Uso o Facebook há seis anos e a plataforma já me conhece melhor do que eu. Registei-me em janeiro de 2012 às 22h40 e procurei escolher um nome diferente, que me destacasse dos outros utilizadores. À pergunta “quem és?” eu respondi “Rtololo Trpçpc”. Não sou capaz de justificar a escolha — nem posso dizer que estava alcoolizado, até porque não bebo. Seja como for, 20 minutos depois caí em mim e mudei para o nome que os meus pais me deram.

Esta semana, em que a polémica que está a ameaçar o futuro do Facebook estalou  — a empresa Cambridge Analytica usou dados pessoais privados incluídos na rede social para a campanha de Donald Trump —, descobri que podia fazer o download de toda, mas mesmo TODA, a informação que o Facebook recolheu sobre mim durante estes anos. E isto revelou-se tão interessante quanto assustador.

Em sete dias, gastei 18h27 minutos agarrada ao telemóvel

Como verdadeiro millennial que sou, todos os meus amigos pertencem ao grupo de pessoas que estão agora a começar a vida adulta. Não é uma brincadeira minha. O Facebook juntou todos os meus contactos numa só categoria chamada “Starting Adult Life”, e de facto são poucos os meus conhecidos que já estão casados ou têm família formada.

Os meus interesses, diz-me a rede social, são sobre comida, séries de televisão e jogos. Só na última semana cliquei em mais de 30 anúncios relacionados com sushi. O dia de hoje ainda vai a meio e eu já carreguei num anúncio que dá a conhecer um novo restaurante de comida japonesa em Lisboa.

Ontem diversifiquei e cliquei num anúncio da PlayStation para me habilitar a ganhar um jogo grátis. Não há que ter vergonha de admitir isto — apesar de estar a começar a vida adulta, é sempre engraçado receber coisas à borla. Principalmente se forem jogos, que este nerd precisa de alimento.

O download do ficheiro é fácil, e isso pode ser um problema

Fazer o download de toda a informação na rede social é fácil. Basta ir às definições, selecionar o separador “Geral” e escolher a opção para descarregar uma cópia dos dados. Toda a sua vida online estará cuidadosamente organizada por pastas e poderá ver todos aqueles momentos que julgava esquecidos mas que o Facebook fez questão de guardar. Sim, até os mais embaraçosos que ficaram eternizados em fotografia ou vídeo.

Em apenas seis anos já fui mais gordo, o cabelo já esteve mais curto — quase rapado —, e a barba oscilava entre uma barba de três dias e uma coisa de maiores dimensões, geralmente mais farfalhuda e preenchida. E há provas visuais de todas estas mudanças.

No meu perfil pessoal só publiquei fotografias da minha namorada em três ocasiões específicas. No primeiro e sétimo aniversário de namoro, em 2011 e 2018 respetivamente. A publicação que foge à regra é de 2017, quando lhe tirei uma fotografia agarrada a uma gata bebé que tínhamos acabado de encontrar em Viseu. Também não tenho como explicar isto e preferia não o fazer com receio de passar a dormir no sofá daqui em diante. Mas é uma informação curiosa que nunca tinha questionado até hoje.

Dê descanso ao smartphone. Quem lhe pede é o seu corpo

Mas o Facebook não se fica por aqui. Entre 2014 e 2015 eliminei muitos dos contactos que tinha adicionado até então. Em 2017, porém, voltei a adicioná-los a todos. Talvez tenhamos feito as pazes, ou então foi o facto de o Benfica ter ganho o tetra campeonato que me fez voltar a gostar de pessoas. Mesmo daquelas que tinha apagado por serem chatas, aborrecidas e embirrantes.

Nos vários ficheiros descarregados, há um referente à informação de todas as pessoas com quem interagi até hoje. O problema é que, como todos esses contactos foram sincronizados com o meu telefone, há um cruzamento de dados e os números pessoais de cada utilizador estão visíveis. Sem filtros.

Imagine o que é alguém apoderar-se da sua conta de Facebook e extrair este ficheiro. Não só violou a sua privacidade, como ainda a de vários utilizadores com que se cruzou online durante o tempo em que utilizou a rede social.

A sua informação pertence às marcas e às grandes empresas

Mas o mais assustador é a ideia de que a minha informação está a ser partilhada com milhares de marcas todos os dias. Desde a Uber que, por estar associada à minha conta do Facebook, registou todas as viagens que fiz nos seus carros até hoje, à Google que analisa as minhas pesquisas na internet. O objetivo é o de mostrar mais e nova publicidade que vá ao encontro dos meus interesses enquanto utilizador.

Em janeiro quis comprar um leitor de discos em vinil. Como qualquer compra ponderada, arregacei as mangas para tentar encontrar o melhor produto consoante as opiniões de vários compradores.

A pesquisa não durou nem uma hora, mas isso não me impediu de ser inundado durante o mês de fevereiro pelos vários anúncios no Facebook com os melhores leitores de música. Fiz-me de teimoso e não carreguei em nenhum. Mas também não comprei nada.

Confesso que não é a forma mais eficaz de revolta contra um sistema de algoritmos invasivos. Mas é a única hipótese viável quando eliminar a conta da rede social está fora de questão.

E o pior é que mesmo depois de eliminada a nossa conta, os nossos dados não desaparecem. Não vá o diabo tecê-las e precisemos de voltar ao mundo online. Encontraremos lá tudo o que fizemos. Os nossos likes, os nossos comentários, as nossas partilhas, as nossas mensagens (desde que não tenham sido apagadas), os amigos adicionados e os eliminados e todos os nossos posts. Não conseguimos escapar ao nosso passado. O pior é se alguém descobre a minha password (o que pode não ser muito difícil). O meu passado deixa de ser só meu.

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