São espécies em via de extinção, mas existem. Numa altura em que as mulheres adiam cada vez mais a maternidade em prol do crescimento e consolidação da carreira, e em que a idade média para ser mãe está quase nos 32 anos, segundo um estudo do INE, ter um filho com 20 anos é raro. Mas estas histórias existem.

A realidade das mães depois dos 40, as suas vantagens ou dificuldades, já conhecemos. E a realidade de uma mãe jovem mas não adolescente? Onde ficam os planos e os sonhos? É possível vivê-los mesmo com um filho aos 20 anos?

Luz Soares da Cunha garante que sim. “Engravidei com 19 anos em junho de 2005, quando em setembro ia entrar para a faculdade. Chorei desalmadamente. Achei que ia ter que parar completamente a minha vida, mas não. Fui na mesma para a faculdade nessa altura. Estudei ao som do Noddy, mas acabei o curso.”

Não pôde fazer Erasmus, como as amigas, porque era incapaz de ficar sem o filho Martim durante pelo menos seis meses. Mas terá sido a única coisa que abdicou ao longo desses anos. “Levava o Martim para todo o lado, inclusive para a faculdade. Era o meu porta-chaves. Quando tinha exames, ele ficava com colegas minhas ou até seguranças, da minha confiança. Tinha que ser prática.”, conta à MAGG.

Luz Soares da Cunha e Martim, com 22 e 3 anos

Numa idade em que se quer viajar, sair à noite, jantar com as amigas, jovens como a Luz têm que dar prioridade a outras coisas. Passam de meninas a mulheres de forma pouco natural, forçada e nada planeada.

Situação pela qual Érica Pinto também passou. Foi mãe aos 21 anos, sem ter planeado, e também ela conseguiu frequentar a faculdade e terminar o curso apesar da gravidez e do nascimento prematuro de Maria Inês, às 24 semanas. Tinha apenas 700 gramas.

“Além de toda a surpresa da gravidez, ainda tive um parto prematuro e a minha filha ficou internada três meses. Acho que o que me ajudou a passar por essa fase complicada foi a minha imaturidade. A idade fez-me ter sempre um pensamento positivo e estar mais relaxada do que alguma vez estaria se fosse mais velha e mais consciente da situação.”

Essa ingenuidade, característica da idade, acaba também por vezes por se virar contra estas mães. Luz Soares da Cunha conta que “a maior dificuldade no facto de ser mãe tão nova é ter as outras pessoas a olharem para nós com pena e como se fossemos incapazes de cuidar dos nossos filhos, porque também nós somos crianças. Mas ao mesmo tempo, não temos direito de errar.”

Érica Pinto também sentiu essa pressão social, principalmente no infantário e da parte das outras mães. “Olhavam para mim como quem pensa ‘como é que é possível ser mãe tão nova? Com tanta informação, é preciso ser ignorante.’”

Érica Pinto e a filha Maria Inês, com 21 anos e 9 meses

Qual a diferença entre uma mãe mais nova e uma mais velha no que diz respeito às crianças e ao seu desenvolvimento?

Carlota Veiga Macedo, Interna de Pediatria no Hospital D. Estefânia, acredita que a maior diferença está no estado de espírito de cada uma.

“Pelo que vejo nas minhas consultas, as mães mais novas são mais descontraídas, menos informadas e mais seguras. Enquanto que as mães mais velhas, nos 30 ou 40, são mais racionais, fazem mais perguntas e seguem mais à risca os nossos conselhos.”

Mãe aos 18, 23 e 36 anos, Carlota Veiga Macedo tem além da experiência profissional, a pessoal, que a leva a perceber que as crianças são o que veem em casa. “Se a criança tem uma mãe mais descontraída, é automaticamente mais descontraído, tal como se a mãe for mais ansiosa e preocupada, o filho vai ser mais preocupado também, independentemente da idade. São o nosso reflexo.”

A experiência de Susana Cunha enquanto Educadora de Infância e Coordenadora Pedagógica do Infantário Nossa Senhora da Purificação, em Lisboa, mostra que também as mães mais novas têm os seus momentos de ansiedade. “Não acho que uma mãe mais nova seja menos capaz do que uma mãe mais velha, nem que isso se note no desenvolvimento de uma criança. A única diferença que noto é que as mães de 20 anos são mais ansiosas e no momento de deixar a criança na escola, muitas vezes transmitem essa ansiedade para os filhos. Isso pode fazer com que a criança na escola seja menos auto-confiante, tenha mais medo de arriscar. Mas ao mesmo tempo, é mais fácil convencer uma mãe de 20 anos a confiar em nós do que uma de 40.”

E idade da mãe pode ser um problema para a criança?

Luz Soares da Cunha partilha com a MAGG uma situação que prova que sim. “Eu fazia anos e fui buscar o Martim à escola. Quando cheguei, deu-me os parabéns e automaticamente perguntou: ‘A mãe agora já não é a mãe mais nova da escola, pois não?’. Isso preocupava-o e tinha apenas quatro anos. Além disso, ainda havia os pais e crianças que se referiam a nós como irmãos e não como mãe e filho.”

Ser madrasta. A luta contra o rótulo de bruxa má

Quando se passa por uma gravidez tão jovem, quem fica e quem vai?

Há uma seleção natural, segundo Érica Pinto. “Houve pessoas mais próximas que se afastaram, só porque eu já não podia sair tanto à noite ou fazer outros programas, outras que ficaram e que até se aproximaram mais, para me ajudar. Passa-se por várias desilusões neste processo. Mas a verdade é que o conforto está na família. Principalmente nos pais, e os meus ajudaram-me incansavelmente.”

Há amigos que vão, amigos que ficam e relações que chegam ao fim. Como no caso de Luz Soares da Cunha, que dois anos depois do Martim nascer, terminou a relação. “Separei-me com 22 anos e fiquei com medo. Tão nova e com um filho, achei que nunca mais ia ter um namorado. Achei que seria impossível alguém me aceitar com um filho. Mas acabei por perceber que não é assim.”

Érica Pinto não sentiu esse medo, nem perdeu muito tempo a pensar nessa questão e acabou por encontrar uma pessoa, quando a filha tinha um ano, que aceitou as suas condições e a relação dura até hoje. “Disse-lhe logo no início. Queres estar comigo, tens que estar com a minha filha, que vai comigo para todo o lado.”

Hoje, o Martim tem 13 anos e a mãe 33. Uma diferença de idades tão curta que os torna tão próximos. “Ele desabafa comigo, pede-me conselhos sobre as miúdas. Só não gosta muito que eu também tenha Instagram e que o controle, porque acabo por ter os skills tecnológicos dos mais novos, que as mães mais velhas não têm. E também é capaz de não gostar quando um dia nos encontrarmos numa discoteca, que é possível que aconteça”, afirma Luz Soares da Cunha.

Foi essa proximidade que fez com que Catarina Santos quisesse ser mãe tão nova. Engravidou aos 20 e teve a Catarina aos 21. Foi uma gravidez planeada, porque acreditava que no início dos 20 as pessoas têm mais paciência e educam de outra forma.

“Com essa idade a paciência é outra e criam-se mais regras. Com 40 anos, é mais fácil ser-se mais tolerante e criar filhos mais mimados”. A forma e a rapidez com que o corpo da mulher volta ao que era são motivos mais que suficientes para Catarina aconselhar todas as mulheres a serem mães novas. Facto que Carlota Veiga Macedo também salienta.

“Fisiologicamente e fisicamente, é muito melhor ser mãe mais cedo. Há geralmente menos problemas na gravidez, as crianças tendem a ser mais saudáveis e o corpo da mulher recupera mais rapidamente.”

Catarina Santos com a filha Catarina, com 42 e 21 anos

Apesar das dificuldades, das contrariedades e dos julgamentos, as três mães veem agora que tudo correu bem, que ainda têm muito tempo pela frente para apostar nas suas carreiras e afirmam que se pudessem voltar atrás, fariam tudo igual.