Há um hotel na Bósnia que foi um campo de tortura — e continua aberto

O governo nega os crimes, a população ignora e os sobreviventes da guerra revoltam-se contra as constantes tentativas de ocultar a história.

O hotel fica na vila de Višegrad, na Bósnia. Foi aqui que foram cometidos alguns do crimes de guerra mais sangrentos da História

David Gill/The Observer

É um dos hotéis mais procurados por turistas na Bósnia, mas quase ninguém sabe do seu passado negro. Durante a guerra da Bósnia, que decorreu entre 1992 e 1995, o Vilina Vlas Hotel serviu como campo de tortura e violação em massa por parte das forças paramilitares sérvias. Situado em Višegrad, a pouco mais de 100 quilómetros de Saravejo e bem perto da fronteira com a Sérvia, foram muitas as atrocidades ali praticadas.

Apesar de tudo, continua aberto. Dirigentes e autarcas negam os acontecimentos, e há mesmo tentativas de ocultar aquilo que aconteceu. Três mil pessoas morreram, mas ninguém quer contar a sua história.

O passado negro do Vilina Vlas

Ainda que os colchões dos quartos tenham sido mudados e as paredes pintadas de novo, toda a estrutura do hotel mantém-se intacta. O chão é o mesmo que, em 1992, tinha sangue entranhado nos azulejos de mármore. A piscina, uma das maiores atrações do hotel, era o local escolhido para as inúmeras execuções levadas a cabo por Milan Lukić. O líder do grupo White Eagles erradicou toda a população muçulmana da vila Višegrad, num genocídio sem precedentes na região.

A história do hotel ficou conhecida quando em 2011, Kym Vercoe, uma turista australiana decidiu visitar a Bósnia. Nos vários roteiros a que teve acesso, o hotel Vilinas Vlas surgia sempre recomendado pela facilidade de acesso e estâncias termais, que ainda hoje são duas das características mais importantes do espaço.

Meses depois, e já de regresso a casa, em Sidney, Kym viria a descobrir a verdade numa breve pesquisa pela Internet. “Quando encontrei a página de Wikipedia referente ao Vilina Vlas, a primeira coisa que li foi que o hotel tinha servido como campo de tortura e violação durante a guerra”, conta ao “DailyMail”.

O choque veio de imediato. “Os guias turísticos nunca nos informaram do passado do hotel e da forma como era utilizado”, revela Kym, que diz sentir-se revoltada pela maneira como se tenta branquear um período da História em que foram executados a sangue frio três mil prisioneiros e cerca de 200 mulheres violadas. Algumas com apenas 14 anos. A revolta fê-la juntar-se à realizadora Jasmila Zbanic para a realização de um documentário que procuraria tornar públicos os eventos em redor da região, e a forma como vários membros do governo se empenhavam em esconder os factos.

Lançado em 2013, “For Those Who Can Tell No Tales” veio mostrar a ambas as mulheres que a experiência ali retratada não era única.

“Numa conversa com um realizador francês, contou-me que tinha estado na Bósnia a filmar um novo filme e que numa das cidades havia uma energia muito negativa que o deixava desconfortável sempre que tinha de lá voltar”, revela Jasmila ao “DailyMail”, e diz não ter ficado surpreendida quando o realizador identificou a cidade como sendo Višegrad.

As mulheres eram violadas e torturadas durante horas e horas

Ao “Balkan Insight”, uma das sobreviventes da guerra da Bósnia revelou em 2007 todos os momentos que viveu enquanto prisioneira do grupo de Lukić. A mulher, que pediu à publicação para não ser identificada, contou que tudo começou quando as forças paramilitares a encontraram escondida na floresta com o filho.

“Fui violada por Milan, o líder do grupo, que depois de pegar nas facas que guardava me perguntou qual era a mais afiada. Escolhi uma e foi a que ele usou para matar o meu filho. Depois disso violou-me outra vez.”

A história desta mulher é arrepiante. “Violaram-me, mataram o meu filho e levaram-me para o Vilina Vlas Hotel”. Muitas vezes ficava lá durante um dia. Às vezes mais. Entre o caminho do hotel para casa, era muitas vezes violada pelos vários membros do grupo paramilitar. “Davam-nos pedaços de pão que tínhamos de apanhar com a boca, queimavam-nos, cortavam-nos e violavam-nos.”

Bakira Hasečić é uma das sobreviventes e fundadora da Associação de Mulheres Vítimas de Guerra

David Gill/The Observer

Bakira Hasečić é também uma das sobreviventes que decide quebrar o silêncio. Enquanto fundadora da Associação das Mulheres Vítimas de Guerra, procura encontrar sobreviventes um pouco por toda a região para oferecer o apoio psicológico que merecem mas que, por terem sido esquecidas pelos vários governos, nunca tiveram.

Bakira não esquece o horror quando, há 26 anos, tudo mudou. “Com uma faca, exigiu que me despisse e assim o fiz”, continua, embora não seja capaz de contar os detalhes em redor da violação.

Ainda assim, não tem dúvidas que relatar a sua experiência é a melhor arma que tem. “Como posso ajudar as restantes sobreviventes que, tal como eu, sofreram horrores imagináveis, se não conseguir falar sobre o que vivi?”, pergunta Bakira, que ainda hoje não entende como é possível que para tantas pessoas da Bósnia estas mulheres não existam.

“Quando ouvem os nossos testemunhos, é mais fácil assumir que não são reais ou que não passam de propaganda muçulmana e dissidente”.

O branqueamento histórico — das autoridades à população

O velho ditado popular que diz que depois da tempestade vem a bonança parece não se aplicar aqui. Para muitos dos sobreviventes da guerra, a tempestade nunca terminou. Se em 1991 existiam mais de 23 mil pessoas a viver em Višegrad, hoje o número de cidadãos equivale a menos de metade — uma consequência direta do genocídio étnico de 1992.

Ao “The Guardian”, Nerma Jelacic, vice-diretora da Comissão Internacional de Justiça, diz que a agressividade com que as autoridades negam os factos levou a que novas gerações de cidadãos fossem educadas a ignorar a herança cultural que lhes pertence.

“Há uma negação do inegável — os sobreviventes sentem-se neglicenciados porque os horrores de que foram alvos nunca são reconhecidos, o que contribui para o trauma estrutural que os aflige.” À mesma publicação, Mladen Djurevic, presidente da câmara de Višegrad, diz não ter interesse em discutir ou reconhecer o passado da região, naquela que se revela ser uma atitude transversal a várias organizações ou membros de altos cargos na autarquia.

O monumento em homenagem das vítimas do genocídio foi vandalizado pelo próprio governo, numa tentativa de esconder os factos

David Gill/The Observer

Numa altura em que os meios de comunicação celebram sem pudor o genocídio de 1992, catalogando-o como “heroísmo sérvio” face a uma “etnia invasora e destrutora”, são os sobreviventes que tentam chamar a atenção para as atrocidades que assolaram a região durante três anos.

Exemplo disso é o monumento erguido em homenagem às demasiadas vítimas assassinadas durante a guerra. Numa tentativa de esconder a realidade, o governo ordenou que a palavra “genocídio” fosse retirada da pedra — os sobreviventes responderam pintando-a de novo em tons carregados de negro.

O hotel continua aberto apesar da contestação

A petição para que Vilina Vlas fosse demolido não avançou, e o governo local preferiu investir milhões na reestruturação das estradas de acesso ao hotel e na criação de um novo lobbie de luxo para os hóspedes.

“Não faz sentido demolir o hotel mas sim inovar e expandir”, diz Djuveric, apoiado na convicção plena de que viver agarrado ao passado foi sempre o primeiro impedimento à superação e ao sucesso. Já Nebojša Krlić, vice-diretor do hotel, nega que alguma vez o hotel tenha servido como palco para crimes de guerra, e garante que aos seus hóspedes só interessa a “qualidade do serviço prestado”, que os distingue da restante oferta no mercado.

No TripAdvisor as opiniões dividem-se, em parte porque muitos dos hóspedes desconhecem a crua realidade do hotel

No TripAdvisor as opiniões dividem-se. Embora existam utilizadores a incentivar a estadia, há também uma minoria vocal que se insurge contra o hotel e contra aquilo que representa.

Um utilizador, de nome Gold48, escreveu, em agosto do ano passado, que é impossível dormir no Vilina Vlas, não só devido ao aspeto conservador e nada atrativo que apresenta “mas também ao passado histórico que carrega, em que serviu como campo de tortura de prisioneiros e violação de mulheres durante a guerra.” Já o utilizador Pafrelma, em 2013, classificou o local com um dos mais importantes pontos de interesse para “compreender a divisão e o ódio que caracteriza a região das Balcãs.”

Muitos hóspedes desconhecem a crua realidade em redor do hotel. “Anos depois de ter visitado a Bósnia, surpreende-me que as mentalidades não tenham mudado”, diz Kym ao “DailyMail”, e admite não saber o que possa ser feito para mudar a realidade, num contexto político e social muito específico em que é feito um esforço enorme para apagar o passado.

“Até haver uma mudança significativa, os hóspedes continuarão a dormir no hotel que outrora protagonizou um dos ataques mais sangrentos de toda a história sérvia.”

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