“É exótico. É instagramável. Hoje é mais trendy uma tapioca com óleo de coco do que pão com azeite, apesar de os benefícios estarem do lado deste último.”

Dizer que o óleo de coco é a gordura mais saudável é perpetuar um boato, que já vai longe. Chegou aos blogues, aos livros de receitas e aos gabinetes de muitos nutricionistas que o recomendam. A história começa de duas formas. Primeiro, lá longe, na Polinésia, Filipinas, Sri Lanka, Kitava ou algumas zonas da Índia, onde esta é a gordura mais utilizada. As populações destes países têm bons indicadores de saúde, como a baixa prevalência de doenças cardiovasculares ou hipercolesteroemia (aumento da concentração de colesterol no sangue). E há quem atribua ao óleo de coco os louros para estes bons números.

Mas na base do perfil saudável destes habitantes estão factos bem mais relevantes. “Têm uma alimentação bastante rica em fibra (pelo consumo de fruta e legumes), baixa em alimentos açucarados e carnes processadas e rica em peixe, já para não falar do estilo de vida antagonicamente diferente do ocidental”, explica Pedro Carvalho, nutricionista e autor da citação com que abrimos este artigo. “Seria mais correcto dizer que estas populações apresentam estes indicadores, apesar da existência de óleo de coco na sua dieta e não devido a ele”, acrescenta o professor da Universidade Católica Portuguesa e Instituto Superior da Maia.

A outra história remonta a 2003, e começa com um estudo realizado por uma investigadora canadiana da Columbia University. “O óleo de coco tem uns ácidos gordos de cadeia média interessantes, mas só fazem parte da sua constituição em 13%. Uma investigadora isolou esses ácidos e concentrou-os num só produto. O resultado do estudo mostrou resultados benéficos”, relata à MAGG o investigador e professor da Faculdade de Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto, Vitor Hugo Teixeira.

O problema é que, como diz, “uma orquestra é muito mais do que 20 violinos”. Ou seja, as vantagens destes ácidos gordos concentrados não vão estar presentes no óleo de coco porque, primeiro, a quantidade é pouca e, depois, porque existem outros constituintes neste produto. Mas o zunzum ignorou estes dois princípios, ganhou força e perdeu o controlo. De tal forma que a mesma investigadora, em 2017, “sentiu necessidade de estudar o óleo de coco só para mostrar os benefícios que ele não tinha.”

“Hoje são as modas que ditam os planos alimentares”

Qual é o problema do óleo de coco?

O óleo de coco não é um demónio, mas também não é a melhor gordura do mundo. Não há prova de perigos, mas também não há estudos conclusivos para suportar todos os benefícios que se apontam ao óleo de coco.

Há quem associe o óleo de coco a uma perda de gordura corporal mais acelerada, pela presença destes “ácidos gordos de cadeia média interessantes” que podem ajudar aumentar o gasto calórico e a reduzir o apetite. Mas, mais uma vez, surge a questão da proporção: a sua presença no óleo de coco não tem força suficiente para surtir estes efeitos. Quem consome esta gordura em excesso poderá ver o reverso da medalha porque a gordura tem calorias: “Pode aumentar os níveis de massa gorda, porque, sendo uma gordura, terá as mesmas nove calorias por grama”, diz Pedro Carvalho, autor do livro “Os Mitos que Comemos”. “As pessoas que tomam o óleo de coco à espera de emagrecer podem acabar por engordar.”

O óleo de coco tem um total de 85% de gordura saturada. E, apesar de nem todos os ácidos gordos deste tipo serem iguais — e de já não terem uma conotação tão negativa, face há uns anos —  a verdade é que “o seu consumo elevado continua a não ser recomendado”, diz Vitor Hugo Teixeira.

Mas há mais informações contraditórias e confusas. Há quem afirme que este óleo é benéfico para a redução do colesterol mau (o LDL) e aumento do colesterol bom (o HDL). Mas ainda não há provas suficientes para sustentar os benefícios ou malefícios deste produto. Pedro Carvalho explica que “os sete ensaios clínicos que compararam directamente o óleo de coco com gorduras predominantemente mono e polinsaturadas verificaram que que em todos eles, o óleo de coco aumentou o colesterol total”, diz. “Em seis desses sete aumentou o colesterol mau e em 5 desses sete aumentou também o bom.”

Para Pedro Carvalho, a maior vantagem é ser “uma gordura estável para cozinhar”, pela presença de muitos ácidos gordos saturados mais resistentes à oxidação e polimerização (referente à alteração das moléculas). Contudo, isto apenas acontece se a gordura for usada apenas uma vez. Como explica,“a sua utilização contínua em fritura de imersão, por exemplo, pode levar à produção de compostos potencialmente carcinogénicos, uma vez que tem um ponto de fumo baixo”, ou seja uma temperatura propícia à formação destes compostos.”

Qual é, então, a melhor gordura?

O nutricionista, e cronista do jornal “Público”, não hesita: o azeite é a melhor opção. É rico em “ácidos gordos monoinsaturados”, tem “mais compostos antioxidantes, anti-inflamatórios e vitamina E, daí estar  associado à redução do risco cardiovascular, algo a que o óleo de coco não está.” Além disso, também tem “resistência térmica”, o que faz com que, a temperaturas altas, “a sua degradação seja menor.” No entanto, deixa o alerta: “Fritar, seja com que gordura for, é sempre o pior dos métodos de confeção.”

E termina: “Um bom slogan para o óleo de coco podia ser: melhor que manteiga, mas ainda muito longe do azeite.”