Sente-se um grupo de amigos numa esplanada e lance-se como tema a existência ou não existência do ponto G. Não vai ser uma discussão muito longa — toda a gente vai afirmar que este ponto existe. O verdadeiro debate vai surgir a seguir: quem é que já sentiu um orgasmo vaginal resultante da estimulação deste ponto? A conversa pode durar horas, no entanto não faz sentido. Porquê? Porque a comunidade científica já provou que anatomicamente não existe tal coisa como o ponto G.

Se escrever as palavras “ponto G” no Google, vai obter um total de 10.700.000 resultados. Não teríamos tempo para os analisar a todos, mas os primeiros sites vão dar todos ao mesmo — truques e dicas para descobrir onde fica esta zona erógena. Não se trata de questionar se ele existe ou não, já se parte desse pressuposto. A ideia é perceber como encontrá-la — e estimulá-la até ao orgasmo.

Algumas (poucas) mulheres garantem que já tiveram um orgasmo derivado da estimulação deste tal ponto. Outras (poucas) admitem que nunca sentiram tal coisa, e sentem-se mal por não conseguirem atingir aquele que parece ser um orgasmo muito mais potente do que advém do clitóris. A pensar neste último grupo, já há cirurgias de aumento do ponto G. Mas será que isto faz sentido? Para a comunidade científica, nem por isso.

Há por aí muitos sexólogos e pseudo-sexólogos que falam a torto e a direito desse tipo de estruturas, o público está habituado a ouvir falar nisso e é uma coisa que vende. De facto algumas mulheres podem reportar mais sensibilidade nessa zona”

“É muito complicado desmistificar a ideia de que o Ponto G não existe. Está escrito em milhares de sítios que existe, agora até se inventam procedimentos para o aumentar”, explica à MAGG o ginecologista Pedro Vieira Baptista, secretário-geral da ISSVD (International Society for the Study of Vulvovaginal Disease).

“Dizer isto em público nem sempre é fácil. Há por aí muitos sexólogos e pseudo-sexólogos que falam a torto e a direito desse tipo de estruturas, o público está habituado a ouvir falar nisso e é uma coisa que vende. De facto algumas mulheres podem reportar mais sensibilidade nessa zona. Agora dizer que existe uma estrutura anatómica, não existe. Ninguém conseguiu comprovar isso.”

O que é o (suposto) ponto G

Tudo começou com o ginecologista alemão Ernst Graefenberg, que falou pela primeira vez na existência desta zona erógena em 1950. Comecemos pelo sítio onde está supostamente localizado: o ponto G ficaria na parte frontal da vagina, a meio caminho entre o osso pélvico e o colo do útero. Estudos posteriores foram ainda mais específicos e avançaram que ficaria entre 5,1 a 7,6 centímetros acima da parte frontal da parede da vagina.

Graefenberg descreveu esta zona erógena como tendo entre um a dois centímetros. Quando estimulado, o Ponto G poderia conduzir a intensos orgasmos e até a uma potencial ejaculação feminina.

O que dizem os estudos científicos

Vamos começar pelo início. O estudo de Graefenberg foi feito com base na sua “própria experiência com várias mulheres” e concluía que o ponto G pode ser encontrado em todas as mulheres. Mais de 30 anos depois, mais precisamente em 1983, Goldberg examinou 11 mulheres usando uma técnica manual padronizada, que consistia em apalpar toda a zona vaginal no sentido dos ponteiros do relógio. Com este exame, concluíram que quatro mulheres tinham o ponto G.

Estudos posteriores vieram criticar a validade desta investigação, uma vez que as mulheres sabiam que os especialistas andavam à procura do ponto G, o que pode ter influenciado os resultados. Além disso, os investigadores tiveram em consideração que as mulheres ficaram sexualmente excitadas com a estimulação desta zona erógena, o que outros estudos vieram também pôr em causa — não é possível comprovar, na sua opinião, que a excitação sexual tenha vindo do ponto G mais do que de qualquer outro ponto da vagina.

Estes são apenas dois exemplos de estudos que foram mais tarde desmistificados por outros trabalhos científicos. Mas existem outros.

Na verdade, os primeiros trabalhos sobre este tema parecem um jogo de ténis que se perpetua até hoje. Vem um estudo que afirma a descoberta do Ponto G, vem outro que põe em causa a validade do mesmo. Atualmente, porém, já não existem assim tantos trabalhos que tentem provar a sua existência. Ou há estudos que provam a sua inexistência, ou há estudos que já partem do pressuposto que ele existe.

“Grande parte destes estudos tem um intuito: vender técnicas, não estamos a falar de investigação pura e isenta”, diz Pedro Vieira Baptista.

De acordo com a PubMed, um repositório digital da Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos que reúne artigos publicados em revistas científicas das ciências da vida e biomédicas, há 102 resultados para a palavra de pesquisa “g-spot”.

Um dos mais recentes foi publicado em dezembro passado no The Journal of Sexual Medicine e garante que esta zona erógena anatomicamente não existe.

O estudo foi realizado por três investigadores, que dissecaram 13 cadáveres femininos com idades compreendidas entre os 32 e os 97 anos. Conclusão? Não foi encontrada nenhuma estrutura macroscópica além da uretra e do revestimento da parede vaginal.

“Quem quiser reclamar porque o estudo foi feito em cadáver não pode, porque também foram realizados estudos com ressonância e também não foi encontrada nenhuma estrutura nesta zona”

Foi exatamente isso que Vincenzo Puppo fez em 2014. O sexólogo conduziu um estudo com ressonâncias magnéticas na cavidade pélvica de 30 mulheres de 32 anos. Dez tinham dificuldade em atingir o orgasmo, as restantes não apresentavam qualquer queixa. Os resultados foram publicados no Journal of Sexual Medicine e vieram reforçar a ideia de que não existe ponto G nem orgasmos vaginais. Os grandes responsáveis pelo prazer feminino são o clitóris e os pequenos lábios. Ponto final.

Vincenzo Puppo também avançou que a dificuldade que algumas mulheres sentem em atingir o orgasmo pode estar associada a variáveis complexas, nomeadamente o tamanho e localização do clitóris. Sendo mais pequeno e/ou estando mais afastado da vagina, pode dificultar a chegada ao orgasmo, sobretudo quando o casal vê como único caminho do prazer a penetração.

“Por isso é que algumas mulheres relatam que têm orgasmos vaginais em determinadas posições, em determinados ângulos, e não têm noutros”, esclarece Pedro Vieira Baptista. No final, porém, está tudo relacionado com o clitóris: “O orgasmo apenas com penetração vaginal resulta na mesma da estimulação do clitóris”. A zona referida como o ponto G “contacta com os ramos do clitóris e bulbos vestibulares. Provavelmente, é apenas a estimulação do clitóris, mais nada.”

Os perigos das cirurgias para aumentar o ponto G

“É preciso criar-se esta necessidade. É preciso dizer-se que sim, o ponto G existe, que sim, é possível ter orgasmos vaginais”, critica o ginecologista. Plantar a ideia de que há mulheres que não conseguem atingir o melhor orgasmo de todos é induzir muitas delas a procurarem tratamentos e formas de resolver o problema. E isso não só é errado como é também perigoso.

Pedro Vieira Baptista é peremptório: “Sem evidência de existência, não faz qualquer sentido que surjam técnicas para aumentar o ponto G. Ainda por cima colocam uma pressão absurda nas mulheres: a ideia de que têm que ter orgasmos vaginais. É um conceito ultrapassado — o conceito freudiano era que o orgasmo clitoridiano seria o da mulher ‘imatura’ enquanto o vaginal seria o oposto. Este tipo de mensagem coloca uma enorme pressão, sobretudo na mulher com dúvidas — sem qualquer fundamento para tal!”.