A mais poderosa de Hollywood

Escreverei especialmente para as mulheres. Gosto delas, respeito-as, acho que têm pouca representação e poder real. Serei mais um aliado.

Kathleen Kennedy criou uma plataforma que junta agentes, sindicatos, estúdios e artistas para mudar a cultura dominante de Hollywood

Quando o Ricardo Martins Pereira, criador da MAGG, me convidou para assinar esta coluna, fiquei muito sensibilizado, e aceitei de imediato, porque ele tem um lastro de projectos de qualidade que dão tranquilidade para quem começa a colaborar com ele.

A partir de hoje, escreverei especialmente para as mulheres. Eu gosto delas, respeito-as, acho que ainda têm pouca representação e poder real, apesar de uma crescente afirmação. Eu, muito singelamente, com a minha escrita serei mais um aliado nesse combate.

Tinha várias notas tiradas para esta minha estreia, mas começarei por um mundo onde tudo parece glamouroso, brilhante de verniz, reluzente de lantejoulas, sorridente para as fotografias, mas, como se veio a conhecer, vivia no sofrimento calado de muitos anos de abusos e violentados silêncios.

Esta semana tivemos os Óscares. Dos cinco candidatos a melhor realizador, só uma mulher: Greta Gerwig. E no ranking dos actores que mais ganharam dinheiro em 2017, Mark Wahlberg liderou com 68 milhões, enquanto a mais bem paga foi Emma Stone com 26 milhões, portanto se alguém mais ingénuo pensava que havia igualdade, esqueçam-na. Ali, continuam a mandar os homens.

O macho dominante ganhou um rosto. Harvey Weinstein foi a besta negra que suscitou a denúncia de várias actrizes, mas outros vieram atrás. Na sequência dos abusos e assédio sexual que caíram na boca do mundo, as mulheres, e os homens de bem, de Hollywood revoltaram-se.

Já muitos ouviram falar de Kathleen Kennedy. Não é uma estrela como Jennifer Lawrence, Nicole Kidman, Meryl Streep, no entanto, é, provavelmente, a mulher mais poderosa da cidade do cinema. Produtora de algumas das sagas mais rentáveis de sempre: Star Wars, Jurassic Park, Indiana Jones.

Companheira de projectos de Steven Spielberg e do seu marido Frank Marshall, em 2012, depois da Walt Disney ter adquirido a Lucasfilm ao pai dos Jedis e de Darth Vader, George Lucas, por 4 mil milhões de dólares, convidou-a para presidente.

Esta mulher que tem um palmarés recheado de conquistas, prémios, e ainda por cima é milionária, podia estar sossegada na sua redoma dourada. Mas não, decidiu criar uma plataforma que junta agentes, sindicatos, estúdios e artistas para mudar a cultura dominante de Hollywood.

Tolerância zero para comportamentos abusivos moram na sua cartilha e foi clara como a água no seu desígnio: «os predadores dar-se-ão conta que não podem seguir escudando-se no seu poder, no seu dinheiro ou na sua fama». As coisas vão mudar por ali, estou convicto disso.

Em 2018, e no futuro, como sempre deveria ter sido, culturalmente e socialmente, será vil e repugnante o assédio sexual e a violência contra as mulheres. É com estes exemplos de coragem e de apoio a quem sofreu — e continua a sofrer no mundo inteiro em profissões com menos luzes da ribalta que possibilitam apenas a sobrevivência de muitas famílias — que se constrói também a lenda de Hollywood, não apenas com passeios da fama. E estes monstros, como exclamava contra o fascismo outra grande mulher, a La Pasionaria, Dolores Ibárruri, «no pasáran».

PS: o autor escreve segundo a antiga ortografia

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