Do António passou para o Bruno. Do Bruno para o João. Do João para o Rui e do Rui para o Pedro. Entre cada relacionamento, não houve tempo de luto. Na verdade, não houve tempo para nada. A auto-estima estava destruída por uma adolescência difícil, repleta de comportamentos de risco e de más companhias. A infância, pensa hoje, talvez não tenha sido a melhor. Nunca lhe faltou nada, mas cresceu entre dois irmãos, um dos quais, o mais novo, doente. O pai, por força do trabalho, passava muito tempo fora. Chorava muito na escola e vivia aterrorizada com medo de não ser aceite pelos colegas.

Em sete anos, Marta (nome fictício) teve quatro relacionamentos e nenhum intervalo entre cada um. O problema não está no tempo ou na quantidade, mas antes nos comportamentos. Viveu-os como se estivesse num casamento. A morada oficial continuava a ser a sua, mas passava a maior parte do tempo na casa do namorado. Aquele amor era a sua prioridade e ninguém era tão importante. Transformava-se neles: ouvia as canções que eles ouviam, gostava sempre dos programas que propunham, adorava o novo círculo social em que se ia inserindo. A sua vida anulava-se: afastava-se dos amigos e da família. Todos os planos tinham de ser a dois. Nos dias em que não se viam, ela sentia-se perdida, não por ter saudades, mas pela insegurança. E era bem capaz de o manifestar através de mensagens ou de telefonemas, com choro ou gritos. “Achava que já não gostava de mim. Achava que já estava farto”, conta à MAGG.

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Mas assim que a paixão típica do primeiro ano se esgotava — porque esgota sempre — Marta começava, “inconscientemente” à procura de novas emoções fortes, o que várias vezes resultou em traições com aquele que viria a ser o seu futuro namorado. As relações, conclui agora, são a sua “tábua de salvação”. Usa-as para sentir, mas também para “não ter de olhar para dentro” e não ter de “refletir nos problemas.”

Custou-me muito, mas terminei porque percebi que não estava a respeitar o meu espaço, que não estava a cumprir com a minha palavra, que a minha dependência de relações estava, outra vez, a dominar o meu comportamento e que, possivelmente, iria magoar outra pessoa”

Quando terminou com o Pedro, prometeu que ia ficar um ano sozinha. Uma semana depois, já tinha tido uma relação fugaz. E depois desta, vieram outras: “De repente estava solteira — o que já não me acontecia há muito tempo, porque estava sempre a saltar de relação em relação — e meti na cabeça que tinha o direito de me divertir”, diz. “O problema é que era sempre eu a fugir de mim própria e, por mais que dissesse que não, no fundo, sei que estava à procura de uma nova companhia.”

Três meses depois, a história repetia-se com outra pessoa, mas não durou tanto. Negava um novo relacionamento, mas tudo indicava que era isso que estava a acontecer. Desta vez, durou menos: “Reconheci o meu padrão e vi o que é que estava a fazer. Custou-me muito, mas terminei porque percebi que não estava a respeitar o meu espaço, que não estava a cumprir com a minha palavra, que a minha dependência de relações estava, outra vez, a dominar o meu comportamento e que, possivelmente, iria magoar outra pessoa.”

“Por um lado pensava, isto é normal, as relações são assim mesmo. Mas, por outro, sentia que não, porque me anulava perante a relação, começava a viver a vida do outro e a sentir-me insegura quando ia cada um para seu lado”, conta. “É difícil discernir quando se trata de uma dependência ou quando é a vida a seguir o seu rumo, apesar de todos à minha volta repetirem: ‘tens de estar sozinha.’”

A dependência em relações é real?

As relações com os outros marcam o desenvolvimento do ser humano e é o que lhe permite crescer. Este processo inicia-se quando ainda somos bebés: “Construímo-nos enquanto pessoas a partir da vivência de dependência”, diz à MAGG a psicóloga Beatriz Matoso. “O bebé humano começa por depender, e durante muito tempo, dos cuidados dos pais ou de alguém que os substitua, para poder sobreviver do ponto de vista físico e emocional. Ele necessita de alimento e abrigo mas também de envolvimento afetivo que gera os sentimentos de carinho e proteção.”

Nem sempre é fácil identificar o problema porque todos somos, mais ou menos, dependentes daquilo que construímos com o outro. Num contexto amoroso, “não existe uma verdadeira relação sem uma mútua dependência, a qual decorre da atração pelas qualidades do companheiro, respeito pelas suas escolhas, admiração pelos seus ideais, realizações e corresponsabilidade na procura de um bem-estar comum.”

A personalidade dependente é um distúrbio de personalidade reconhecido, tal como o é a personalidade borderline, também caracterizada por relações de co-dependência”

Mas os extremos nunca são bons. Somos seres sociais que precisam de se sentir integrados e preenchidos do ponto de vista afetivo. Porém, como refere a psicóloga Filipa Jardim da Silva, “a forma como o fazemos é que diferenciará um funcionamento saudável de um funcionamento mais desadaptativo.”

Quando a dependência é superior ao amor ou à amizade, quando não há espaço para “duas individualidades numa relação”, quando a “idolatração pelos outros esmaga o valor próprio” e quando o “‘eu’ tem pouca ou nenhuma voz”, então estão reunidos os indicadores de alerta.

Sim, o problema da dependência em relações é real e existe mesmo. “A personalidade dependente é um distúrbio de personalidade reconhecido, tal como o é a personalidade borderline, também caracterizada por relações de co-dependência”, diz Filipa Jardim Silva. “Ambas revelam padrões problemáticos que levam muitos adultos a procurar apoio psicológico.”

O problema é estrutural e faz-se de um conjunto de características que refletem baixa auto-estima e insegurança. “Todos nós temos um conjunto de traços pessoais que se organizam e geram o que designamos de personalidade. Por vezes, estes traços podem tornar-se inflexíveis e desadaptativos, gerando repercussões negativas para o próprio.”

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Segundo a mesma especialista, evolui-se para uma “estrutura de personalidade dependente” quando há, de forma permanente, “uma forte necessidade em sentir-se protegido, cuidado e próximo do outro”, o que poderá resultar numa “quase incapacidade de estar só e a funcionar de forma autónoma.”

A busca pelo companheiro é incessante. Quando se encontra, há uma grande idealização e anulação pessoal: “As necessidades e desejos do outro passam a imperar sobre as próprias”, diz Filipa Jardim da Silva. Quem passa por isto, poderá não estar alienado da realidade, uma vez que “muitas vezes existe a consciência de que seria importante e saudável ser mais independente.” No entanto, “surge um medo bloqueante, alimentado pela crença de que autonomia significa risco de abandono”, que se reflete na “co-dependência dos outros, com perpetuação de relações, muitas vezes insatisfatórias.”

Outro indicador é a assimetria que se denota nestas relações: um dos elementos admira profundamente o outro e anula-se em prol da continuidade da ligação”

Entre os sintomas desta dependência estão também a transgressão de “valores pessoais” e a “quebra de limites de respeito e individualidade.” Há ainda um desequilíbrio de tempos “na nossa companhia com tempos na companhia dos outros”, uma vez que “o conceito de solidão é absolutamente assustador e sinónimo de abandono e vulnerabilidade”. Daqui surge a procura incansável da companhia permanente do companheiro.

“Outro indicador é a assimetria que se denota nestas relações: um dos elementos admira profundamente o outro e anula-se em prol da continuidade da ligação”, diz. Pode não haver “capacidade de expressar desacordo ou de dialogar de igual para igual; na tentativa de evitar conflitos, há uma permanente cedência.”

Destaca-se ainda a dificuldade em tomar decisões sozinha, que cria uma busca constante por segundas opiniões e conselhos, sinal de desvalorização do próprio, face aos outros que o rodeiam.

Poderá o problema nascer connosco?

O problema não nasce connosco, mas pode muito bem crescer. A nossa personalidade define-se na infância. Determinado contexto pode fazer com que uma criança desenvolva uma auto-estima vulnerável, com um “desejo de ser aceite, protegido e amado pelo outro”, diz Filipa Jardim da Silva. “Os adultos com este padrão de funcionamento podem ter sido crianças com relações precoces pautadas por insegurança, em que o mundo foi percepcionado como um lugar insatisfatório e/ou perigoso, crescendo o desejo de poder ser diferente um dia.”

“Tenho verificado na minha clínica que as faltas vivenciadas a nível das relações primárias, tendem a repercutir-se no vínculo amoroso, através de uma dependência patológica”, revela Beatriz Matoso.

A baixa auto-estima tem na sua matriz traumas, mais ou menos flagrantes. Pode relacionar-se com maus-tratos psicológicos e/ou físicos, como no caso de famílias onde há violência doméstica ou alcoolismo. Mas também pode nascer noutro tipo de contexto, sem que haja sequer consciência de que isso interfere com a vida presente.

Projeta nos outros as suas necessidades. Só que não é o outro que pode resolver os seus problemas”

A psicóloga Beatriz Matoso diz que as características de quem se mostra dependente surgem, quase sempre “com faltas vividas a nível das relações primárias na infância”. São falhas que “ficam e que são marcas de dor que as crianças vão acumulando”, e que as fazem sentir que “não têm encantos.”

“Tornam-se pessoas inseguras as crianças que não puderam viver uma relação harmoniosa e confortável com os pais, isto é, quando estes, não foram capazes de compreender e satisfazer as suas necessidades básicas físicas e emocionais”, diz.”Tal acontece porque muitas vezes os pais não têm consciência de que estão a cometer erros e tendem a orientar-se na relação com os filhos, tomando por modelos de parentalidade os próprios pais, os quais imitam ou rejeitam, procedendo, nestes casos, de modo oposto”, acrescenta.

É comum que, na relação amorosa, o indivíduo não tenha consciência destes traumas da infância. Idealiza o outro como um príncipe ou princesa encantado”, mas “no fundo, o que a pessoa procura é o pai ou a mãe”, diz Beatriz Matoso. “Projeta nos outros as suas necessidades. Só que não é o outro que pode resolver os seus problemas.”

A (in)capacidade para se construirem relações sólidas

Procuram no outro o escape à solidão, porque não querem encarar o vazio que já vem lá de trás. Mas “quando uma pessoa se sente reduzida face ao que é, pode gerar-se uma raiva muito grande. E esse mal estar também afeta os que são mais próximos, sobretudo o parceiro”, diz Beatriz Matoso. “Por outro lado, ao sentir-se diminuída também se coloca numa posição em que encara o outro como uma tábua de salvação, que tem quase a responsabilidade de a salvar”, acrescenta.

O principal risco está relacionado com a capacidade de construir relações sólidas e saudáveis. De acordo com as duas psicólogas, é mesmo verdade: antes de gostarmos dos outros, temos de gostar de nós.

Para Filipa Jardim Silva, é crucial investir na “diferenciação” de modo a que nos apropriemos de “quem somos”. Temos de gostar da nossa própria companhia. De outra forma, dificilmente conseguiremos “ter a capacidade de nos ligar ao outro de forma saudável e satisfatória”, afetando, negativamente todas as relações, a nível familiar, social, amoroso e até profissional.

Beatriz Matoso refere que “projetar no companheiro ou companheira a capacidade de colmatar as falhas profundas das relações primárias é cair num erro que acarreta, com o tempo, a deterioração do vínculo conjugal.”

É uma dependência como as outras?

O vício em relações já foi comparado ao alcoolismo ou dependência em drogas. Filipa Jardim da Silva explica que isto acontece “no sentido em que a procura obsessiva por uma ligação ao outro se torna disfuncional e interfere negativamente em todas as dimensões da vida da pessoa, gerando uma auto-destruição.”

A cura pode ser dura. É um processo longo e que implica um grande trabalho de reflexão e auto-conhecimento. Tanto Beatriz Matoso como Filipa Jardim da Silva indicam que o acompanhamento é crucial.

“É preciso ter coragem para fazer uma psicoterapia a sério”, diz Beatriz Matoso. “Nestes casos só um processo de tratamento e cura, através de uma psicanálise ou de uma psicoterapia de casal pode resolver este tipo de sofrimento.”

Como refere a mesma psicóloga, “identificar e transformar estas faltas é essencial para o bem-estar do indivíduo e na perspetiva de poder vir a construir uma relação amorosa saudável.”

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Filipa Jardim da Silva diz que esta intervenção será aquela capaz de “gerar a mudança afetiva a nível de pensamentos, gestão de emoções e comportamentos, podendo trabalhar-se vivências traumáticas do passado, que permitam a quebra de ciclos de funcionamento disfuncional.” São, no entanto, mecanismos com décadas de existência, que moldam a forma como olhamos para o mundo. Questionar essa visão “é um exercício que requer muita coragem”, acrescenta.

Quem sofre com este problema, tenderá a resistir. Não mudamos de comportamento da noite para o dia. Mas este é um trabalho necessário. Bem feito e duradouro, “possibilita a mudança dos padrões de funcionamento base”, diz Filipa Jardim da Silva. E poderá abrir as portas a relacionamentos felizes, com duas vozes.