Entrevista. “Sou contra o uso de telemóveis nas escolas”

Lamberto Maffei é autor de "Elogio da Lentidão", onde recorda que o cérebro precisa de pensar devagar.

"Se privar um jovem, e até alguém menos jovem, do seu computador ou smartphone, ele fica preso. O instrumento tornou-se parte da forma como ele pensa"

Poucas pessoas entenderão o cérebro melhor do que Lamberto Maffei. Aos 81 anos, o médico e cientista italiano escreveu livros sobre o cérebro, publicou mais de 280 trabalhos em revistas científicas, contribuiu para o diagnóstico precoce de doenças do sistema nervoso e estudou formas de reativar a plasticidade do cérebro. A par disso, esteve à frente das instituições mais importantes de Itália na sua área e recebeu inúmeros prémios e distinções na área da medicina.

"Elogio da Lentidão", de Lamberto Maffei

Data de lançamento: 28 de fevereiro
Editor: Edições 70
Preço: 14,90€
Páginas: 132

A propósito de “Elogio da Lentidão“, que chegou a Portugal a 28 de fevereiro, a MAGG conversou com Lamberto Maffei para perceber porque é que é importante pensar devagar — e de que forma as novas tecnologias estão a transformar-nos, enquanto pessoas e enquanto sociedade.

“Como preâmbulo às minhas respostas, gostaria de realçar isto: o meu pequeno livro é um paradoxo. Num mundo dominado pela velocidade e pelas maravilhas da tecnologia digital, estou a defender a máquina lenta do cérebro, uma batalha provavelmente perdida à partida.”

As novas tecnologias estão a mudar a forma como pensamos?

Como neurofisiológico, posso dizer que qualquer estímulo, especialmente se for repetido, vai modificar o cérebro. Quando eu digo que mudei de ideias sobre alguma coisa, isso significa que mudei o meu cérebro. Portanto, a minha resposta é sim. Novos estímulos tecnológicos vão ser muito importantes na influência do nosso modo de pensar e de planear o futuro. A instrumentação digital está a gerar uma cultura digital. Cultura é pensamento. E pensamento é obviamente cérebro.

Então já não conseguimos viver sem tecnologias?

Se privar um jovem, e até alguém menos jovem, do seu computador ou smartphone, ele fica preso. O instrumento tornou-se parte da forma como ele pensa.

Como?

É pura fisiologia. Qualquer estímulo, particularmente repetido, influencia o funcionamento do cérebro. Se mudarmos o estímulo, digamos a informação, o cérebro muda. Não é possível escapar às regras da fisiologia. Os mecanismos são bem conhecidos e estão relacionados com a plasticidade cerebral, isto é, a capacidade do sistema nervoso para mudar a sua estrutura e funcionamento na sequência de estímulos ambientais. A plasticidade é muito alta nos jovens — eles aprendem muito rápido, e aprender significa, obviamente, mudar a estrutura e funcionamento do cérebro.

Em "Elogio da Lentidão", o médico e cientista italiano fala sobre a necessidade de pensar mais devagar.

Precisamos mesmo de um processo mental lento?

O cérebro é uma máquina lenta, sobretudo se compararmos com a velocidade dos instrumentos digitais, que são pelo menos um milhão de vezes mais rápidos. Deixe-me dar-lhe um exemplo do quão devagar trabalha o cérebro humano: quando viaja num comboio de alta velocidade, não consegue ler o nome de todas as estações. Isto acontece porque o cérebro visual é uma máquina lenta.

Isso significa que um processo mental rápido pode trazer problemas?

O pensamento lento tal como o Nobel da Economia, Daniel Kahneman, o descreveu, significa avaliar vários fatores antes de decidir, de modo a evitar problemas. Usar o lado racional do cérebro, portanto. Decidir sem pensar, avaliar, etc., significa decidir por instinto, da mesma forma como os animais — e correr o risco de cometer erros. Ter uma resposta rápida na era primitiva era essencial para sobreviver. Na civilização atual, é necessário pensar racionalmente, o que implica um processo mental lento.

Mas um processo mental lento nos tempos que correm não é fácil.

Hoje em dia estamos sempre a correr, e na maioria das vezes é correr por correr sem tirar tempo para ouvir, para discutir. As pessoas gostam de falar mas não de ouvir, porque ouvir implica tempo — e também humanidade.

Ainda assim, não é ótimo conseguirmos ler ou fazer contas muito depressa?

É ótimo, mas na vida normal, sem considerar os casos patológicos, isso significa muito treino, como os matemáticos têm, associado a certas propriedades do cérebro.

Lamberto Maffei tem 81 anos e um currículo invejável.

Os processos mentais rápidos podem trazer consequências a longo prazo?

A globalização é (ou também é) uma consequência da instrumentação digital, bem como da rapidez e facilidade da comunicação internacional. A cultura digital e a globalização, associadas ao aumento da esperança média de vida, mudou a clássica família europeia. As pessoas velhas e reformadas deparam-se com dificuldades de comunicação. Na sequência da velocidade da vida moderna, os jovens têm interesses e até uma linguagem diferente, e/ou porque estão a toda a hora a usar o smartphone e não têm tempo para falar com os avós. Além disso, as pessoas mais velhas têm dificuldade em usar os instrumentos digitais, que estão sempre a mudar.

Estamos a criar uma sociedade que não tem espaço para os idosos, portanto.

Uma consequência da sociedade moderna é relegá-los para a solidão. Eles não falam muito e não participam ativamente na vida da família. Em muitos casos, são deixados sozinhos. A solidão é certamente negativa para a saúde do cérebro e pode acelerar o risco de demência, uma vez que ele precisa de estímulos fisiológicos.

Um jovem com os seus instrumentos digitais sozinho num quarto está a comunicar com várias pessoas do mundo. Paradoxalmente, apesar de estar a comunicar com tanta gente, está sozinho.”

Estão as tecnologias digitais a criar relações mais fracas? 

A resposta é de certa forma fácil porque é fácil ver que há modificações nas relações sociais, e que estas são uma consequência direta do mundo digital. Há consequências positivas, pela rapidez e facilidade de comunicação. Mas, na minha opinião, também há consequências negativas que resumiria no perigo de perdermos a interação e solidariedade humanas.

Estamos a conectar-nos menos, então?

Quero sublinhar ainda a perda do toque. Os recetores do toque são muito importantes e uma forma fundamental de comunicar tanto a informação como a emoção. Um jovem com os seus instrumentos digitais sozinho num quarto está a comunicar com várias pessoas do mundo. Paradoxalmente, apesar de estar a comunicar com tanta gente, está sozinho. O mundo digital é particularmente sério nas suas consequências para os idosos, uma vez que eles não estão familiarizados com os novos instrumentos, não podem falar com os seus filhos e netos. Eles perdem contacto, e um cérebro sem contacto, sem estímulo, corre o risco de afetar as funções nervosas e às vezes isto pode influenciar a aceleração da demência. O problema para os idosos no presente e ainda mais no futuro é e será tornarem-se num problema económico, social e também neurológico.

Os idosos usam mais o processo mental lento?

Eles têm uma cultura geral diferente e, devido à sua faixa etária, não sentem necessidade de andar sempre a correr de um lado para o outro. Na verdade, eles gostam de discutir e conhecer pessoas quando é possível, por isso a resposta é sim. Deve ser tido em conta ainda assim que um cérebro velho tem um declínio fisiológico.

Hoje em dia temos bebés a usar smartphones como se fosse uma coisa normal. Como é que isto pode afetar os seus cérebros?

Se for um brinquedo, não vejo qualquer perigo, mas se for em preparação para usar o smartphone na escola, acho que é um problema que deve ser avaliado. Sou contra o uso de telemóveis nas escolas. Os jovens devem obviamente apreender o instrumento e cultura digitais, mas num laboratório escolar onde usem esses instrumentos apenas lá dentro e não possam comunicar com o exterior.

Estamos em risco de perder a nossa humanidade com o processo mental rápido?

Já discuti este problema e a minha resposta é que esse perigo é uma possibilidade. Tocar num ecrã não é comunicação humana. Não é uma boa e recompensadora mensagem para o cérebro. No mundo digital toda a gente anda a correr, para aonde e porquê não sabemos. Há tempo para falar, enviar mensagens, pensar sobre talk-shows da televisão, mas não há tempo para ouvir, comparar opiniões. Há de um modo geral uma ausência de interesse pelas outras pessoas.

Isto também afeta as relações amorosas?

Relações privadas, e até relações amorosas, são muito afetadas e tendem a tornar-se precárias e transitórias. Além disso, o instrumento pode tornar-se numa forma de vida social na qual os jovens são dependentes como de uma droga, como se tivessem uma doença ou uma limitação da liberdade.

Como é que podemos estimular o processo mental lento?

Insisto que a definição de processo mental lento é pensar racionalmente. A única possibilidade é a escola aumentar o número de disciplinas humanas e tornar-se naquilo que eu refiro como uma escola da palavra. Os alunos devem ser convidados a falar, a discutir, de modo a tornarem-se cidadãos ativos em vez de sujeitos passivos.

Uma última palavra?

Gostaria de terminar com um apelo aos jovens, de forma a conseguir a sua colaboração para mudar este mundo em que o pensamento e decisões rápidas estão a gerar em termos económicos, políticos e de comportamento humano, uma espécie de retrocesso em direção à vida animal. Vou usar as palavras de Santo Agostinho: “A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação ensina-nos a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las.”

Partilhe
Fale connosco
Se encontrou algum erro ou incorreção no artigo, alerte-nos. Muito obrigado. martamiranda@magg.pt