Nick Park, o homem do stop motion e do barro apresentou “A Idade da Pedra”: “Sou um ingénuo”

O realizador britânico conta à MAGG que não procura a perfeição mas sim a autenticidade. O seu novo filme traz-nos Dug e a sua tribo.

Nick Park arrecadou 4 Óscares da Academia e é considerado um dos grandes impulsionadores do stop motion no cinema

Tiago Soares/NOS Audiovisuais

A história passa-se na Roma Antiga e acompanha Maximus (Russell Crowe), um general romano que depois de ser traído e ver a família assassinada pelo filho do imperador, regressa a Roma enquanto lutador para se vingar de todos os envolvidos no massacre.“Gladiador” foi um sucesso de bilheteiras em 2000 e 18 anos depois continua a servir de inspiração para muitos realizadores.

Quem o diz é Nick Park, realizador de “A Fuga das Galinhas” e “A Ovelha Choné”, com quem a MAGG conversou a propósito do seu mais recente projeto chamado “A Idade da Pedra”, que estreou a 8 de março em Portugal.

“Um dos grandes receios que tive na concepção deste projeto foi o medo de não conseguir captar a emoção que um jogo de futebol desperta no público”, revela Nick, que viu em “Gladiador” o exemplo perfeito de como focar a atenção para a plateia e para a mistura de sensações perante o espetáculo a que está assistir.

Figuras de barro articuláveis, cenários coloridos em miniatura, mais de 200 fantoches, e uma história que junta homens das cavernas da Idade da Pedra num jogo de futebol pela sobrevivência contra os invasores da Idade do Bronze — não se preocupe: aqui nada é tão sério e dramático como em o “Gladiador”.

Muito pelo contrário, há boa disposição e momentos de diversão para toda a família.

Os homens da caverna inventam o futebol

Produzido exclusivamente em stop motion, o filme acompanha a tribo de Dug que se vê em apuros com a chegada dos invasores da Idade do Bronze. Com equipamentos e armas sofisticadas, raptam os homens das cavernas e levam-nos para longe do vale onde viviam.

Dug, um rapaz ingénuo e otimista, desafia os invasores para um jogo de futebol na condição de serem libertados se ganharem. O problema? Dug e a tribo não sabem jogar, apesar de terem inventando uma espécie muito básica de futebol com um pedaço de asteróide redondo que tinha colidido com a Terra.

Para um filme de stop motion, são usados vários cenários em miniatura para as filmagens

Tiago Soares/NOS Audiovisuais

“É a típica personagem que está sempre a cair mas nunca desiste de se levantar de novo. Além de acreditar que a tribo é capaz de caçar animais maiores, ainda desafia os invasores para um jogo de futebol, apesar de saber que não será uma tarefa fácil”, diz o criador de Wallace e Gromit, que não nega que Dug seja um reflexo de si mesmo.

“Considero-me ingénuo e otimista, e acho que é isso que torna as minhas personagens tão reais: a facilidade com que nos relacionamos com elas.”

Contudo, o realizador conta à MAGG que não gosta de pensar no tipo de público que pode ou não assistir aos filmes, precisamente porque prefere que estes sejam transversais a todo o tipo de idades. “A certa altura estamos cientes que o filme pode estar com um tom mais leve ou mais pesado, mas não é algo que controlemos exaustivamente”, continua, dizendo que é isso que os torna mais apelativos e, em certa medida, reais.

Stop motion, figuras de barro e a autenticidade que trazem

Num mundo cada vez dominado pelo avanço das novas tecnologias, Nick deseja manter-se igual a ele mesmo e não fugir do stop motion e das figuras de barro que caracterizam grande parte do seu trabalho. As figuras, que começam como simples sketches e depois ganham vida e movimento através do barro, são utilizadas na filmagem frame a frame o que, diz o realizador, é um processo lento e aborrecido — por dia conseguem-se entre 2 a 3 segundos de filmagem, apenas.

“Apesar disso, estar numa sala de edição e ver tudo aquilo que desenhei ganhar vida é uma das sensações mais incríveis para um realizador de stop motion”, continua, sublinhando que a autenticidade da arte é o que o mantém sempre na procura de novas ideias.

"A Idade da Pedra" contou com mais de 200 fantoches, cuidadosamente manipulados consoante as cenas

Tiago Soares/NOS Audiovisuais

“Não sei se com CGI ou computação gráfica seria possível atingir o mesmo nível de expressividade que conseguimos com o barro, e é por isso que não faço questão de procurar a perfeição em nada do que faça”, e adianta que muitas vezes incentiva os animadores a não limpar as impressões digitais dos bonecos, ou a pentear os cabelos das personagens, geralmente em pelo. São materiais reais que reagem ao toque. É natural que não estejam sempre perfeitos. E Nick prefere assim.

“No fundo, sinto-me um homem do barro, e gosto de mexer nas figuras, brincar com as sobrancelhas delas de forma a transmitir sensações consoante a cena, ou meter os braços em posições diferentes entre frames… não sei se com CGI seria a mesma coisa.”

“A Idade da Pedra” e o poder da personagem feminina

Quando o Dug e companhia se veem em apuros por serem maus jogadores de futebol, encontram Goona. Uma destemida mulher da Idade do Bronze que é fã assumida do desporto e joga melhor que ninguém. Ela acaba por ajudar as personagens principais, treinando-as e ensinando-lhes todo o que têm de saber para conseguir derrotar os invasores.

“Apesar de o filme ter sido filmado muito antes do movimento #metoo, pareceu-nos natural ter uma personagem feminina forte e assertiva, até porque é para esse futuro que caminhamos, um que seja mais inclusivo e menos discriminatório”, aplaudindo o surgimento do movimento contra a discriminação entre géneros, ainda que lamente os casos de assédio que têm vindo a ser noticiados.

“Toda a gente merece respeito e estas coisas têm de ser ditas, algum dia a bolha teria de rebentar”, defende Nick que espera que “A Idade da Pedra” e a personagem de Goona seja também um reflexo dos tempos modernos, em que a desigualdade de género deve ser combatida e refutada.

Nick Park, realizador britânico e vencedor de 4 Óscares da Academia, acabou a promoção do filme em Portugal a 10 de março, na 18ª edição do festival MONSTRA. À MAGG, diz que depois de um projeto tão grande como este, o desejo é o “de voltar a algo mais pequeno, de preferência com três personagens”, mas que ainda é cedo para pensar em novas aventuras.

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