Se as paredes do Caldas falassem, metade dos estudantes de Lisboa teriam de mudar de nome. É neste pequeno e castiço restaurante no cimo da Rua da Madalena que a comunidade universitária da cidade se reúne, há décadas, para celebrar a juventude. A comida é barata. O bar é aberto. A festa está feita.

André Henriques, Paulo Silver, Miguel Galão, Miguel Henriques e Hugo Castanheira fizeram parte desta tradição. Trabalham na área da produção de eventos e dividem-se em duas agências: a H Collective e a New Sheet. Foi neste mesmo local que, quase 20 anos depois, em dezembro de 2016, se tornaram a sentar. Relembraram o sabor dos clássicos strogonoff com cogumelos e da cerveja servida em jarro. Mas vinham com um propósito muito específico: debitar “ideias estapafúrdias” para trabalhar no esboço de um projeto, que veio a tornar-se numa das festas mais épicas de Lisboa.

A escolha do local não foi feita ao acaso: “O Caldas era o restaurante da nossa juventude. Iamos lá quando, durante os anos 90, éramos universitários”, revela André Henriques, produtor de eventos, DJ e antigo locutor da rádio RFM, no programa “Café da Manhã”.

“Fixe era termos um momento que misturasse o ‘Big Show SIC’ com o ‘Trainspotting’. Fixe era termos um segmento do ‘Juiz Decide’”. Melhor ainda era termos uma banda que tocasse vestida de Power Ranger. Ou termos um momento dramático com gajos de mochilas de cerveja a distribuirem bebidas ao som da música do ‘Ghostbusters’”, iam pensando.

As festas mais badaladas de Lisboa

Tudo isto se concretizou. O primeiro Revenge of the 90’s aconteceu a 11 de fevereiro de 2017. Recebeu 500 pessoas e correu muito bem. André Henriques recorda o momento em que, no fim, pensou: “Meu Deus, o que foi isto?”. Na altura, não sonhava com o que aí vinha: um ano depois, esta festa — que vai já para a 19ª edição — chega a atrair mais de oito mil pessoas (na edição especial do primeiro aniversário, O Circo Noventeiro) com bilhetes a esgotarem em poucas horas.

O fenómeno é grande. Quem vai não esquece e quase sempre quer voltar. Não é uma festa normal, com DJ na cabine e pessoas a dançarem na pista. Vai muito além disto. É um “show”, com palco e banda sonora dos anos 90. É um espetáculo partido em vários, com momentos especiais, pensados ao mais ínfimo pormenor.

O local é sempre diferente e secreto. Em todas as festas há um tema diferente relacionado com a época celebrada. Há brindes, como pega-monstros, chupa-chupas ácidos ou colares comestíveis. Há balões, confetes e até um espaço dedicado a jogos arcade. Há momentos karaoke e uma interacção constante com o público, essencial na construção do clima da festa.

O esquema padrão (que pode variar) é este: a noite começa ao som de Dress Her (Francisco Véstia). Segue a dupla Galão com Coca (Miguel Galão e Constança Castelo-Branco) com DJ Set. Depois, uma hora de concerto com Santa Manel (Luís Camões e Filipe Chaves), vestidos de Power Rangers. Francisco Véstia regressa durante mais meia hora para que a organização tenha tempo para preparar o momento alto da festa: a “viagem”, as duas horas mais intensas, divertidas e imprevisíveis da noite, onde há muitas surpresas, convidados especiais e as atuações de André Henriques e Paulo Silver. O final da noite fica a cargo do DJ Van Breda — que aqui assume o nome Van Brallen —, o responsável pelo Swag On, as noites de quarta-feira no Lust in Rio.

“A viagem é o show do Revenge. Toda a gente espera por este momento. É sempre diferente, apesar de ter partes que já são uma espécie de tradição”, relata o DJ. É por esta altura que, desde a segunda edição, surge um convidado especial. Os primeiros foram os Anjos: “Sentei-me com eles e até hoje tenho de lhes agradecer por terem aceitado entrar nisto”, recorda. Depois, surgiram muitos outros: desde as NonStop, ao Melão, Helder Rei do Kuduro, Romana, João Baião ou José Figueiras.

O segredo para o sucesso

É verdade que os anos 90 estão na moda. Voltaram os chokers, as mama jeans, as botas Dr. Martens ou os puffer jackets. A ideia para estas festas temáticas vieram “no timing certo”, porque “já não há preconceitos”. Quem conhece, dança e canta, sem vergonha, o “Barbie Girl”, dos Aqua, ou “Boom, Boom, Boom, Boom”, dos Vengaboys. Mas não basta o conceito. É preciso trabalhá-lo e corresponder (ou superar) as expectativas criadas.

As pessoas que colaboram connosco não são da noite. São pessoas de agências, de publicidade até da imprensa. Essa é uma das grandes vitórias.

Tudo começa com o buzz e ninguém melhor do que os quatro amigos para criá-lo: “Para a primeira festa fizemos uma espécie de teaser em que não revelámos nada sobre aquilo que ia acontecer”, conta. “Só publicámos uma fotografia nossa dos anos 90 com a hashtag #revengeofthe90’s e começámos a desafiar outras pessoas a fazerem o mesmo.” A ideia tornou-se viral e a internet começou a ser invadida por fotografias do antigamente. “Até a Cristina Ferreira partilhou”, revela.

16 fotos

A forma como os bilhetes são vendidos é uma maneira de garantir que quem marca presença, vai com muita vontade. Esgotam em três tempos e só é possível aceder através do Facebook: “Não estão à venda nas plataformas normais como a Ticketline ou a Bol”, explica. “Eu quero que quem está lá se entregue de corpo e alma à festa porque é isso que nós fazemos.”

Há ainda o mistério em torno do local de cada festa: é sempre diferente e secreto — só é anunciado no dia do evento, por SMS.

“As pessoas que colaboram connosco não são da noite. São pessoas de agências, de publicidade até da imprensa. Essa é uma das grandes vitórias” diz André Henriques que adianta à MAGG.

Delírio em Las Vegas e um coreografias para fazer um brilharete

A próxima festa — “O Delírio em Las Vegas” — tem data marcada para 24 de abril, terça-feira, véspera de feriado. É a festa que, em Lisboa, precede a gigante que celebrou o aniversário de um ano, a 23 de fevereiro. Vai ser ainda maior.

Além da confirmação de Vengaboys, conhecidos pelos temas “Boom, Boom Boom, Boom” ou “We Like to Party”, foi confirmada a presença de “Crazy Town”, popular pelo hit “Buttefly”. Esta quarta-feira, 12 de abril, o cartaz ficou fechado com outro nome surpreendente: Lou Bega, conhecido pelo tema “Mambo N.5”.

O local continua secreto, mas sabemos que terá de ser grande para ter espaço para receber as milhares de pessoas que já compraram bilhetes. Os dois primeiros lotes já esgotaram. Há mais mil à venda. Se está a pensar ir, despache-se — eles esgotam à velocidade da luz.

Se já conseguiu garantir presença, aprenda os passos essenciais para fazer furor na pista em três dos maiores hits da década de 90. O coreografo Álvaro Lopes, da Jazzy, ajuda.