“As Casas Mais Extraordinárias do Mundo”. Há dois arquitetos portugueses nesta série da Netflix

A Casa Ktima foi projetada por Camilo Rebelo e Susana Martins e é uma das estrelas de “As Casas Mais Extraordinárias do Mundo”.

Foi a 5 de março que a Netflix adicionou mais uma série ao catálogo. Falamos de “As Casas Mais Extraordinárias do Mundo”, uma produção da BBC apresentada pelo arquiteto Piers Taylor e pela atriz Caroline Quentin. Com um total de quatro episódios, cada um deles dedica-se a um cenário diferente: montanha, floresta, costa e debaixo de terra.

“As Casas Mais Extraordinárias do Mundo”

Sinopse: O arquiteto Piers Taylor e a atriz Caroline Quentin viajam pelo mundo à procura de casas nada convencionais em lugares incríveis.
Género: Documentário
Elenco: Piers Taylor e Caroline Quentin
Episódios: 4
Duração: 59 minutos cada

É precisamente no último episódio que aparece a Casa Ktima, um projeto dos arquitetos portugueses Camilo Rebelo e Susana Martins. Situada na ilha grega de Antiparos, a construção tem 950 metros quadrados de área útil e uma particularidade que a torna única: 90% da casa está enterrada.

“O nosso primeiro cliente foi um promotor grego que nos pediu para pensamos em três casas para a ilha de Antiparos”, explica à MAGG o arquiteto Camilo Rebelo, 45 anos, que detém o gabinete Camilo Rebelo Arquitetos. Susana Martins, 44, não tem um espaço próprio, mas trabalha frequentemente com Camilo Rebelo em projetos de arquitetura.

Estávamos em abril de 2007. Os nomes de Camilo Rebelo e Susana Martins foram recomendados pelo famoso estúdio de arquitetura Herzog & de Meuron, com quem o portuense tinha trabalhado anteriormente. Entre outros projetos, o gabinete suíço foi responsável pelo Estádio Olímpico de Pequim, Tate Modern e estádio Allianz Arena. Quando lhes pediram recomendações de jovens arquitetos para construir na Grécia, o Herzog & de Meuron sugeriu o nome dos dois portugueses.

Eram para ser três projetos na ilha. Com a crise económica de 2008, porém, dois ficaram pelo caminho — mas um terceiro foi comprado por um casal indiano que vive no Reino Unido e se apaixonou pela paisagem.

“O casal gostou do desenho da primeira casa, no entanto, como pensavam em ter filhos, 300 metros quadrados era insuficiente. Perguntaram-nos se podíamos aumentar para 700, mas o projeto era para uma casa em linha reta. Era impossível.”

Naquele momento, Camilo Rebelo e Susana Martins tiveram de começar do zero. E os desafios eram vários: construir uma casa com mil metros quadrados nunca é fácil, construir uma casa com mil metros quadrados numa paisagem protegida é um verdadeiro desafio.

Para tornar tudo ainda mais complicado, o promotor pediu especificamente que “a casa não podia ver nem ser vista”. Ou seja, nem eles queriam ver outras casas e pessoas nem as outras pessoas poderiam ver para dentro da casa. Tendo em conta que a propriedade fica na zona meio-baixo do vale, os requisitos começavam a tocar perto do limiar do impossível.

Ou talvez não. No final das contas, Camilo Rebelo e Susana Martins encontraram uma resposta para todos os desafios: “Decidimos enterrar 90% da casa. Quem a vê do lado do monte, que é de onde se chega, vê uma linha branca quebrada; para quem a vê do mar parece uma aldeia grega com sete volumes.”

A Casa Ktima tem uma sala de estar, sala de jantar, cozinha, seis quartos, uma sala para os miúdos brincarem, lavandaria, escritório, sauna e muitos terraços, entre outras áreas. Foi a primeira vez que Camilo Rebelo e Susana Martins construíram uma habitação debaixo de terra. Apesar do desafio que representava escavar um monte, Camilo Rebelo não teve receio.

“Para inserirmos o Museu de Arte e Arqueologia do Vale do Côa na paisagem, eu e o Tiago Pimentel tivemos de tirar o equivalente a quatro pisos do monte. Nós éramos miúdos, tínhamos 30 anos. Quando dois miúdos têm de raspar um monte para construir um museu… E no caso do Côa a paisagem é protegida e classificada. Uma pessoa só tem medo uma vez. Temos o máximo de respeito pela paisagem, mas medo só sentimos uma vez.”

Escavar um monte é geologicamente mais agressivo, mas na opinião de Camilo Rebelo, é também mais ecológico e sustentável. Isto porque uma casa debaixo de terra é naturalmente muito mais fresca — sete a oito graus mais fresca, na verdade. Além disso, é toda ventilada: “Torna-se num abrigo como se fosse uma caverna.”

“É das casas mais gregas que alguma vez conheci”

O projeto da Casa Ktima, que em grego significa herdade ou pedaço de terra fértil, demorou cerca de um ano a ser elaborado. “O casal tinha uma enorme preocupação com a luz, a vivência no exterior, a água — perguntaram-nos se nós víamos a água como um elemento essencial à casa.” A resposta foi sim, e foi precisamente por isso que a piscina foi colocada no meio da casa — foi uma forma de dizer que é a água que nos une.

“Inspirámo-nos num anfiteatro grego. Insere-se numa topografia — ao contrário do romano que é fechado, o grego é aberto.”

A cultura grega está presente em toda a parte, desde os terraços até aos muros das casas, sem esquecer as diagonais. Nas cidadelas gregas as pessoas descem de terraço para terraço, entre edifícios com diagonais muito acentuadas. “Nós introduzimos isso no projeto. A arquitetura grega inspirou-nos em tudo.”

A segunda temporada de “As Casas Mais Extraordinárias do Mundo” começa em Portugal

Cascais, Penela, Muda e Gerês foram as estrelas do primeiro episódio da segunda temporada de “As Casas Mais Extraordinárias do Mundo”, que estreou a 28 de fevereiro na BBC Two. Para já ainda não se sabe quando é que chega à Netflix.

As obras começaram em 2010 e só terminaram em 2012. Camilo Rebelo e Susana Martins contaram com o apoio do arquiteto local Dionysis Zacharias, mas de mês e meio em mês e meio estavam em Antiparos para acompanhar o desenvolvimento das obras. Isto tudo apesar de não ser particularmente fácil chegar à ilha.

“É preciso apanhar três aviões — Porto-Frankfurt, Frankfurt-Atenas e Atenas-Paros, e depois um barco para Antiparos. São cerca de 24 horas.”

A Casa Ktima tem como vizinhos um casal de atores famosos. Quando ela, de nacionalidade grega, visitou a casa, não conseguiu deixar de dizer a Susana Martins: “É das casas mais gregas que alguma vez conheci”. O arquiteto e apresentador Piers Taylor disse-lhes o mesmo.

A chamada da BBC e a gravação do documentário

Camilo Rebelo não fazia a menor ideia de que um dia estaria na Netflix. Em janeiro ou fevereiro de 2016, foi da BBC que recebeu uma chamada a informá-lo que tinham escolhido a Casa Ktima como uma das mais maravilhosas do mundo. As gravações aconteceram no final de maio desse ano.

“Eles estiveram cinco dias a filmar e nós estivemos dois dias a acompanhar. Fiquei impressionado. Já fiz outras produções, mas nunca tinha visto uma equipa tão dedicada.”

As gravações aconteceram debaixo de um sol abrasador, às vezes com muito vento. No total, a equipa tinha nove pessoas. “Usaram drones, câmaras com tecnologia muito sofisticada. Merecem todo o nosso respeito, foram muito cuidadosos.”

Camilo Rebelo e Susana Martins viajaram de propósito para Antiparos para ser entrevistados para a série. E tiveram como bónus a possibilidade de ficar lá a dormir: “Já tinha almoçado e jantado com os clientes na casa, mas foi a primeira vez que fiquei lá a dormir”, ri-se.

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