Apesar das polémicas, da sonoridade agressiva e dos cabelos selvagens e esvoaçantes nos concertos, o Heavy Metal continua vivo e de boa saúde. Especialmente em Portugal, onde são cada vez mais as bandas que se vão dando a conhecer. Mas o género musical já não está associado ao homem de barba rija com cara de mau. Existem mulheres no meio tão ou mais capazes de espalhar uma gentil dose de bom caos musical.

Quem o diz são as quatro vocalistas de bandas portuguesas com quem a MAGG falou, e que no dia 21 de abril encabeçam a segunda edição do festival Female Growlers United Front — uma iniciativa que junta cinco bandas da cena musical portuguesa, em que todas as vocalistas são mulheres.

Videojogos. “Nós, mulheres, somos o alvo mais fácil”

Do Rock ao Metal pesado

Beatriz Mariano é a voz principal de Okkultist, a banda de Death Metal portuguesa que participará no festival a dia 21 de abril

Nuno Cruz

Inês Freitas, vocalista da banda Burn Damage, conta que o gosto pelas vertentes mais pesadas do Heavy Metal sempre esteve presente na família. “Lá em casa sempre se ouviu boa música”, referindo-se ao irmão que, além de ouvir alguns dos grupos clássicos do Rock, seguia atentamente a cena musical do Grunge e do Heavy Metal.

Festival Female Growlers United Front

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A segunda edição do festival junta cinco bandas para uma noite de muita música. Os concertos decorrerão dia 21 de abril, no sábado, às 20h30, no RCA Club.

Os bilhetes serão colocados à venda no próprio dia. É possível efetuar a reserva através do seguinte endereço: [email protected]

Morada: Rua João Saraiva, nº 18, Lisboa

Telefone: 211 972 610

Preço: 8€

“Naturalmente, isso fez com que começasse a explorar por mim mesma estas sonoridades”, diz. Não esquece a influência que alguns desses grupos tiveram na sua formação enquanto ouvinte, apreciadora e, mais tarde, vocalista de uma banda.

“Tudo começou com os grandes clássicos do Rock, e aos 13 anos os Def Leppard eram a minha banda favorita”, diz Beatriz Mariano, vocalista dos Okkultist, que atribui aos pais um papel fundamental já que sempre a incentivaram a ouvir bandas como Pink Floyd e Deep Purple. Eventualmente, continua, o gosto foi-se expandindo para outras sonoridades.

Mafalda Hortas, dos Karbonsoul, partilha das mesmas influências mas conta também que ter estudado música clássica dos seis aos 14 anos serviu para perceber que o seu futuro passava pela música. De Bach aos sons mais extremos, foi um passo. A história de Carina Domingues, de Disthrone, é semelhante e revela que tudo começou com um álbum.

Inês Freitas é a vocalista de Burn Damage, a banda de Death Metal portuguesa que está no ativo desde 2008

Igor Ferreira

“O gosto pelas sonoridades mais pesadas surgiu na pré-adolescência com o ‘Black Album’ dos Metallica“, mas foram os Morbid Angel, o grupo norte-americano de Death Metal, que a fizeram sonhar com a ideia de um dia vir a ter uma banda.

Os únicos obstáculos são aqueles que as mulheres colocam a si mesmas

Para as quatro vocalistas não há dúvidas que em 2018 já não há lugar para ideologias conservadoras. Especialmente neste universo que, geralmente, se caracteriza pela aceitação e pela criação de uma comunidade muito diversificada de fãs.

O típico comentário ‘tive de vir falar contigo para ter a certeza que eras mulher’ já começa a perder a piada”

Sempre existiram mulheres em todos os estilos musicais, mas para Mafalda é normal que nos géneros mais mainstream, como na Pop, esta tendência seja mais notável. Muito devido ao grau de exposição a que os artistas se sujeitam. Na cena underground, onde tudo é menos conhecido e muitas vezes as bandas preenchem um nicho muito específico de fãs, é diferente.

Mas garante que “a presença do elemento feminino está bem representado em Portugal” e que isso nada tem a ver com modas ou com a necessidade de combater o machismo ou mentes mais conservadoras.

“As mulheres sempre estiveram envolvidas no Metal português, mas creio que todas as problemáticas que têm sido levantadas nos últimos tempos vieram aclarar muitas mentes”, diz Inês, que hoje acredita piamente que o género musical já não se associa ao típico estereótipo do homem com cara de poucos amigos.

Acho a comunidade portuguesa muito recetiva à presença das mulheres no Heavy Metal.

Carina vai mais longe e defende que os únicos obstáculos são aqueles que as mulheres colocam a si mesmas. “Não estou a ser politicamente correta, acredito verdadeiramente que o maior obstáculo para qualquer pessoa é a falta de segurança que a leva a dar voz aos estereótipos muito em voga na nossa sociedade.”

“Acho a comunidade portuguesa muito recetiva à presença das mulheres no Heavy Metal e pessoalmente nunca conheci qualquer caso em que alguém se recusasse a apoiar uma banda apenas por ter um elemento feminino”, continua Beatriz. Carina, no entanto, diz não ter dúvidas que continuarão sempre a existir pequenos grupos de pessoas que vão a concertos com o único objetivo de causar a desordem.

Nunca fui vítima de comportamentos bizarros e misóginos, mas o típico comentário ‘tive de vir falar contigo para ter a certeza que eras mulher’ já começa a perder a piada.” 

Mafalda relata ter a mesma experiência, e recorda alguns dos piropos que ouvia no momento de subir ao palco. Mas garante que nunca sentiu que alguma das abordagens tivessem ultrapassado os limites do respeito.

Carina Domingues é a frontwoman de Disthrone, a banda de Seixal formada em 2011

Hugo Rebelo

Enquanto vocalistas das respetivas bandas, as quatro mulheres dizem acreditar que o público que vai aos seus concertos o faz porque aprecia o projeto e o tipo de sonoridade que criam, mas admitem não pensar muito nisso.

Carina vive bem com a ideia de que existam pessoas a assistir aos seus concertos só porque é mulher, mas diz não lhe fazer diferença, e que o que mais lhe dá prazer é subir ao palco e desfrutar do momento.

“Não estou, nem nunca vou estar no Heavy Metal para agradar. Mas para quem gosta muito de mim só porque sou mulher recomendo que comprem os discos. Estão lá fotos minhas”, remata.

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