Entrevista. “Somos o que a nossa mãe comeu”

Renata Bagarolli está em Portugal para dar um curso de nutrição funcional na gravidez e pediatria. A MAGG conversou com a especialista.

A nutricionista fala sobre os nutrientes, os alimentos, o leite materno e as restrições alimentares em grávidas

Stephanie Rausser

Renata Bagarolli aterrou há poucas horas em Lisboa, vinda do Brasil. A nutricionista e especialista em Nutrição Funcional chega a Portugal com sala esgotada para curso que vai orientar sobre Nutrição Funcional na Gravidez e na Pediatria em Lisboa este fim de semana, 10 e 11 de março.

Convicta de que “mais do que aquilo que comemos, somos o que a nossa mãe comeu”, Renata Bagarolli defende uma dieta personalizada e cuidada na gravidez, porque a saúde do bebé forma-se no útero da mãe.

Os maiores erros no período de gestação, a importância de uma dieta individualizada, as consequências das tendências da nutrição no curso de uma gravidez e o impacto de alguns regimes com restrições na saúde de um bebé (dentro e fora do útero) foram alguns dos temas sobre os quais a MAGG conversou com a especialista.

A nutrição não deveria ser sempre funcional?

A nutrição funcional surge para individualizar as recomendações. Há padrões e dietas, mas todos os indivíduos são diferentes. Uma dieta que é feita para todos não se enquadra a todos. A nutrição funcional traz-nos este olhar, que é importante principalmente para as pessoas que não funcionam como a maioria, porque permite criar condutas individualizadas. Do meu ponto de vista, a alimentação deveria ser sempre assim: cuidadosa, personalizada, individualizada. Mas muitas vezes não encontramos isto na visão mais tradicional.

Qual é o maior benefício dos portugueses face a outros países?

O acesso ao peixe de grande qualidade — que no Brasil não temos tanto, a não ser no litoral. É um alimento fundamental e de que vou falar durante este fim de semana no workshop. É rico em ómega 3 e iodo, muito importantes para os bebés e crianças em fase escolar.

Com experiência clínica em biologia molecular, Renata Bagarolli é mestre e doutorada em fisiopatologia médica

Guilherme Gongra

Em que medida é que a alimentação da mãe pode influenciar o desenvolvimento do filho para o resto da vida?

A forma como somos concebidos pode determinar o que vamos ser como adultos. Diz-se que somos o que comemos, mas acho que, mais do que isso, somos o que a nossa mãe comeu. Num contexto de programação metabólica ou do desenvolvimento, sabemos que tudo o que ela faz na fase de gestação pode determinar os riscos de desenvolvimento de doenças ou de um bebé saudável. Deparo-me com muitas grávidas que por estarem assim, e engordarem naturalmente, acham que podem comer o que quiserem. É ao contrário: temos de cuidar muito mais a nossa alimentação porque estamos a gerar uma vida nova. Consoante as nossas escolhas, pode ter muito mais probabilidade para ser obesa ou ter uma boa composição corporal, para ter uma saúde cardiovascular forte ou com riscos. Vários estudos já comprovaram que a saúde é influenciada pela vida intra-uterina.

A alimentação deveria ser sempre assim: cuidadosa, personalizada, individualizada. Mas muitas vezes não encontramos isto na visão mais tradicional.

Que carências alimentares de uma grávida são perigosas para a saúde do bebé?

Principalmente o ómega 3, importante para o desenvolvimento neurológico, o iodo, para o QI. O ferro é fundamental porque sintetiza a hemoglobina, que fornece oxigénio para o bebé. A proteína também é importante para o desenvolvimento do bebé, que tem massa muscular e órgãos que dependem deste nutriente. O cálcio e o magnésio também porque estão ligados à formação da massa óssea. E o ácido fólico, ligado à divisão e formação celular do bebé. As carências destes alimentos podem gerar deformações graves.

A folha verde escura é muito boa porque tem cálcio, magnésio, ferro e ácido fólico. O ómega 3 está na linhaça, na chia, na gema de ovo ou no peixe, que também é rico em iodo, também presente nos produtos lácteos. Também é importante ir buscar o ferro a leguminosas e carnes.

Porque é que se diz que o leite materno é o melhor alimento do mundo para os bebés?

O leite materno é único. Tem várias coisas que ainda não conseguiram ser sintetizadas, como os oligossacarídeos, um probiótico fundamental para as bactérias boas do intestino e sistema imunitário. Isto nunca foi sintetizado. As imunoglobulinas também melhoram a imunidade, algo que o leite em fórmula também não possui. É um leite muito rico em gordura, necessário para melhorar o desenvolvimento do cérebro. E um aporte de vitaminas e sais minerais. Tem muitas características que nenhum outro alimento terá.

As vantagens da amamentação também se sentem na mãe: o emagrecimento pode ser mais rápido, diminui-se o risco de uma nova gestação nesta fase e é benéfico para o útero. A educação e formação para a amamentação é fundamental para que as mães não desistam. São muitas vezes mal-orientadas. É muito importante saber pegar no bebé, porque ajuda a aliviar a dor, causa que leva muitas mães a desistirem.

Mas há opções equilibradas para as mães que não conseguem ou decidem não amamentar.

Do ponto de vista nutricional — pensando no equilíbrio dos macro e mícrontrientes — houve um grande estudo para que as fórmulas infantis tentassem aproximar-se o máximo possível do leite materno. Existem opções sim, consoante o tipo de bebé também e as suas características.

Risco de infecção do trato respiratório e do trato gástrico intestinal (diarreias), de alergia são as principais consequências a curto prazo. Vários estudos já vieram a demonstrar isso. A longo prazo é a obesidade. O bebé que se alimenta de leite materno tem um risco inferior de desenvolver este problema no futuro.

Quais é que são os mitos mais recorrentes na alimentação das gravidas?

Dizerem que o leite é fraco. Dizem-me que, quando dão de mamar, o bebé está sempre a acordar e a ter fome e que com a fórmula não. Grande mito: o leite nunca é fraco e é sempre adequado. O erro está nos intervalos e tempos em que se dá de mamar. Muitas futuras mães também apostam em chás e ervas com supostas vantagens, sem evidência científica, para a produção do leite. Isto até pode ser um risco para os dois. O que faz a diferença é uma boa hidratação e uma alimentação saudável.

E quais é que considera serem os erros mais frequentes na alimentação de uma grávida?

É a questão de acharem que estão numa fase da vida em que podem comer tudo o que querem por estarem grávidas. Exageram em alimentos sem valor nutricional, como a farinha branca e o açúcar. E esquecem-se dos alimentos nutritivos que vão ajudar na formação do bebé. Acabam por engordar mais do que o suposto. É fundamental haver formação neste sentido. O tempo em que está no útero é a fase mais importante da vida daquele ser humano e portanto a mãe deve comer da forma mais saudável possível.

O leite materno é único. Tem várias coisas que ainda não conseguiram ser sintetizadas.

Devemos incutir um regime alimentar específico a uma criança desde o nascimento, como é o caso dos vegan?

É uma fase da vida em que é difícil ter esse tipo de dieta. Hoje há exames e suplementos para minimizar, mas pela natureza o ideal é que a mãe coma carne e o bebe também. O regime vegan pode levantar questões no período de gestação, pela carência de vitamina b12, de ferro e devido ao aporte proteico que pode ser menor. Quando é assim, é preciso haver um cuidado muito grande e um padrão de suplementação mais intenso para que não falte não falte nada à mãe, ao bebé e até ao leite.

O ser humano, do ponto de vista do seu desenvolvimento, sempre comeu carne desde o seu nascimento. Um bebé que seja vegan corre riscos sobretudo pela carência do ferro. A partir dos seis meses a necessidade deste micronutriente aumenta muito. A quantidade e biodisponibilidade nos alimentos de origem vegetal não é a mesma. Portanto, caso a mãe decida não introduzir alimentos animais na dieta do bebé, é preciso fazer uma suplementação de ferro cuidada. Soma-se a isto o facto de os vegetais não serem muito calóricos e de a criança precisar desta energia para crescer. Depois há também o perigo da carência da vitamina B12 que pode gerar problemas neurológicos, do sistema nervoso perfilérico, relacionado com os movimentos, e central.

O regime vegan pode levantar questões no período de gestação, pela carência de vitamina b12, de ferro e devido ao aporte proteico que pode ser menor.

A proteína é a menos grave: pode ser obtida, por exemplo, através de leguminosas e grãos. No leite materno mantém o mesmo padrão. Vemos isto pelos diferentes países: no Japão, onde comem muitos alimentos de origem marinha, há muito ómega 3 no leite. Em Inglaterra já é menor. Mas a proteína não varia de pais em pais. Neste contexto não será um problema.

Também já há bebés paleo. Há “tendências” mais aconselhadas do que outras?

A dieta paleo, baseada na era pré-histórica, tem a carne, mas pode ter outras deficiências. É preciso avaliar sempre. O ideal é individualizar. O segredo de uma gestação é não seguir uma alimentação padrão. É seguir um profissional de dieta materna e infantil, para ter um regime equilibrado, balanceado, que é tão importante para a vida do bebé.

Com a moda da nutrição, é possível que se esteja a complicar demasiado a alimentação das gravidas e dos bebés?

É. Falámos das mães que acham que podem comer tudo, mas também há muitas mães querem continuar a fazer dietas low-carb, mesmo na gravidez. Eu digo sempre que têm de comer mais hidratos de carbono e elas ficam apavoradas porque acham que vão engordar muito. Este macronutriente é importante porque o bebé também depende da glicose para crescer e desenvolver-se.

Não podemos fazer cardápios da moda e temos de apostar num perfil adequado de proteína, gordura e hidratos. Há dietas em que se conseguem corpos perfeitos em termos de composição, mas que numa gestação não fazem sentido. Temos de mudar a forma como comemos, tendo em conta que estamos a desenvolver um novo ser. Os conceitos de nutrição saudável têm de se sobrepor a estas tendências. Nenhuma dieta radical é boa, porque é pouco personalizada. Em circunstância nenhuma, mas sobretudo aqui porque há a responsabilização por uma nova vida.

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