Happn. Experimentámos a app de engate que diz com quem é que nos cruzamos

Cruzamo-nos com centenas de pessoas. Não sabemos quem são, não reparamos nelas. Com o Happn, isto pode mudar. Basta fazer crush.

O quarto episódio da quarta temporada de Black Mirror é sobre as aplicações de encontros

A caminho do primeiro encontro não conseguia parar de cantarolar o “Panic”, maravilhoso tema dos The Smiths, que fecha o episódio “Hang the DJ” de “Black Mirror”. Quem já assistiu entenderá porquê: o quarto episódio da nova temporada da série da Netflix centra-se nas aplicações de encontros. Ia ter com uma pessoa com quem já tinha conversado, mas apenas através de uma janela de chat. Já nos tínhamos cruzado, pouco tempo antes, mas não reparámos um no outro. Isto dá que pensar: passamos por centenas de pessoas todos os dias e não perdemos dois segundos a questionar-nos sobre quem serão ou sobre que histórias terão para contar. De repente, aparecem no nosso ecrã. E bastará um ‘crush’ para descobrirmos tudo sobre elas.

Como funciona o Happn?

A conversa com o Tiago (nome fictício) tinha começado uma semana antes, graças ao Happn, uma aplicação de encontros, desenvolvida pela empresa americana FTW & Co, lançada em 2014 e que só mais recentemente começou a fazer parte das aplicações descarregadas em Portugal.

Tantas caras. Tantas possibilidades. Mas como é que isto funciona? O que à primeira vista poderá ser confuso, acaba por transformar-se em algo muito intuitivo. Não é necessário um manual de instruções, ainda que a app envie uma mensagem de boas vindas com tudo explicado.

Como no Tinder, aqui não bastar arrastar para a esquerda quem não nos interessa e para a direita quem nos chama a atenção. A maior particularidade desta app reside na ferramenta de geolocalização: regista todos os locais por onde passamos e mostra-nos as pessoas com quem nos cruzámos ou de quem nos encontramos mais próximas. Mas não são todas: no inicio, antes de a começar a utilizar, faz-se uma breve configuração que dita o sexo e o intervalo de idades dos potenciais candidatos. Estabelecidas as preferências, as hipóteses vão surgindo num layout que é uma espécie de grelha — sim, estilo montra de pessoas. Carregando nos diferentes perfis, não só temos acesso à fotografia principal, como àquelas que aparecem no perfil de Facebook. É ainda possível ver os amigos e interesses comum, caso os dois sigam as mesmas páginas.

Em vez de ‘match’, como no Tinder, no Happn faz-se ‘crush’. É esta a expressão que salta no ecrã quando pomos um coração em alguém, que também pôs em nós. Para resolver a questão dos amores não correspondidos, há a opção de dizer ‘olá. Ou seja: se eu achar piada a alguém, mas não houver ‘crush’, eu posso insistir, cumprimentando-a. A pessoa recebe o aviso e decide se quer, ou não, iniciar uma conversa. Há ainda um jogo que a aplicação desbloqueia ao fim de poucos crushes. Não é complexo: surgem várias cartas com fotografias de potenciais candidatos e, depois, é só adivinhar quem, de todas as hipóteses, gostou de nós. Se acertarmos, lá salta a notificação que avisa que janela de chat está desbloqueada.

Foram 3 encontros. Só um é que correu bem, mas não me arrependo de nenhum

Conversei com várias pessoas. Fiz muitos ‘crush’, recebi vários ‘olá’ e li diversos piropos. No entanto, nunca senti nenhum tipo de falta de respeito. E, caso tivesse sentido, a situação resolver-se-ia de forma rápida, através de um só botão: o de bloquear. De acordo com o Pedro (nome fictício) — uma das pessoas com quem me encontrei através desta aplicação — o Happn é mais “soft” do que o Tinder, onde, segundo o que relatou, as abordagens têm sido mais agressivas, explicitas e de teor sexual.

Decidi encontrar-me com três pessoas. Com o Tiago estive duas horas que não se prolongaram porque o dia seguinte era de trabalho. Com ele, a conversa virtual começou de forma diferente: ele viu-me no Happn e foi à minha procura no Facebook. Adicionou-me, cumprimentou-me, disse um piada e começámos a falar. A expectativa criada online correspondeu ao que ele é na realidade. Ficámos amigos e ainda falamos.

Com o Pedro e com com o João (nome fictício), a coisa não foi terrível, mas não correu assim tão bem. Além das imagens omitirem parte da realidade (entre outras coisas, eu sou alta e eles são muito baixos), senti que éramos de mundo diferentes, com personalidades opostas e incompatíveis. Já ia com este pressentimento, mas decidi arriscar. Foram encontros breves. Num deles, a falta de conexão era tal que pedi a uma amiga que me ligasse para ter um pretexto para me ir embora. É um truque. Se estão a pensar entrar neste universo, aconselho. E escolham sempre um local público, porque nunca se sabe.

O início das conversas é quase padrão. O formulário (mais ou menos floreado) é este: ’O que é que fazes?’, ‘De onde é que és?’ Quais é que são os teus interesses’. Gosto de pensar nas conversas que começam no Happn (ou noutra aplicação de encontros) como uma espécie de pré-casting: traçamos o perfil da pessoa e decidimos se queremos seguir para a fase dois: o encontro.

Alguns diálogos ficam sempre na janela de conversa desta app, outros saltam para as redes sociais ‘comuns’, como Facebook, Instagram ou WhatsApp. Até haver coragem para o encontro real, há diálogos que duram semanas, outros que duram dias e ainda alguns que duram apenas algumas horas. O facto de sabermos o local exato em que nos cruzamos com a pessoa ajuda, porque acaba por também ser tema de conversa: há pessoas que moram ou trabalham perto dos bairros que frequentamos e isto pode acelerar o processo.

Conhecer pessoas na correria dos dias é difícil

“Mas queres conhecer pessoas na noite?”, respondeu-me o Tiago quando lhe perguntei porque é que estava no Happn. Como eu, ele não é tímido. Mas, como quase toda a gente, tem uma vida agitada. É obvio, mas pôs-me a pensar. Conhecer gente no decorrer dos dias é difícil. Os caminhos cingem-se àqueles que estão entre o trabalho e a casa e não sobra tempo para mais nada. Depois, há o fator timidez: há pessoas introvertidas que têm maiores dificuldades de interação social — e uma janela de chat pode ajudar a desbloquear esta característica.

Rita Fonseca de Castro, psicóloga da Oficina de Psicologia, concorda. À MAGG diz que “há pessoas muito tímidas e há vidas agitadas com pouca disponibilidade para conhecer pessoas”. Esta conjuntura faz com que as aplicações de encontro sejam “uma ferramenta útil para quem, pelo momento da vida em que se encontra (assoberbado com tarefas familiares e de casa, exigências profissionais), tem escassez de tempo e disponibilidade efectiva para conhecer pessoas novas, fora do círculo habitual de amigos e conhecidos.”

Para quem tem maior escassez de competência sociais, há um lado mau, mas que é diluído quando se faz a passagem da janela de chat para a realidade. Estas aplicações poderão, por um lado, “inibir o desenvolvimento ou até criação de características de natureza relacional e social” — técnicas e estratégias de sedução, procura activa de contextos onde se possam estabelecer relações interpessoais, a capacidade de interpelar quem suscite interesse ou a capacidade de resolução de conflitos —, mas também podem desenvolvê-las: chegada a fase do confronto real, a “comunicação com o outro será inevitável e, então, terão que ser mobilizados os recursos necessários para a estabelecer.”

É uma ferramenta útil para quem, pelo momento da vida em que se encontra (assoberbado com tarefas familiares e de casa, exigências profissionais), tem escassez de tempo e disponibilidade efectiva para conhecer pessoas novas, fora do círculo habitual de amigos e conhecidos

Também é mais fácil encontrar pessoas que partilhem os mesmos interesses. Há uma interacção “com um maior número de indivíduos do que seria possível sem a existência destas aplicações”. Em teoria, isto aumenta a possibilidade de encontrar alguém com quem haja mais aspetos em comum.

Há vários aspetos positivos na utilização (adequada) destas ferramentas. Da utilização destas aplicações de encontro podem resultar vários cenários: “envolvimentos pontuais, de caracter sexual, relações amorosas, de amizade ou apenas contactos que se perdem com o passar do tempo.”

O lado negro das aplicações de engate

Mas, como em tudo, “existe o reverso da medalha”. Utilizar o Happn — como qualquer outra aplicação de encontros — exige bom senso. E os objetivos devem ser bem estabelecidos. Rita Fonseca de Castro explica quais é que podem ser os maiores perigos — e aponta seis.

1. As expectativas desfasadas e o olhar cínico para as pessoas

A especialista explica que é essencial “ter bem presente o objectivo e as expectativas da pessoa com quem se interage, partindo do princípio que — começando logo pela fotografia de perfil —, pode não haver uma total correspondência com o real”. Quando há desilusões sucessivas, há potencial para se gerar uma desconfiança generalizada, que conduzirá a “um olhar mais cínico para as pessoas e o mundo em geral.”

2. A insatisfação permanente

As questão das expetativas, aliada à “aceleração dos processos de estabelecimento de relação” e à sucessão de pessoas que se conhecem e com quem se iniciam relações poderá “levar a uma insatisfação permanente”, difícil de resolver. A intimidade e sexualidade também podem ser afetadas por este fator que levam a “uma maior confusão e maior dificuldade em encontrar satisfação.”

“No pior dos cenários, pode existir um somatório de desilusões, no caso das experiências serem persistentemente negativas e, uma quase desistência de investimento no estabelecimento de relações”, diz.

3. O potencial aditivo e a descrença nas relações

“Existe, também, um potencial aditivo nestas aplicações”, diz. Resulta da aparente facilidade em contra pessoas, da ilusão de que tudo corre bem (na janela de chat, pelo menos) e da novidade constante. De acordo com a especialista, “com o passar do tempo, esta constante adrenalina, o conhecer e ‘desconhecer’ pessoas, pode levar também a um cansaço e até descrença total nas relações.”

A solução passa, novamente, por ajustar as expectativas e por “estar preparado para a desilusão”, uma vez que “é possível passar muito tempo a investir numa interacção online e, de repente, a pessoa desaparecer, como se nunca tivesse sequer existido — fenómeno a que se dá o nome de ghosting.”

4. A falsa ideia de proximidade

No mundo online há sempre com quem interagir. Disto pode nascer, segundo a especialista, “uma ideia falsa de proximidade.” Para entender isto, basta fazer uma pergunta: se, na vida real, precisar de ajuda, com quantas destas pessoas poderá realmente contar?

“É como se tivéssemos que repensar o conceito de rede social e incorporar dois tipos: a rede social real e a rede social virtual”, considera Rita Fonseca de Castro. “Desiste-se mais facilmente das relações quando surgem dificuldades ou obstáculos, ao invés de tentar reparar-se o que está menos bem — a resistência à frustração pode ser cada vez menor: quando algo não corre bem, evita-se e desiste-se.”

5. Quando começa uma relação, há desconfiança “crónica”

“Também se pode instalar uma desconfiança quase ‘crónica’, quando se inicia uma relação com alguém que se conheceu por esta via”, partindo da ideia: ’Se usou a aplicação para me conhecer, quem me garante que não vai voltar a usá-la?’.

6. A “descartabilidade”

Há uma “maior facilidade em ter pessoas na nossa vida” e isto contribui para “encarar as relações como mais transitórias, com uma percepção de descartabilidade associada”. Há um “investimento menor no outro” — quando uma relação não corre bem, passa-se para a seguinte, porque “existirá facilmente outra pessoa com quem se poderá estabelecer uma nova relação”. Segundo a especialista, isto pode fazer com que as pessoas não sejam valorizadas pelas suas “idiossincrasias, mas vistas como facilmente substituíveis”.

7. A confiança é difícil de construir

Como terapeuta de casais, Rita Fonseca de Castro já viu casais a nascerem através destas aplicações, mas também já assistiu aos efeitos do seu lado mais perverso, que dificulta a construção e consolidação da confiança: “Já acompanhei casos de (tentativa de) recuperação da relação após uma situação de infidelidade que foi propiciada pelo recurso a este tipo de aplicações”, conta. “As traições sempre existiram e não dependem, natural e diretamente da existência de aplicações de encontros. Mas, do lado da pessoa que foi traída, a existência destas ferramentas passou a conduzir a uma monitorização quase obsessiva da utilização do computador ou telemóvel.”

8. Ainda existe algum preconceito

A intimidade de quem entra nestas plataformas acaba sempre por ser exposta. E, por mais que se diga que não, até as mentes mais abertas podem esconder algum preconceito, mesmo que inconsciente: “Há quem tenha pudor em assumir que faz parte deste grupo e há quem omita a origem de novas amizades ou relações.”

O olhar sobre as pessoas e as relações está diferente

Conforme descreveu o o sociólogo Zygmunt Bauman, referido pela psicóloga, “a tendência será a de que as relações sejam cada vez mais ‘líquidas’, com perdas ao nível da união — e conexão — e uma maior acumulação de experiências”. Conforme aquilo estabelecido nas relações, e dependendo do resultado delas, isto pode ser bom ou mau.

As aplicações de encontros também vieram acentuar ainda mais a transformação dos paradigmas dos géneros. Se antes estava pseudo-estipulado que cabia ao homem dar o primeiro passo, hoje está longe de ser assim. Já não tem de ser ele “a desempenhar o papel de sedutor”.

No pior dos cenários, pode existir um somatório de desilusões, no caso das experiências serem persistentemente negativas e, uma quase desistência de investimento no estabelecimento de relações

Nestas aplicações, conseguimos ver espalhados alguns dos atuais “ganhos ao nível da liberdade”. As regras das relações mudaram. Hoje já são poucos os que ficam “presos” ao companheiro atual. Esta é “uma transformação social e cultural de grande magnitude e positiva, sobretudo, quando as pessoas, na sua maioria mulheres, se viam forçadas a permanecer em relações disfuncionais e insatisfatórias por constrangimentos de várias ordens, até ao final da vida.”

Há histórias boas e há histórias más. Há finais felizes e outros isentos de fim. Se por um lado aplicações como o Happn contribuem para a descartabilidade, infinita insatisfação, desconfiança ou adição em relações, na novidade e adrenalina, por outro, abriram uma porta de possibilidades imensa, capaz de atenuar as consequências das personalidades cada vez mais introvertidas ou dos efeitos de uma sociedade que anda a mil. Bem utilizada, pode levar-nos às pessoas certas. Com o Happn, pode muito bem ser o vizinho em que nunca reparou.

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