO (ainda não está disponível em Portugal), o que apresenta a faceta menos conhecida do ídolo da luta contra o racismo nos EUA. Foca-se nos três últimos anos da vida de Martin Luther King e tira-o da moldura de ouro em que o tinham eternizado com o icónico discurso de 28 de Agosto de 1963, “I have a dream”.

Nesse tempo, o sonho transformara-se em pesadelo, como lamentou o grande defensor dos direitos dos negros norteamericanos. É um homem triste, exausto e abatido que Peter Kunhardt, o realizador de “King in the Wilderness”, encontra ao ouvir os amigos e colaboradores mais próximos de King — Jesse Jackson, Xernona Clayton, Mary Lou Finley e outros membros da Conferência dos Líderes Cristãos do Sul (SLNC), bem como Harry Belafonte e o seu conselheiro e advogado pessoal Clarence Jones — em 35 horas de entrevistas (que estarão disponíveis na íntegra no YouTube).

“Sinto que muitos me abandonaram”

Durante largos meses e até ser assasinado por um supremacista branco, King vive em conflito interior. Por vezes assolam-no dúvidas sobre a eficácia da sua posição intransigente do protesto não violento e tem de apagar divisões dentro do movimento e a gerir a instabilidade na sua vida pessoal.

Controverso, o pastor baptista nascido em Atlanta, está longe de ser a figura unanimemente aplaudida pelos norte-americanos que lhe ergueram um memorial de pedra em Washington, reservaram um dia como feriado nacional em sua honra e o sentaram no panteão dos seus maiores notáveis.

Martin Luther King e a mulher Coretta Scott King à frente da famosa marcha de Selma em prol do direito a voto dos negros.

William Lovelace/Express/Getty Images

King atravessa estes 50 anos venerado. Intocável, um ícone, um santo, é um super-herói idolatrado. E, no entanto, em abril de 1968, quatro anos depois de receber o prémio Nobel da Paz e antes de morrer baleado na varanda do motel Lorraine, em Memphis, no Tennessee, King é apenas um homem de 39 anos, com as fragilidades de um ser humano.

Transformou-se numa figura realmente radical nos Estados Unidos, um opositor declarado da política externa americana, exigindo que a justiça social se estendesse não apenas aos afro-americanos mas a todos os pobres americanos”

Se o discurso do “I have a dream” o elevara ao altar dos que sonhavam um país melhor e igualitário, o discurso feroz contra a guerra do Vietname e a pobreza em abril de 1967 — uma causa querida da sua mulher Coretta King (1927-2006), grande ativista dos direitos humanos — abre-lhe a porta a uma nova fase. A da rejeição e do desprezo. “Sinto que muitos me abandonaram”, queixa-se ele aos amigos. E tem razão.

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Iniciada uma nova frente contra a guerra do Vietname, King perde o apoio de importantes aliados de Washington. Indispõe o Presidente Lyndon B. Jonhnson, com quem tinha uma boa relação, mas não só. Quando, em Nova Iorque, na igreja de Riverside, diz que “o maior propagador de violência no mundo” era o seu “próprio governo”, passa a ser atacado por todos os lados.

Acende a ira “do movimento dos direitos cívicos, do governo e da estrutura política”, sublinhou Henry Taylor, director do Centro de Estudos Urbanos da Universidade de Bufallo, em declarações à AFP. É que, explicou David Garrow, autor de “Bearing the Cross: Martin Luther King JR e o Southern Christian Leadership Conference” (em tradução livre, carregando a cruz, Martin Luther King Jr e a Conferência dos Líderes Cristãos do Sul) à mesma agência noticiosa, a oposição à guerra era na altura marginal “e não popular como se tornou em 1972”.

King “transformou-se numa figura realmente radical nos Estados Unidos, um opositor declarado da política externa americana, exigindo que a justiça social se estendesse não apenas aos afro-americanos mas a todos os pobres americanos”, continua Garrow. O pastor protestante deixara de lutar apenas pelos direitos cívicos dos negros, abraçava a guerra pelos direitos humanos.

“Marxista e adúltero” e “oportunista imoral”

À medida que se torna mais controverso, a sua popularidade desce. Os jornais estão contra ele, os brancos chamam-no comunista, os negros não se reveem no seu apelo ao amor ao próximo e até os seus conselheiros o questionam.

O apoio dentro das suas fileiras vacila, muitas vozes receiam que as novas bandeiras pela igualdade social e contra a guerra do Vietname desviem as atenções do combate ao segregacionismo racial. Ao dirigir-se para o Norte dos EUA, King é recebido com uma hostilidade branca muito mais agreste do que a do Sul e percebe que a realidade negra, marcada pela pobreza e desemprego, é ali muito mais complexa. Ao mesmo tempo, encara a impaciência da geração mais nova, defensora do Black Power e descrente do mantra da desobediência civil sem violência.

Martin Luther King a 25 de março de 1965 na marcha pelos direitos cívicos em Alabama.

William Lovelace/Express/Getty Images

Por outro lado, os tons socialistas no discurso de Riverside acicatam ainda mais a animosidade que o director do FBI, Edgar Hoover, lhe devota. Já sem a proteção de Lyndon B. Johnson, a perseguição do FBI (as suas conversas estavam sob escuta desde 1963), que o considera “o homem mais perigoso”, intensifica-se.

Hoover nunca consegue provar que King é um perigoso comunista, mas consegue abalar a tranquilidade do seu casamento ao dar força a um segredo de polichinelo dentro do movimento: a infidelidade conjugal do líder negro.

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Nas 20 páginas dos ficheiros confidenciais do FBI reveladas em novembro último, que estranhamente figuravam num dossier sobre o Presidente John F. Kennedy, Hoover chama-lhe “marxista e adúltero” e um “oportunista imoral”. Ali estão uma série de informações, registadas em 1968 e não confirmadas, sobre a alegada vida sexualmente devassa de King (orgias, sexo em grupo e com mulheres muito jovens) e as suas ligações a comunistas.

O desejo de lançar o descrédito sobre King era tão avassalador que  já em 1963 enviara, sob a capa do anonimato, um pacote para a sua casa que foi aberto pela mulher. Tinha uma carta que o incitava a suicidar-se perante “a fraude” que era devido ao seu comportamento sexual e gravações dos sons de King enquanto fazia sexo com  outras mulheres. Coretta disse mais tarde que afinal eram apenas sons de conversas em que várias pessoas diziam “anedotas porcas”.

A verdade é que o seu casamento se ressente das suas viagens constantes e affairs amorosos. Apesar de Coretta sempre ter negado a existência de outras mulheres, há várias referências ao facto de uma sua amante estar em Lorraine na noite anterior à que foi morto.

Da mesma forma, Coretta atribuiria ao desejo de vender mais livros as revelações constantes, em 1989, na autobiografia do melhor amigo de King, seu companheiro na luta pelos direitos cívicos dos negros. Ralph David Abernathy, conhecido como o alter ego de Martin Luther King (protestaram juntos, foram presos juntos, organizaram boicotes juntos, escreveram juntos discursos, juntos fundaram o SCLC), fala das relações extramaritais da sua “alma gémea”.

Alguns amigos viriam também dizer que os derrames cerebrais que Abernathy sofrera tinham perturbado o seu juízo. No livro o pastor descreve detalhes da noite anterior ao assassinato de King, dizendo que ele estivera com duas mulheres e que, durante uma discussão com uma terceira ciumenta, ele a agredira na cama. Numa entrevista posterior, Abernathy justificar-se-ia dizendo que quis mostrar como os heróis eram mortais e como os mortais em qualquer fase da vida se poderiam transformar em heróis.

“O tempo mais difícil da sua vida”

A verdade é que em 1968, Martin Luther King sente-se tudo menos um herói.

Enquanto tentava “redimir a alma da América dos três demónios, racismo, guerra e pobreza” King, diz Belafonte, “vê que não estava preparado para a vilania que via no mundo”. Clarence Jones não tem dúvidas: “Os últimos meses antes de ser assassinado foram o tempo mais difícil da sua vida”.

Era quase como se ele visse a morte como uma saída, ele não podia escapar do jeito que nós queríamos que ele escapasse”

Ganhara peso, dormia pouco e mal, estava a beber e a fumar mais. Recebia ameaças de morte constantes. A ativista Marian Wright Edelman recorda que meses antes da sua morte, King está “deprimido”. Alguns dos seus companheiros insistem em que tire um tempo sabático, pois há mais de uma década que trabalhava sem parar. Não quis. “Era quase como se ele visse a morte como uma saída, ele não podia escapar do jeito que nós queríamos que ele escapasse”, concluiu Andrew Young, confidente de King, no documentário.

“King está tão exausto, tão pessimista em relação ao futuro, tão deprimido”,  revela David Garrow. “Em doze ou mais vezes nos últimos dois anos ele disse ‘O sonho que eu tinha em Washington em 1963 transformou-se num pesadelo’” .

É pois um King desanimado e dividido que chega a Memphis para apoiar a greve dos homens do lixo. Vê-se impotente para evitar que um protesto pacífico se torne violento mas mesmo assim decide regressar uma semana depois. Os filhos tentam impedi-lo. No documentário é relatado como os quatro se puseram diante da porta para evitar que ele saísse para Memphis e como batiam no capô do carro pedindo-lhe que não fosse, enquanto ele se afastava, recorda Xernona Clayton. A amiga lembra-se de ele, enquanto se dirigia para o aeroporto, se interrogar surpreendido:  “Mas o que é que deu a estes miúdos? Devem estar a querer dizer-me que têm mais saudades minhas. Quando voltar tenho que mudar alguns hábitos”.

Este e outros episódios dão um tom fatídico ao documentário, segundo o Washington Post. Na noite anterior à sua morte, King garante, num tom quase profético, no seu discurso: “Não tenho medo de nenhum homem, os meus olhos viram a glória da vinda do Senhor”. E a alguns amigos, como Harry Belafonte, anuncia ter feito as pazes com a morte, falando do trabalho que devia continuar depois de partir.

O memorial de Martin Luther King em Washington.

Gabriella Demczuk/Getty Images

Uma semana antes de 4 de abril de 1968, também em Memphis, o “Gandhi americano” chega a declarar num dos seus piores momentos: “Martin Luther King está acabado”. Não estava. Sete dias depois é assassinado e transforma-se num dos maiores heróis dos Estados Unidos.

Ainda hoje, todos os dias há flores brancas e vermelhas na varanda em frente ao que era o quarto nº. 306 do motel Lorraine. Mas não, Martin Luther King, não foi um santo mas um homem de carne e osso, que com as suas angústias, vulnerabilidades e paixões, e debaixo de uma tensão enorme, conseguiu ser sempre fiel à mensagem da não violência. “King é uma pessoa real e nós podemos sentir a sua dor afastando a ideia de que a estátua é perfeita”, comentou Trey Ellis, produtor executivo de “King in the Wilderness” à Newsweek. Às vezes, como escreveu Hank Stuever no Washington Post, “a melhor maneira de recordar alguém é como um ser humano”, com as suas fraquezas e tudo o resto.