Há qualquer coisa de muito especial num abraço. Se estamos tristes, abatidos ou simplesmente a precisar de carinho, sentir o toque do outro faz-nos sentir bem. Felizes. Reconfortados. A explicação vai muito além da psicologia: o grande responsável por esta sensação de bem-estar chama-se oxitocina, uma hormona que também leva as mães a sacrificarem a vida dos filhos e pode ajudar no craving (desejo intenso por um estupefaciente).

Se tem um filho, é provável que já tenha ouvido falar nela: a oxitocina é utilizada frequentemente para induzir o parto quando este não acontece no tempo previsto, bem como para ajudar na amamentação. Também há quem o conheça como a “hormona do amor”, uma vez que é libertada durante o ato sexual e o beijo.

Só que a sua importância vai ainda mais além — e é a própria comunidade científica a reconhecê-lo, com cada vez mais estudos sobre o assunto. Nos últimos anos, descobriu-se que tem também um papel crucial enquanto regulador do comportamento social.

“Através de uma mistura de estudos realizados em ratos e humanos, a oxitocina parece ser promissora em contrariar o stress, a ansiedade, o apetite e os hábitos de ‘craving’ na toxicodependência”, explica à MAGG Diana Prata, investigadora principal no Instituto de Medicina Molecular (IMM) da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

E não se fica por aqui. A oxitocina também pode promover a socialização, “por exemplo em termos da redução de aversão por pessoas estranhas, como aumento da confiança, empatia, e robustez de laços afetivos.”

Oxitina. Toxina. Oxitiucina. Como é que se chama mesmo?

Já vamos falar melhor sobre os efeitos desta hormona no nosso corpo. Antes disso, importa perceber do que é que estamos a falar exatamente. O nome correto é oxitocina (toxina é outra coisa) e, de acordo com a ciência, é um neuropeptídeo composto por nove aminoácidos.

A descoberta aconteceu com o farmacologista inglês Henry H. Dale, que em 1909 descobriu que esta hormona levava à contração do útero em gatas grávidas. Dois anos depois, a oxitocina estava a ser utilizada por médicos para induzir o parto de pacientes. Mais tarde viria a ser associado à amamentação, à regulação do comportamento social e até à monogamia.

Os sinais que o corpo nos dá quando o amor acabou

A oxitocina está em dois sítios: no sangue (para chegar ao útero, às glândulas mamárias e orgãos sexuais, principalmente) e no cérebro (neuromodulador que influência a atividade de várias áreas, em particular as correspondentes ao sistema de recompensa, saliência e emoção).

Apesar de estar muito associada às mulheres, a oxitocina também está presente nos homens. Ainda assim, os níveis basais, no sangue, são mais elevados nas mulheres. “E dependem também da fase do ciclo menstrual.”

No caso deles, a oxitocina é muitas vezes bloqueada pela ação da testosterona. Ainda assim, ela torna os homens menos agressivos, mais amáveis e generosos.

10 formas de a oxitocina atuar no nosso corpo

1. Ajuda no parto e na amamentação

“Já se sabe há um século que a oxitocina tem um papel crucial no parto e na amamentação (atuando como uma hormona), e desde então é administrada com esses fins.”

Utilizada na sua forma sintética, a oxitocina estimula as contrações do colo do útero de forma ritmada, provocando assim o trabalho de parto. No caso da amamentação, quando o bebé suga o mamilo gera-se a libertação de oxitocina, que por sua vez vai estimular a produção de prolactina.

A prolactina ajuda na produção do leite, a oxitocina contrai as células em torno das glândulas, ajudando desta forma o leite a sair pelas glândulas mamárias. Na sua forma artificial, a oxitocina é geralmente administrada em spray e ajuda tanto na amamentação como no bombeamento.

2. Contribui para a (boa) relação com os filhos

Estudos feitos em animais, nomeadamente ratos e ovelhas, comprovam-no: quando eram administrados bloqueadores do recetores de oxitocina, as fêmeas deixavam de ter um comportamento maternal com as suas crias. Pelo contrário, quando recebiam oxitocina tinham um comportamento mais maternal com as suas crias, e até com crias que não eram suas.

“Nos humanos, além de ser essencial para o parto e amamentação, pensa-se que é importante para o estabelecimento de afiliação mãe-filho ou pai-filho. Por exemplo, há sincronia: os níveis da hormona sobem no filho e no pai/mãe, com o aumento da interacção afetiva entre eles.”

Ouvir a voz da mãe numa situação de stress aumenta os níveis de oxitocina na criança. Os estudos mostram ainda que, quando administrada a hormona nos pais, melhora a qualidade e duração da interação com o miúdo.

3. Poderá ter a ver com a fidelidade

“A investigação sobre fidelidade provém de estudos com ratinhos.” Nestas investigações, pegaram-se em duas espécies de ratos — uma monogâmica e outra poligâmica. Quando foi administrada oxitocina nos ratos poligâmicos, eles tornaram-se monogâmicos.

A oxitocina, libertada durante o organismo nos monogâmicos, parece estar a codificar aos centros de prazer: ‘Hei, este parceiro é ‘recompensante’, vamos ficar com ele para sempre.”

“A oxitocina, libertada [em maiores quantidades] no organismo dos [ratos] monogâmicos, parece estar a dizer aos centros de prazer: ‘Hei, este parceiro é ‘recompensante’, vamos ficar com ele para sempre (…). Em humanos ainda não se sabe muito sobre o seu impacto nas ‘estratégias’ reprodutivas.”

4. Alivia ou até cura dores físicas

“Em ratos, até se demonstrou que a injecção de oxitocina promove o sarar das feridas. Se calhar o ‘beijinho’ na ferida que se dá às crianças até faz algum sentido”, continua Diana Prata.

5. Torna-nos mais sociáveis

Os estudos demonstram que a oxitocina pode ajudar pessoas extremamente introvertidas e até ajudar em momentos de determinada ansiedade social. Pode também ser particularmente útil em crianças que sofrem de autismo. A conclusão foi de um estudo publicado em julho do ano passado no Proceedings of the National Academy of Sciences.

“No último par de décadas está a descobrir-se que, em ambos os sexos, a oxitocina tem um papel também no comportamento social, nomeadamente, de aproximação e afiliação com os outros. E desde então pensa-se nela como potencial fármaco para distúrbios psicológicos ou psiquiátricos, como ansiedade, autismo e esquizofrenia.”

6. Deixa-nos menos stressados e deprimidos

“Há evidência de que a oxitocina contraria os efeitos do cortisol, a hormona que é libertada no stress.” No caso da depressão, estudos sugerem que algumas mães com depressão pós-parto libertaram níveis mais baixos de oxitocina durante o trabalho de parto. Outras investigações sugerem que a hormona pode ajudar no tratamento da ansiedade e depressão.

7. Pode ajudar na dieta

Estudos com ratos sugerem que animais com deficiências nos recetores de oxitocina tendiam a sofrer de obesidade, mesmo mantendo uma alimentação saudável. Um estudo publicado no National Center for Biotechnology em dezembro de 2017 concluiu que uma única dose intranasal de oxitocina pode reduzir a ingestão calórica, aumentar a oxidação da gordura e melhorar a sensibilidade à insulina nos homens.

Mais: um estudo piloto de oito semanas de tratamento com oxitocina em adultos com obesidade ou excesso de peso levou a uma perda substancial de quilos.

8. Parece deixar-nos mais bonzinhos

A oxitocina ajuda-nos a indentificarmo-nos com as emoções dos outros e melhora a nossa capacidade de compreendê-los. O tema foi abordado pela primeira vez em 2009, quando uma investigação publicada na revista Proceeding of the National Academy of Sciences concluiu que pessoas que produzem esta hormona em maior quantidade ou que são mais sensíveis, geneticamente falando, aos seus efeitos, têm mais empatia pelos outros — são mais boazinhas, portanto.

Desejo sexual da mulher diminui depois de um ano de relação

9. Faz com que as mães estejam dispostas a sacrificar a vida pelos filhos

A conclusão foi de um estudo realizado pela Fundação Champalimaud em junho de 2017. Os cientistas pegaram em ratos fêmeas que tinham sido mães recentemente. Depois de fazerem com que elas associassem o cheiro a mentol a um choque elétrico, juntaram mães e filhos para perceberem como é que elas agiam perante uma suposta ameaça. Se sozinhas elas tendiam a ficar quietas, com as crias tentavam esconder os filhos, mantinham-nos próximos delas ou até exploravam a caixa, provavelmente à procura da ameaça.

10. É importante durante o sexo (e depois também)

Quando estamos apaixonados, é libertado um autêntico cocktail de hormonas que nos deixam quase “embriagados” de amor — vale a pena recordar o artigo da MAGG com a explicação do que acontece no nosso corpo quando estamos apaixonados e quando há uma break-up. A oxitocina é uma delas. No campo sexual, durante o sexo são libertadas grandes quantidades desta hormona, em particular durante o orgasmo. No caso dos homens ajuda a manter a erecção. Isto também pode explicar porque é que depois da relação sexual há uma tendência natural para se ser carinhoso e meigo com o parceiro.

Há um lado negro da oxitocina?

“Há estudos de psicologia a mostrar que a administração de oxitocina intranasal potenciou a competitividade num jogo de equipa, contra membros da equipa adversária. Embora não se esperasse, agora achamos que faz sentido pois o aumento do espirito de coesão e dedicação dentro de um grupo pode vir associado (ser o reverso da medalha) ao espírito de defesa desse grupo frente a outros, numa situação de escassez de recursos ou de ataque.”

“Além disso, a oxitocina possivelmente permitiu aos mamíferos a afiliação necessária para se defenderem mutuamente, e incentivou-os a colaborarem na obtenção de recursos, essencial para a sua sobrevivência.”

Ok, a oxitocina é ótima. Podemos comprá-la na farmácia?

“Ainda não se receita medicamente [a não ser para a amamentação] porque faltam ensaios clínicos, estudando o impacto na sua toma continuada.” Para já ainda não é possível comprar oxitocina em frascos. Um dia, quem sabe. Até lá, é apostar nas formas de a adquirir naturalmente: através do orgasmo, abraço, massagem, toque e até do olhar.