Reconstrução vaginal. Tudo o que sempre quis saber (e teve vergonha de perguntar)

Por razões estéticas ou funcionais, há cada vez mais mulheres a levar a vagina ao senhor doutor. Vaidade? Nem sempre. Perigos? Existem.

A redução dos pequenos lábios vaginais vai ser uma tendência em 2018

Charles Deluvio/Unsplash

“Não gostava da minha zona íntima: era papuda e os lábios vaginais eram grandes. Não gostava e incomodavam-me quando fazia educação física ou quando estava na praia.”

O testemunho é de Mariana (nome fictício), 32 anos, que em 2014 foi submetida a uma lipoaspiração e redução dos lábios vaginais na Clínica IN, de Francisco Ibérico Nogueira. O desconforto vinha desde os tempos da adolescência, quando não se sentia bem com algumas peças de roupa, nomeadamente os fatos de banho e as calças de ginástica.

“Mais tarde passei também a não me sentir bem na exposição íntima. Ao ter relações sexuais, havia algum desconforto, tanto a nível físico como psicológico”, conta à MAGG. Depois de muita pesquisa sobre o assunto, Mariana decidiu fazer uma reconstrução vaginal. “Não tinha por que ter dúvidas. Mas penso que é muito importante sermos bem avaliadas e acompanhadas. Nem sempre as coisas correm bem e há maus resultados divulgados na internet. A escolha de um bom cirurgião é essencial.”

Diferença entre rejuvenescimento vaginal e reconstrução vaginal

A reconstrução vaginal é um procedimento abrangente, que vai além das questões estéticas. É por isso que importa perceber também a diferença entre rejuvenescimento vaginal e reconstrução vaginal.

“O rejuvenescimento vaginal refere-se a um conjunto de procedimentos que visam melhorar a aparência do órgão genital e também, corrigir algumas alterações que podem causar desconforto e/ou embaraço no dia a dia e que podem também interferir na vida íntima do casal”, explica a cirurgiã plástica Luísa Magalhães Ramos.

“Já a reconstrução aborda questões não apenas estéticas, por exemplo, uma mulher que teve cancro e lhe foi removida toda ou parte da vagina, poderá recorrer a uma cirurgia de reconstrução vaginal. Esta é realizada a partir de tecidos de outras partes do corpo e permite à mulher ter uma vida normal e ter relações sexuais.”

Antes da reconstrução, Mariana fez uma série de exames. Não se recorda do nome de todas as análises, mas “foram três folhas com resultados”. “Depois da intervenção foi-me aconselhado a não ter relações sexuais durante 20 dias e evitar esforços como ir ao ginásio, por exemplo. Mas o meu dia a dia não foi afetado.”

Arrependimentos? Nenhuns. “Sinto-me muito mais confiante e se voltasse atrás teria feito há muito mais tempo. Já não sinto qualquer pudor nem ‘reserva’ ao vestir-me e durante a relação sexual.”

Não é um conceito novo, ainda não ganhámos ao Brasil (é o país onde se fazem mais cirurgias plásticas à vagina) mas os médicos garantem que há cada vez mais mulheres a fazê-lo em Portugal. Segundo dados da Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética, a redução dos pequenos lábios vaginais vai ser uma tendência em 2018 nas cirurgias plásticas à escala mundial.

Na verdade, o número de intervenções não para de aumentar — em 2015 realizaram-se 95.010 labioplastias (é este o nome técnico deste procedimento) em todo o mundo; em 2016 foram 138.033. Um aumento de 45%, com o Brasil na liderança (23.155), seguido dos EUA (13.266). O estreitamento do canal vaginal também deve voltar a ser tendência este ano, garante a associação, apesar do aumento do número de cirurgias ser menos expressivo — entre 2015 e 2016, foram mais 10%.

Sobre Portugal não há números públicos, mas os médicos garantem que sentiram um aumento da procura nos últimos anos. “Quando comecei a minha prática, a reconstrução vaginal era uma coisa de que não se falava assim tanto”, recorda o cirurgião plástico Duarte Salema Garção, 34 anos, um dos especialistas da MyClinique, em Lisboa. “Nestes últimos cinco anos tem vindo a ser cada vez mais falado. No último ano, fizemos cerca de 30 procedimentos na MyClinique”.

A cirurgiã plástica Luísa Magalhães Ramos, 40 anos, proprietária de um consultório em Lisboa com o mesmo nome, é da mesma opinião. “A cirurgia íntima é já uma prática muito comum nas sociedades ocidentais e o número de mulheres a procurar estes procedimentos é cada vez maior.”

E porquê? Para começar, há cada vez mais informação sobre o assunto. Depois, é dada mais importância à qualidade estética do órgão sexual. As mulheres estão mais preocupadas e atentas, e não se coíbem de fazer tudo o que estiver ao seu alcance para melhor a sua vida — incluíndo sexual.

“Embora a melhoria da vida sexual não seja a única e/ou principal motivação para recorrer a este tipo de intervenções, estas podem corrigir e/ou melhorar algumas condições que interferem diretamente na vida íntima do casal”, explica a cirurgiã plástica Luísa Magalhães Ramos. “São muitas as mulheres que me procuram para tratar condições que afetam a sua sexualidade”.

É o caso da hipertrofia dos lábios vaginais, que pode causar desconforto e dor durante o sexo, ou do enfraquecimento dos músculos do canal vaginal, que pode levar a uma diminuição do prazer. Em casos mais drásticos, a reconstrução vaginal também pode ser necessária na sequência de um cancro.

Helena (nome fictício), 45 anos, tinha dois filhos, ambos por parto natural. “Não sei se foi pela idade ou pelos partos, mas a região íntima ficou alterada. Falei com a minha ginecologista e apresentei a minha ‘queixa’: a preocupação com a ‘flacidez’ da musculatura da vagina e os lábios desproporcionais.”

Estava na altura de mudar isso. Até porque Helena sentia-se insegura, tanto física como psicologicamente. A médica aconselhou-a a procurar um cirurgião plástico, e foi exatamente isso que fez. Em 2016, também na Clínica IN, fez uma perineoplastia (estreitamento do canal vaginal) e redução dos lábios vaginais.

“Fui operada numa quinta e na segunda-feira fui trabalhar (…). A cirurgia superou largamente as minhas expectativas. Sinto-me mais segura e determinada. A minha vida sexual melhorou bastante. Esta felicidade reflete-se em mim, na minha auto-estima e na relação do casal. Todos beneficiámos com isso.”

O que é uma reconstrução vaginal?

“A reconstrução vaginal inclui uma série de procedimentos diferentes”, explica o cirurgião plástico Duarte Salema Garção. “Normalmente quando a mulher vem à consulta, vem com um problema específico. Ou porque os pequenos lábios estão muito grandes e isso incomoda-a (…) ou porque o canal vaginal já está muito alargado, o que acontece frequentemente depois dos partos”.

São quatro as principais intervenções da reconstrução vaginal.

Labioplastia. É o mais procurado pelas mulheres. A cirurgia consiste na redução dos pequenos lábios vaginais, que muitas vezes se projetam para fora dos grandes lábios. Este problema pode afetar a vida sexual da mulher, uma vez que durante o ato sexual pode haver incómodo e dor. Também permite eliminar zonas de pigmentação escura e eliminar o excesso de pele que pode cobrir de forma exagerada o clitóris. Além de incomodativo esteticamente, este “capuz” pode dificultar o ato sexual.

Perineoplastia. Outra das intervenções mais frequentes, consiste no estreitamento do canal vaginal. É um procedimento bastante frequente em mulheres que foram mães, e sobretudo que tiveram partos traumáticos — por exemplo, quando é necessário fazer uma episiotomia, isto é, um corte entre a vagina e o ânus para facilitar a saída do bebé.

Lipoescultura. Procedimento para retirar gorduras em determinadas áreas, como por exemplo no monte de vénus, que fica muito visível quando são utilizadas roupas mais justas. Também pode ser utilizado para melhorar o aspeto e o volume de zonas atrofiadas, colhendo enxertos de gordura noutras regiões.

Himenoplastia. É a reconstrução do hímen. Esta intervenção é muito importante para mulheres que foram violadas ou que estão sujeitas a pressões culturais e religiosas — como por exemplo a obrigatoriedade de casarem virgens.

6 perguntas rápidas sobre a reconstrução vaginal

Quanto tempo demoram as intervenções?

Há diferenças consoante o procedimento realizado, no entanto de um modo geral as intervenções são bastante simples e de recuperação rápida. No caso da labioplastia, por exemplo, a cirurgia leva entre uma a duas horas e geralmente só é aplicada uma anestesia local. Os pontos utilizados são reabsorvíveis, de forma a facilitar o processo pós-operatório.

Na perineoplastia, a segunda cirurgia mais procurada pelas mulheres e que consiste no “aperto” do canal vaginal, a cirurgia demora aproximadamente uma hora. Geralmente também é utilizada anestesia local.

Vou sentir dor?

Quando passar o efeito da anestesia, é normal que sinta algum desconforto. No entanto, este é aliviado pela medicação prescrita. A aplicação de gelo ou compressas frias também ajuda.

Tenho de ficar internada?

Este é um procedimento ambulatório, portanto os pacientes têm alta no próprio dia. Após recuperar da anestesia, regra geral já está pronta para ir para casa.

Que cuidados devo ter depois da cirurgia?

Mais uma vez, depende do tipo de intervenção. Mas há regras que se aplicam a praticamente todo o tipo de cirurgias íntimas: é importante fazer uma higiene rigorosa, utilizar roupas largas e seguir a medicação prescrita.

Quando é que posso regressar ao trabalho?

Entre dois a três dias está pronta para regressar ao trabalho depois de uma labioplastia. No caso da perineoplastia, o ideal é esperar pelo menos uma semana. Em ambas as intervenções pode voltar a praticar exercício físico e retomar a atividade sexual passado um mês. Mas atenção, cada caso é um caso — estes números são meramente indicativos e podem variar de mulher para mulher.

Quanto custa?

Os valores dependem muito da cirurgia e paciente. Em média, os preços começam nos 2.500€.

O lado negro das reconstruções vaginais

Fora do ramo da cirurgia estética, nem todos os especialistas são a favor desta prática. Mas em primeiro lugar é importante distinguir a cirurgia reconstrutiva da estética.

“Na primeira podem ser incluídos os prolapsos, a incontinência urinária, a cirurgia após mutilação genital feminina, após traumatismos, cirurgia oncológica, etc.”, explica à MAGG o ginecologista Pedro Vieira Baptista, secretário-geral da ISSVD (International Society for the Study of Vulvovaginal Disease).

De uma modo geral, este género de intervenções são realizadas, embora não de forma exclusiva, por ginecologistas ou urologistas. Realizam-se estudos sobre a melhor técnica, analisam-se as taxas de complicações e as indicações encontram-se padronizadas.

“Ora, tal não acontece na cirurgia estética: o mesmo procedimento tem nomes diferentes de acordo com o cirurgião e vice-versa. Nenhuma complicação é isenta de risco, mas é fundamental que haja registo dos mesmos — saber a probabilidade de complicações é um dos pressupostos para que possa haver um consentimento verdadeiramente informado”.

A falta de publicações relativas a complicações não dá segurança, pelo contrário. O assunto não está estudado — ou seja, ninguém sabe ao certo a taxa de complicações inerentes aos procedimentos.”

De acordo com Pedro Vieira Baptista, não é isso que acontece no campo das reconstruções vaginais. “A falta de publicações relativas a complicações não dá segurança, pelo contrário. O assunto não está estudado — ou seja, ninguém sabe ao certo a taxa de complicações inerentes aos procedimentos; há um viés de publicação — são os cirurgiões que realizam os procedimentos, não padronizados, que publicam as suas séries…”.

E porque é que não se realizam mais estudos sobre a reconstrução vaginal? “Estes procedimentos não são realizados nos hospitais públicos, nem são cobertos pelas seguradoras — todas as despesas são suportadas pela doente. Neste contexto, é praticamente impossível a realização de estudos ou sequer a existência de relatos de complicações: qual o cirurgião privado, a praticar procedimentos altamente rentáveis, interessado em publicar as suas complicações?“.

A ISSVD (International Society for the Study of Vulvovaginal Disease) denominou as reconstruções vaginais, um termo não oficial, de FGCS (Female Genital Cosmetic Surgery), de modo a distinguir o que é estético do que é anatómico ou funcional. Neste âmbito, Pedro Vieira Baptista explica quais são as complicações associadas a estas intervenções, além das complicações comuns a todas cirurgias, como infecções e hemorragias.

Ninfoplastias (diminuição dos pequenos lábios vaginais): dor, dispareunia (dor com a relação sexual), deiscência da sutura (condicionando o resultado estético final) e diminuição da sensibilidade (prazer), recidiva (retorno da actividade de uma doença);
Aumento dos grandes lábios (gordura, ácido hialurónico): efeito transitório, risco de embolia;
“Estreitamento vaginal”: dispareunia, diminuição da lubrificação, aderências, lesões do reto, fístulas. “A taxa de complicações pode chegar aos 23%. Frequentemente são usados técnicas de laser, das quais não há evidência de qualidade, embora haja vários estudos mal desenhados e enviesados — as complicações podem incluir a ulceração, estenose”, explica Pedro Vieira Baptista”. Não se sabe o efeito a longo prazo sobre a bexiga e o reto;
Aumento do ponto G: infecção, dor, cicatrizes, embolia.

“Claro que há indicações para ninfoplastias (ou labiaplastias, entre outras designações): os casos extremos. O público-alvo destas cirurgias, infelizmente, não são estas mulheres: antes se tenta convencer que mulheres com pequenos lábios com três ou quatro centímetros são anormais — nada mais falso.”

E vai mais longe. “Haverá sempre pessoas a requerer procedimentos que desafiem os nossos conceitos, mas o grande problema é quando o médico convence a (neste caso) cliente de que ela precisa do procedimento e lhe cria falsas expectativas: melhoria em termos de função sexual, resolução de dor, melhoria da vida conjugal, que ela se vai tornar mais bela, mais limpa, etc.. Esse tipo de mensagens não são um exclusivo português — é um fenómenos à escala mundial”.

Na opinião de Pedro Vieira Baptista, não se trata de modo algum de censurar as mulheres que procuram este tipo de procedimentos. Pelo contrário, o que ele e muitos outros especialistas defendem é o direito à informação — nem que seja saber que ela não existe.

“Vivemos numa era em que a medicina e o comércio se aliaram demasiado”, continua, dando o exemplo do estreitamento do canal vaginal. “Recentemente foi criado o conceito de ‘síndrome de laxidão vaginal’ – seriam aqueles casos em que a vagina fica ‘larga’, após os partos. Ora, não há definição operacional. O diagnóstico consiste em perguntar à mulher o quanto se sente ‘larga’ – não é mensurável.”

É possível realizar uma reconstrução em menores de 18 anos? É. Mas é seguro?

Algumas clínicas não colocam um limite de idade para realizar a intervenção. Para o ginecologista Pedro Vieira Baptista, isto pode trazer graves consequências para o menor. “A anatomia ainda não está completamente desenvolvida — de lembrar que o aspeto das estruturas muda ao longo da vida e inclusivamente com a excitação sexual.”

Há mais. “É imprevisível o modo como as cicatrizes vulvares se vão comportar durante um parto, por exemplo. Da mesma forma, com a diminuição dos estrogénios própria da menopausa, estas cicatrizes podem ter um comportamento diferente dos tecidos circundantes, tornando-se mais evidentes”.

Pedro Vieira Baptista salienta ainda as consequências psicológicas a longo prazo. “Problemas de auto-estima e auto-imagem dificilmente melhorarão por esta via na adolescência — cortar é mais rápido e mais rentável do que falar.”

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