Sou jornalista, tenho 30 anos e uma filha de 10 meses, a Carmo. E lembro-me como se fosse hoje do dia em que fiz o teste de gravidez e vi o resultado positivo. Depois de várias semanas a tentar arranjar todas as desculpas e mais algumas para os sintomas característicos do início de uma gestação (vulgo, negação), comprei um teste e resolvi acabar com a teima.

Engravidar não era um objetivo na época e confesso que a minha filha é fruto de muitos esquecimentos ao nível da toma da pílula. Não tenho irmãos, as minhas amigas mais próximas ainda não são mães e eu era a pessoa com menos instinto maternal à face da terra. Não me sentia ainda preparada para assumir este papel e queria esperar por um momento mais estável a nível profissional. E as estatísticas comprovavam que não era a única a adiar o projeto bebé — a média de idades das mulheres portuguesas aquando o nascimento do primeiro filho passou de 26,5 anos (dados de 2000) para 30,3 no ano de 2016. 

Mas naquele final de dia de verão, sozinha em casa, vi dois traços num teste de farmácia e percebi que a minha vida ia mudar.

Gravidez = a problemas no trabalho?

Não demorei muito tempo até começar a pensar nas implicações da minha gravidez no contexto profissional. Em setembro de 2016 coordenava uma equipa de uma pequena empresa de produção de conteúdos, focada maioritariamente na área da saúde. Após alguns projetos falhados e uma reestruturação forçada, esta empresa não atravessava um bom período e todos os elementos acumulavam funções – eu própria, que comecei como jornalista, dei por mim a gerir a parte editorial e a ser responsável pela angariação de novos clientes.

E foi notório, depois de anunciar a gravidez à minha chefia, que este não iria ser um processo fácil. Pensei muitas vezes no que sucederia ao meu posto de trabalho durante a licença de maternidade, sendo que esta situação se agravou ainda mais quando, por razões médicas, parei de trabalhar ainda antes de chegar aos seis meses de gestação. E por cada dia que passava em casa, pensava se ainda teria trabalho após a minha filha nascer.

“Para as mulheres, é frequente existirem medos em torno da conjugação da maternidade com a carreira, nomeadamente: se serão prejudicadas no trabalho pela licença de parto, se aquando do regresso terão perdido o seu espaço ou se passarão a ser menos respeitadas por terem horários e familiares a ter mais em conta”, explicou-me a psicóloga clínica e coach profissional Filipa Jardim da Silva.

Nós não odiamos trabalhar. Nós achamos que odiamos trabalhar. A psicologia explica

É certo que a minha gravidez foi uma surpresa e não tive como tentar perceber se, em termos profissionais, seria uma boa altura dar esse passo. Semanas antes de regressar ao trabalho após os quatro meses de licença de maternidade, foi-me proposto um acordo para negociar a minha saída da empresa, alegando razões como escassez de novos clientes e necessidade de reduzir custos. No meu caso, há males que vêm por bem: a gravidez acabou por colocar um ponto final no meu percurso naquela empresa mas deixou-me livre para aceitar um desafio num novo projeto, a MAGG, que me preenche muito mais e significou o meu regresso a 100 por cento ao jornalismo.

Mas mesmo quando existe o plano mais perfeito para conjugar a maternidade e o trabalho, este pode sair furado. Foi o que aconteceu a Patrícia Oliveira, diretora criativa na Strazzera, uma empresa na área de produção de moda e mãe de Lucas, que completa dois anos em março.

Patrícia e o filho Lucas, que faz dois anos no próximo mês

“A minha gravidez foi planeada mas, honestamente, nunca esperei que acontecesse tão rápido. Tomava a pílula há muitos anos e achava que o meu corpo tinha de passar por uma fase de desmame. Mas a verdade é que interrompi a toma em junho e engravidei no mês seguinte”, conta Patrícia. “Na minha empresa somos uma equipa fixa pequena mas tinha uma colega pronta para me substituir durante a licença. Até que cerca de uns dois meses antes do Lucas nascer essa colega decide agarrar outro projeto profissional e sai da empresa. Escusado será dizer que o meu plano foi por água abaixo e comecei a ter complicações na gravidez relacionadas com stresse, o que acabou por me levar a ir para casa trabalhar, coisa que fiz até ao dia do parto. E depois do Lucas nascer estava preocupada que as coisas não corressem bem na minha ausência, por isso comecei a pegar em trabalho novamente passados seis dias.”

Para as mulheres, é frequente existirem medos em torno da conjugação da maternidade com a carreira.”

No caso de Marta Martins, mãe de Frederico de 10 meses, consultora de comunicação e jornalista de formação, a gravidez e o consequente nascimento do filho foram sinónimos de uma mudança de emprego e de carreira.

“Trabalhava como jornalista na agência Lusa há oito anos, sempre a recibos verdes. Quando engravidei percebi que tinha direito a gozar apenas as seis semanas consecutivas após o parto, obrigatórias pela Segurança Social. Toda esta situação de não me ser possível aproveitar o meu bebé a tempo inteiro durante mais tempo fez-me perder a motivação e o entusiasmo pelo trabalho. Adorava ser jornalista mas comecei a perceber que este registo de recibos, estas condições, não eram conciliáveis com o construir família, precisava de mais estabilidade profissional. Oito meses após o Frederico nascer recebi uma proposta de trabalho noutra área, que apesar de me levar a ter de abdicar de estar com ele durante o dia (eu trabalhava maioritariamente a partir de casa e geria os meus horários), trouxe-me estabilidade, melhores condições salariais e fez-me apreciar de novo o trabalho, que é algo que me preenche imenso”.

“Não é possível a mãe estar sempre presente”

Embarcar num novo desafio profissional com uma bebé com menos de um ano nem sempre é fácil. Só no primeiro mês de trabalho fui obrigada a ficar com a minha filha em casa duas vezes e, convenhamos, não é propriamente a imagem que gostamos de passar logo no início de um percurso profissional.

A minha filha Carmo e eu, numa selfie em dia soalheiro

Por outro lado, recordo-me de um dia que em que um evento a começar as 20h30 fez com que não visse a minha filha acordada durante um dia inteiro, o que me trouxe um sentimento de frustração e aquele horrível pensamento de ter “preferido” o trabalho à minha bebé.

Filipa Jardim da Silva afirma que as mulheres precisam de se lembrar que não têm superpoderes, nem conseguem ser omnipresentes. “Não é possível nenhuma mãe estar sempre presente, quer trabalhe ou não”, afirma a especialista. “A presença não se resume a um corpo físico no mesmo espaço que os filhos: estar presente é estar atento e disponível emocionalmente e, dessa forma, todas as mulheres necessitam  de um espaço e tempo para estarem focadas noutras dimensões da vida. As mães são pessoas com limites e necessidades, com um tempo diário finito. E no caso do trabalho, será importante  planear bem os dias – mais do que a quantidade de tempo que se passa no trabalho ou com os filhos, o que importa é a qualidade dessa presença”.

Marta Martins assume já ter passado por situações embaraçosas enquanto tentava conciliar a rotina de um bebé de poucos meses com o trabalho.

“Como conseguia trabalhar a partir de casa na época, aproveitava as sestas do Frederico para fazer tudo o que tinha estipulado. Naqueles períodos de hora e meia, duas horas escrevia os textos e fazia as entrevistas por telefone. Foi numa dessas entrevistas que o Frederico acordou a chorar no berço. Espreitei a ver se estava tudo ok e corri para a outra ponta da casa para a pessoa não se aperceber. Mas não me safei de ouvir um ‘vá lá tomar conta do seu bebé’. No entanto, na maioria das vezes, este método funcionava, aproveitava para despachar tudo de trabalho assim que ele adormecia.”

Separar as águas e tornar rentável o tempo no contexto profissional e pessoal é a estratégia de Patrícia, que assume acabar por sacrificar o seu descanso para garantir que nem o filho nem o trabalho são descurados.

“Tento ser flexível ao máximo para conseguir equilibrar tudo. Valorizo muitíssimo o meu trabalho. Assumo-me como workaholic, tenho muito trabalho e prazos apertados e nunca abriria mão desta realidade. Mas o Lucas não tem culpa desta minha escolha que muitas vezes me obriga a passar dois meses seguidos a trabalhar, fins-de-semana e feriados incluídos. E ele já exige a minha presença, mostra que está triste e confesso que nesses picos de trabalho é complicado gerir. Por isso, quando me é possível, tento ser criativa e dar a volta à situação. Se tenho um prazo que preciso mesmo de cumprir, prefiro sair do trabalho à hora normal ou até um pouco mais cedo, estou com o meu filho, brinco com ele, dou-lhe banho, jantar e assim que ele adormece, sento-me em frente ao computador. Prefiro sacrificar o descanso para poder estar mais um pouco com ele.”

Mas o descanso das mães é importante e, quando não existe, pode ameaçar o desempenho profissional. “Desde que mudei de emprego e tenho um horário mais tradicional, das 9h às 18h, é que percebo o que custa a privação de sono e ir trabalhar sem dormir. Ainda esta semana passei uma manhã inteira com tonturas, algo que nunca tive na vida. E depois percebi que estava tão cansada de passar as noites acordada, que as tonturas eram a consequência”, confessa Marta.

Assumo-me como workaholic, tenho muito trabalho e prazos apertados e nunca abriria mão desta realidade. Mas o Lucas não tem culpa desta minha escolha.”

Patrícia concorda, e assume que a falta de descanso a torna muito menos produtiva: “É horrível. Quando não durmo, ressinto-me imenso. Houve uma época em que o Lucas não andava a dormir bem, eu ia trabalhar muito cansada e sentia que não estava a render. O meu trabalho exige-me muita criatividade e estava constantemente a bloquear. Acabava por comer doces para me dar uma energia extra, já que não bebo café, e recorria muito ao apoio da equipa que trabalha comigo. Foi uma fase complicada mas tive mesmo de ter calma e perceber que ia passar, que ele ia voltar a dormir de noite e as coisas iriam encarrilar.”

Pode parecer estranho, mas uma boa maneira para contornar este cansaço (e não só) poderá passar por ficar mais cansada ainda – o exercício físico pode fazer maravilhas pelas mães. “As mães, como qualquer mulher, devem garantir um auto-cuidado para manter bons níveis de saúde física e psicológica. A prática regular de meditação e alguma atividade física ajuda a flexibilizar a capacidade de auto-observação, o que é fundamental para colocar em perspetiva pensamentos e emoções”, salienta a psicóloga clínica.

Em casa, desligue tudo o que a ligue ao trabalho

Nos dias de hoje, estamos sempre ligados. A maioria de nós acede ao email profissional através do telefone, transporta o computador do trabalho para casa e vice-versa, e até marcamos reuniões via Messenger. Numa era tão tecnológica como esta em que vivemos, é fácil misturarmos as coisas. Ainda há bem pouco tempo, num dia que passei no hospital com a minha filha, dei por mim a verificar constantemente a caixa de emails do trabalho enquanto aguardava por análises (e confesso que achei que estava a ser julgada pelos enfermeiros). Mas a separação de espaços e papéis é meio caminho andado para o sucesso.

É uma questão de prioridades e, apesar de adorar trabalhar, coloco o meu filho em primeiro lugar.”

“No trabalho, o foco deverá estar otimizado nas tarefas profissionais para potenciar a produtividade”, assume a especialista. “Em família, desligar os aparelhos electrónicos e outras fontes de distração é necessário para que a atenção seja direcionada de forma plena, possibilitando uma interação e comunicação de qualidade com os filhos e companheiro. Aprender a dizer não, a delegar e a distinguir o prioritário do acessório são competências importantes para um maior equilíbrio entre a dimensão pessoal e profissional.”

Marta e o filho Frederico, de 10 meses

José Sena Goulão

Desligar não parece ser problema para Marta, que assumiu funções no início do ano como consultora de comunicação, mas não leva trabalho para casa. “Desligo mesmo. Assim que saio do trabalho, acabou. Coloco o telefone profissional em silêncio e pronto. É uma questão de prioridades e, apesar de adorar trabalhar, coloco o meu filho em primeiro lugar. O trabalho vai sempre fazer-se e nunca vai sair prejudicado, se não conseguir terminar na sexta, na segunda-feira está lá à minha espera. Houve uma altura em que foi diferente, digamos que tapava os buracos todos. Ainda enquanto jornalista, não interessava a hora. Se fosse necessário cobrir uma conferência de imprensa lá estava eu, fossem oito da manhã ou oito da noite. Mas desde que fui mãe isso mudou”.

Gerir uma vida profissional desafiante com a maternidade não é tarefa fácil, mas o apoio é algo crucial, tanto na minha vida como na de Marta e Patrícia. No meu caso, o pai da minha filha cuida dela tanto como eu e é uma peça fundamental ainda antes dela nascer – aliás, acho mesmo que não teria sobrevivido às 26 horas de trabalho de parto sem ele a dar-me força. Não existe qualquer diferença entre os nossos papéis e sempre desempenhámos as mesmas tarefas no que diz respeito a cuidar da nossa filha. Até no aleitamento nos dividíamos, dado que só amamentei nas primeiras semanas.

Os pais cada vez mais assumem um papel fundamental e igual ao das mães. Aliás, as mais recentes alterações nas licenças de parentalidade efetuadas pela Segurança Social foram a prova disso, alargando os dias que o pai pode tirar e as condições dos mesmos. No caso de Marta, que teve de regressar ao trabalho seis semanas depois do parto, foi o companheiro a usufruir a licença. Já Patrícia assume que o facto de o marido trabalhar como freelancer permite-lhe recorrer muitas vezes a ele quando existe alguma urgência no trabalho.

“Somos a melhor geração de pais, a mais esforçada e a mais preocupada”

Quando falamos de apoio, é também incontornável falar dos avós – para quem, como eu, tem a sorte de poder recorrer aos pais para emergências e também como uma alternativa à creche. Segundo um estudo publicado em 2014 pela Fundação Calouste Gulbenkian, Portugal, juntamente com outros países do sul da Europa, apresenta uma maior percentagem de avós a cuidar dos netos a tempo inteiro – num conjunto de 11 países europeus, Portugal é também a nação com a mais elevada percentagem de mães com filhos de idades inferiores a seis anos a trabalhar a tempo inteiro, o que justifica, em parte, este apoio por parte dos avós.

O pediatra Mário Cordeiro, em declarações à Lusa, chegou a afirmar que o convívio intergeracional é fundamental e adiantou que  “os avós podem transmitir sabedoria aos netos. Este contacto humano é bom, calmo e tranquilo, mas firme, com regras e afeto”.

Patrícia Oliveira admite que a mãe é o seu plano de contingência: “Já aconteceu estar sozinha em casa com o Lucas e surgir uma situação mesmo muito grave. Ainda bem que a minha mãe vive mesmo ao meu lado, só tive tempo de o deixar em casa dela, dizer que explicava depois e sair a correr”.

As mães não têm que ser perfeitas

Durante a minha gravidez, entrei num mundo novo e apercebi-me que à medida que a minha barriga crescia, também as opiniões das pessoas à minha volta aumentavam. Familiares, amigos e, por mais incrível que pareça, também os estranhos estavam super interessados em dizer-me o que devia ou não fazer quanto a esta fase da minha vida, da gestação à educação da minha filha. Com o muito tempo livre que tinha em mãos nos meses anteriores ao nascimento da Carmo, frequentei alguns fóruns de gravidez e maternidade, bem como grupos de Facebook com o mesmo efeito. E acabei por perceber que grande parte das mulheres e mães nestes círculos virtuais são perfeitas – ou assim o querem parecer.

Mais do que ser uma mãe ideal e perfeita, é importante que as mulheres procurem ser mães suficientemente boas.”

“O meu bebé dorme a noite toda, é óbvio que se está sempre com o seu ao colo ele tem mimo”, “leite artificial? Que horror, não há melhor que o leite materno”, “as papas de supermercado são um poço de açúcar, isso é preguiça de fazer uma papa caseira e o seu filho é que sofre”. Comentários deste género são uma constante nas redes sociais. Óbvio que se tratam apenas de exemplos e não estou aqui a discutir os benefícios da amamentação ou de papas caseiras, mas sim a necessidade das outras pessoas (mulheres e mães, principalmente) afirmarem a sua opinião como verdades absolutas e apontarem um dedo acusatório ao género de “se não fazes isto, és péssima mãe”.

“Mais do que ser uma mãe ideal e perfeita, é importante que as mulheres procurem ser mães suficientemente boas”, afirma Filipa Jardim da Silva. “Não alimentar modelos idealizados nem pensamentos críticos destrutivos ajuda a salvaguardar a auto-estima da mulher que é mãe.”

No meu caso, e especificamente em relação ao trabalho, tento lembrar-me todos os dias que não sou uma supermulher, não me consigo teletransportar nem dividir-me em quatro. Acho que o primeiro passo para dar o melhor de mim enquanto mãe é ser uma pessoa preenchida e realizada, também profissionalmente, dado que o trabalho faz parte de mim e não me consigo sentir completa se este lado da minha vida não existir. E por cada dia que não chego a casa a horas de ver a minha filha acordada ou de brincar com ela, tento libertar-me dessa culpa e faço os possíveis e os impossíveis para no dia seguinte ser eu a ir buscá-la a casa dos avós.

“Tenho a perfeita noção que o melhor que podes dar ao teu filho é tempo, por isso é que acabo por me sacrificar algumas vezes para obter isso mesmo. Mas tenho, desde que fui mãe, ainda mais ambição e garra para trabalhar. Existe um grau de responsabilidade para com a minha família, uma preocupação em lhes garantir uma vida estável e com oportunidades”, conta Patrícia.

A culpa é uma emoção tóxica, pelo que importa não a alimentar. “Não é possível estarmos em todo o lado ao mesmo tempo e, tal como uma criança doente pode exigir que a mãe fique em casa a dar assistência, uma semana particularmente dura no trabalho pode requerer horários mais alargados. É nesse equilíbrio que devemos apostar para potenciar a qualidade da nossa experiência e presença”, conclui a especialista.